REPORTAGEM · Mundo · Rússia e Ucrânia · Guerra e Drones
Um telefonema quase arruinou uma das operações clandestinas mais audaciosas desta guerra.
Um camionista russo, em pânico, ligou ao gestor que o contratara: o teto da cabina pré-fabricada que transportava no atrelado tinha escorregado e revelara algo que não devia estar ali. Sob a estrutura metálica, alinhados em silêncio, estavam dezenas de drones.
“Que porcaria é esta? Isto são drones debaixo do teto”, terá disparado o motorista. Do outro lado da linha, o ucraniano Artem Tymofeyev fingiu surpresa: “Mas que raio…?”.
Na verdade, nada naqueles camiões era inocente. Os módulos “de habitação” montados sobre as plataformas escondiam o núcleo da Operação Spiderweb, um plano secreto dos serviços de segurança ucranianos (SBU) concebido para atingir o que a defesa aérea de Kiev não conseguia alcançar: os bombardeiros russos estacionados a centenas de quilómetros de distância, usados para lançar mísseis contra cidades ucranianas.
Tymofeyev, ucraniano de 37 anos a viver na Rússia, era o coordenador no terreno. Em Kiev, a equipa de planeamento seguia o trajeto dos camiões em tempo real. Quando o teto deslizou e o motorista viu os drones, a operação esteve à beira de ruir: bastava uma chamada à polícia, um comentário à esposa, uma fotografia enviada ao contacto errado. Em minutos, o aparelho de segurança russo poderia desmontar uma missão preparada ao longo de 18 meses.
A resposta veio depressa. O SBU transmitiu ao camionista uma história mais ou menos plausível: as cabinas eram supostos abrigos de caça, equipados com drones para localizar animais em grandes áreas. O homem acabou por aceitar a explicação. Voltou a montar o teto com a ajuda de um tratorista local e, pouco depois, enviou a Tymofeyev uma mensagem com uma única palavra: “Fechado”. A operação continuava viva.
Do gabinete de Zelensky ao interior da Rússia
O embrião da Operação Spiderweb nasceu no outono de 2023, quando Volodymyr Zelensky chamou ao seu gabinete o chefe do SBU, general Vasyl Maliuk. As forças russas estavam a usar bombardeiros para lançar mísseis a partir de distâncias onde os sistemas de defesa ucranianos quase nada podiam fazer. Intercetar cada míssil era caro e cada vez mais difícil; atacar os aviões no ar era quase impossível. Zelensky foi direto: era preciso atingir os aparelhos no solo.
O SBU já experimentara drones de longo alcance, mas a tecnologia disponível tinha limitações de autonomia, precisão e carga explosiva. A primeira ideia foi clássica: infiltrar alguns drones em território russo e lançá-los a partir de locais discretos, como campos com erva alta nas proximidades de uma base aérea. Rapidamente se concluiu que não chegaria: meia dúzia de aparelhos não faria mossa séria a uma das maiores frotas de bombardeiros do mundo.
“Não chega, não chega mesmo”, recordaria mais tarde um dos planeadores. Era preciso pensar em grande – e pensar de outro modo.
Casas sobre rodas e um cavalo de Troia
A solução surgiu de um dos oficiais envolvidos: construir casas pré-fabricadas, do tamanho de contentores marítimos, para servirem de “estaleiro” e plataforma de lançamento. Cada módulo seria transportado no atrelado de um camião, como se fosse uma simples casa de campo. Por dentro, a história era outra.
Engenheiros e técnicos criaram um sistema de teto deslizante que podia ser acionado remotamente a partir da Ucrânia. No interior, prateleiras e suportes foram desenhados para acomodar até 25 drones por cabina. Baterias e painéis solares garantiam energia suficiente para manter comunicações e carregar os aparelhos. De fora, parecia apenas mais um módulo pré-fabricado industrial.
O desenvolvimento dos drones foi relativamente mais simples. A indústria de guerra ucraniana já tinha uma base tecnológica forte. O SBU encomendou um aparelho específico: um quadcóptero pouco maior do que um prato de jantar, com quatro rotores, capaz de transportar cerca de dois quilos de explosivos e de voar de forma autónoma até perto das bases russas.
