O Silêncio que o Estado Não Ouve

No Palácio de Mafra, o maior conjunto sineiro do mundo esteve mudo quase vinte anos. Como Portugal classifica o que não cuida — e o que fica quando os ofícios morrem sozinhos.

Economia

Aurelian Draven
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Aurelian Draven é correspondente especial do Arcana News, dedicado ao estudo de conflitos, memória e territórios esquecidos. É focado em segurança internacional, zonas de conflito e dinâmicas do Médio Oriente.

No Palácio de Mafra, o maior conjunto sineiro do mundo esteve mudo quase vinte anos. Como Portugal classifica o que não cuida — e o que fica quando os ofícios morrem sozinhos.


A escada é de pedra e sobe em espiral. Ao fim de três lanços, a luz muda de qualidade: deixa de ser a luz de um palácio barroco e passa a ser outra coisa — filtrada, mineral, ligeiramente fria, como se o ar dentro da torre tivesse uma densidade própria. Depois aparecem os sinos.

Não é uma visão gradual. São enormes e estão ali, suspensos sobre estruturas de ferro, cada um com o seu badalo imóvel no centro. O maior pesa centenas de quilos.

O bronze tem a cor do cobre envelhecido em lugar sombrio, e guarda marcas de décadas — não ferrugem exactamente, mas a patine de quem esteve exposto ao tempo sem ter sido tocado.

Em 2001, o mecanismo que os fazia soar parou. Durante dezoito anos, ninguém o voltou a pôr em movimento.

As torres do Palácio Nacional de Mafra — que contêm, juntas, 119 sinos e os dois únicos carrilhões históricos de Portugal, fundidos no século XVIII por artesãos flamengos — ficaram em silêncio enquanto o mundo vinha fotografá-las por baixo.

É preciso subir para perceber o que estava em jogo. Cá em baixo, o palácio continua imponente, classificado, visitado. O silêncio nas torres não tem representação visível no exterior. Quem passa pelo terreiro olha para cima e vê pedra e janelas. Não ouve o que falta.


Francisco Gato subiu esta escada pela primeira vez em 1972. Não havia contrato, nem enquadramento institucional, nem definição clara do que ia fazer ali.

Havia o instrumento — o carrilhão da torre sul, com os seus sinos afinados em escala cromática, com o seu teclado de madeira pesada que os carrilhonistas tocam com as palmas das mãos fechadas, para que os dedos não partam sob o esforço das alavancas — e havia a decisão pessoal de se tornar a pessoa que o tocava.

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O carrilhão não é um instrumento que se toca sentado. As alavancas que accionam os sinos exigem o corpo inteiro — os braços fecham sobre o teclado com força suficiente para mover dezenas de quilos de bronze suspenso a vários metros acima.

O som, quando acontece, não se ouve dentro da torre: é demasiado próximo, demasiado físico para ser música ainda. Torna-se música lá fora, no ar, sobre a planície.

Durante décadas, Gato subiu as escadas, preparou programas, fez concertos ao domingo. Não com a estabilidade de quem tem emprego garantido — a intermitência era a condição.

Numa entrevista, disse o que toda a gente que trabalha neste domínio em Portugal acaba por dizer de uma forma ou de outra: eu não toco por profissão ou por dever de ofício.

É um diagnóstico, não uma declaração de modéstia.

A frase descreve um sistema que precisa do trabalho mas não cria condições para que ele exista com estabilidade — que classifica o instrumento e precariza o ofício, como se ambos pudessem sobreviver separados. Gato sustentou a contradição durante décadas por amor ao instrumento. Em 2001, o mecanismo parou. Gato continuou a existir. O carrilhão não.


Para compreender o peso deste silêncio é preciso saber de onde veio o bronze.

Os dois carrilhões de Mafra foram fundidos no século XVIII, por encomenda da Coroa portuguesa, em Flandres. Willem Witlockx, em Antuérpia, fundiu um. Nicolas Levache, em Liège, o outro. O transporte até Portugal foi uma operação da escala das grandes encomendas régias do barroco — dezenas de sinos, cada um afinado para encaixar numa escala musical precisa, pesados o suficiente para que o som atravesse pedra e alcance a planície. A decisão de os encomendar a fundidores flamengos não foi acidental: Flandres era, então como agora, o centro mundial do saber campanológico. Portugal sabia onde estava a competência e foi buscá-la.

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O que Portugal não conseguiu, nos séculos seguintes, foi criar internamente o equivalente desse saber.

A história da sinologia portuguesa é uma história de interrupções violentas e reconstruções incompletas. O terramoto de 1755 destruiu a infraestrutura horária de Lisboa num único dia — torres, mecanismos, a teia de pessoas formadas para os manter. As Invasões Francesas derreteram sinos para fazer balas de canhão: o bronze que custara décadas a afinar desapareceu em semanas, convertido em projéctil.

A extinção das ordens religiosas em 1834 foi talvez a ruptura mais silenciosa e mais profunda — os conventos e mosteiros que eram, até então, os repositórios vivos deste saber foram esvaziados de um dia para o outro. Os edifícios ficaram, muitas vezes intactos. As pessoas que sabiam como os mecanismos funcionavam, como se dava corda, como se afinava o badalo, como se compensava o desgaste de uma roda dentada — dispersaram-se sem transmitir o que sabiam. Cada ruptura apagou uma parte da cadeia. O que restou foi sendo mantido por teimosia individual, por amor ao ofício.

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