Sombras do Poder
Dizem que Montenegro fala bem. Que sabe o que dizer, quando e a quem. Talvez isso seja hoje o bastante para um político — a arte de parecer sólido num país cansado de pensar.
O problema é que as palavras, quando não trazem dentro delas um silêncio verdadeiro, apodrecem depressa. E o som que fica é o de uma engrenagem velha a repetir-se.
Montenegro sobe, o país desce — e ambos parecem conformados com a direção.
Montenegro é, em certo sentido, o político perfeito para o nosso tempo: não promete, gere; não convoca, equilibra. Constrói frases como quem monta um andaime, e o país, lá em baixo, continua a cair.
Fala de mérito, de crescimento, de estabilidade — como se o vocabulário da gestão pudesse substituir o da esperança.
Há nele um eco de todos os que, antes, subiram por escadas parecidas: Passos, Guterres, Barroso — sombras diferentes do mesmo espelho. Todos aprenderam a mover-se entre o realismo e a indiferença, como se governar fosse apenas administrar o inevitável. Mas o inevitável é sempre o nome que damos ao que deixámos morrer.
Quem é Montenegro? – é um homem adaptado. E o adaptado nunca transforma nada. Está sempre pronto para o poder porque já desistiu de o merecer. Por isso fala tanto da estabilidade — porque o medo da queda substituiu a ambição do voo.
Portugal olha-o, hesita, e reconhece nele algo familiar: a prudência, o cansaço, a resignação. Talvez por isso o país o suporte, sem entusiasmo mas sem repulsa. O espelho devolve-nos o rosto que já não ousamos mudar.
Se um dia Montenegro vencer, não será pela força das ideias, mas pela fraqueza do tempo. E ao entrar em São Bento, com aquele ar de quem cumpre um protocolo antigo, perceberemos que o verdadeiro segredo do poder é não o merecer demasiado.
E talvez, nesse instante, o país acorde. Ou se resigne de vez.
Autor: Elian Morvane
Cartoon / Ilustração editorial / Direitos reservados (uso simbólico).
“Sombras do Poder” é uma série de crónicas literárias de Elian Morvane, publicadas no Arcana News. Entre a política e a ficção, o autor observa as figuras públicas como arquétipos de um país cansado de promessas. Não escreve para acusar, mas para compreender — onde termina o homem e começa o mito do poder.