A carga explosiva foi concebida para penetrar a fuselagem e provocar a ignição do combustível nos depósitos. O voo faria-se em duas fases: primeiro, o drone seguia sozinho por coordenadas até à zona da base; depois, já próximo do objetivo, um piloto na Ucrânia assumia o controlo, guiado por imagem em tempo real e usando a rede de telecomunicações local.
O SBU juntou alguns dos seus melhores operadores de drones, que passaram semanas a treinar com os novos aparelhos, horas a fio, para fixar gestos, respostas e reflexos. Sabiam que se tratava de uma missão especial, mas não lhes foi dito, nessa fase, qual seria exactamente o alvo.
A compartimentação era radical. Os fabricantes das cabinas não sabiam que iriam parar a aeródromos militares. Os técnicos que montaram os drones não foram informados dos planos para os usar. Apenas um pequeno círculo via o desenho completo.
Contrabando ao contrário e um casal improvável
Faltava o passo mais arriscado: levar tudo isto para dentro da Rússia sem levantar suspeitas. Aqui, o SBU aproveitou a experiência acumulada no combate ao contrabando. Ao vigiar rotas ilegais ao longo dos anos, o serviço aprendera como funcionavam as brechas no controlo fronteiriço russo e como a corrupção permitia a passagem de cargas não declaradas. Desta vez, o contrabandista seria o próprio Estado ucraniano.
Os drones foram desmantelados em componentes para atravessar a fronteira, as cabinas receberam documentação falsificada sobre a sua origem e destino. Quando todo o material entrou em território russo, era preciso alguém de absoluta confiança para montar a estrutura e organizar a logística: um ponto de convergência entre a Ucrânia e a Rússia.
A escolha recaiu sobre um casal à primeira vista banal. Artem Tymofeyev, ex-DJ de clubes em Kiev, tinha-se mudado em 2018 para Chelyabinsk, no interior da Rússia, para trabalhar com o pai, dono de um moinho de farinha. A mulher, Kateryna, era tatuadora, com páginas de redes sociais povoadas de fotografias cuidadosamente encenadas. Ambos tinham feito parte dos protestos de 2014 em Kiev contra o presidente pró-russo da altura. Mais tarde, como milhões de ucranianos, emigraram para a Rússia em busca de trabalho.
Para o SBU, eram o perfil ideal: ucranianos integrados no tecido social russo, fluentes em russo, com ligações discretas e mobilidade. Antes de lhes confiar o papel central, o SBU levou o casal a Lviv, no oeste da Ucrânia, onde foram submetidos a testes, incluindo polígrafo. Convencido da sua lealdade, o serviço deu-lhes o coração da operação: aprender a montar drones e cabinas, coordenar a sua circulação e contratar camionistas.
De regresso a Chelyabinsk, os Tymofeyev foram interrogados durante horas pela polícia federal russa à passagem da fronteira. Tinham passaporte russo, mas o local de nascimento ucraniano acendeu alertas. Acabaram por passar. Pouco depois, Artem criou uma empresa de logística, arrendou um armazém numa zona industrial – ironicamente, não muito longe de um escritório local dos serviços de segurança russos – e começou a comprar camiões e a entrevistar motoristas.
Os condutores tinham de reunir duas qualidades raras: serem suficientemente responsáveis para cumprir as rotas, mas não curiosos ao ponto de desmontarem tetos ou fazer perguntas a mais. Cada candidato era verificado, em segredo, pelo SBU, para afastar qualquer ligação às forças de segurança russas.
No armazém, o casal passou dias inteiros a montar, peça a peça, 150 drones e oito cabinas. Os drones ficaram prontos em cerca de uma semana; as cabinas deram mais trabalho, com tetos que teimavam em sair das dobradiças e tiveram de ser ajustados várias vezes segundo instruções vindas da Ucrânia.
O dia dos drones
No final de abril, o dispositivo estava pronto. O SBU queria que o ataque coincidisse com o período de celebrações militares do Dia da Vitória, a 9 de maio. Mas a realidade russa atrapalhou o calendário: entre Páscoa ortodoxa, 1 de Maio e feriados ligados à guerra, o álcool correu em excesso e alguns motoristas ficaram inoperacionais. A partida teve de ser adiada.
Só entre 23 e 26 de maio é que cinco camiões saíram finalmente de Chelyabinsk, puxando oito “casas” em direções diferentes, ao longo de milhares de quilómetros, rumo a quatro bases aéreas. Os condutores iam convencidos de que transportavam estruturas para fins civis. Apenas Artem, Kateryna e o núcleo duro do SBU sabiam verdadeiramente o que seguia dentro de cada módulo.
Depois do episódio do teto que deslizou – e da explicação improvisada da “cabana de caça com drones para localizar animais” – a operação entrou na fase final. No amanhecer de 1 de junho, em Kiev, a equipa reunida no centro de comando acompanhava as últimas movimentações. Os camiões estacionavam discretamente em bombas de gasolina e parques de camiões perto das bases.
Foi só nesse momento que os pilotos de drones ficaram a saber o que iam atacar. O general Maliuk entrou na sala, descreveu o alvo: bombardeiros estratégicos russos estacionados em quatro aeródromos diferentes. Espalhou sobre a mesa mapas e esquemas dos aviões, com pontos fracos assinalados. A missão: atingir precisamente esses locais.
À distância de centenas de quilómetros, os tetos das cabinas começaram a abrir. Dos módulos emergiram 117 drones, um após o outro, e levantaram voo. Os pilotos, nos seus postos em Kiev, guiavam-se por ecrãs onde as imagens transmitidas pelas câmaras dos aparelhos mostravam pistas, hangares, silhuetas de aviões.
“Depois dos primeiros impactos, quase não era preciso procurar o alvo: bastava seguir o fumo negro”, lembraria mais tarde um dos operadores. Na sala, cada explosão certeira era recebida com exclamações e aplausos contidos. Avião após avião, a frota russa estacionada tornava-se um alinhamento de carcaças em chamas.
Nem tudo correu bem. Um dos camiões foi substituído à pressa devido a uma avaria, e as ligações com duas das cabinas montadas nesse veículo revelaram-se instáveis. Tentou-se, a partir de Kiev, guiar o motorista para fazer pequenas reparações na cablagem, por telefone. As comunicações falharam. Dias mais tarde, imagens de cabinas queimadas circularam nas redes, indiciando que algo – talvez um curto-circuito, talvez outra coisa – provocara uma explosão que matou o condutor.
Ainda assim, a operação cumpriu grande parte dos objetivos. De acordo com a contabilidade ucraniana, 41 aeronaves russas foram atingidas, pelo menos uma dúzia delas destruídas de forma irreparável. Analistas independentes, com base em imagens de satélite, admitem números mais baixos, mas concordam que o golpe foi significativo. Os serviços ucranianos mantêm a sua versão, argumentando que Moscovo terá tentado “baralhar” as contas movendo aparelhos intactos para os lugares dos danificados.
Fuga pela fronteira e uma nova reputação
Na Rússia, a reação foi lenta. Os vídeos dos drones a levantarem voo de junto de camiões estacionados espalharam-se nas redes sociais, publicados por testemunhas admiradas, civis e militares. No dia seguinte, as autoridades anunciaram que Artem Tymofeyev era suspeito de envolvimento nos ataques. Quando o nome se tornou público, ele e Kateryna já tinham desaparecido.
Dias antes, discretamente, o casal cruzara a fronteira com o Cazaquistão num furgão alugado, levando consigo alguns pertences importantes – e até dois animais de estimação, um gato Scottish Straight e um cão Shih Tzu. Aparentemente, estavam a ir de férias. Na realidade, era a fuga calculada de quem sabia que o relógio começara a contar assim que os primeiros drones levantaram voo.
Para o SBU, Spiderweb foi mais do que um sucesso operacional. Atingiu não só aviões, mas também a reputação de um serviço durante anos visto como herdeiro desconfiado da KGB soviética, minado por corrupção e infiltrações. Sob a liderança de Vasyl Maliuk, o organismo procurou reinventar-se, passando de polícia secreta pesada a laboratório de operações especiais, capaz de combinar tecnologia, logística e improviso.
Numa guerra em que a Ucrânia tem menos homens, menos aviões e menos mísseis do que o adversário, a Operação Spiderweb mostra até onde o país está disposto a ir para virar o tabuleiro. O que parece, à superfície, uma simples casa pré-fabricada sobre um camião pode ser, afinal, um pequeno hangar de guerra à espera do sinal para abrir o teto.
Autor do texto: Alberto Carvalho


