ANÁLISE · Mundo · EUA · Guerra na Ucrânia e Economia
A nova proposta da administração Trump para a Ucrânia não é apenas um plano de paz: é um plano para reordenar a economia europeia a partir da guerra. Em vez de se limitar a discutir fronteiras, cessar-fogo e garantias de segurança, Washington avançou com um esquema económico que, em simultâneo, promete reconstruir a Ucrânia, reaproximar a Rússia dos mercados globais e abrir uma frente de negócios sem precedentes para o capital norte-americano.
No centro da proposta estão cerca de 200 mil milhões de dólares em ativos russos congelados desde a invasão de 2022. Esse dinheiro está, em grande medida, estacionado em instituições europeias e tem sido visto em Bruxelas como um instrumento de pressão: mantém-se a propriedade formal em nome de Moscovo, mas impede-se o regime de usar essas reservas enquanto continuar a agressão contra a Ucrânia. A União Europeia discutia já a possibilidade de usar os lucros desses ativos para financiar o orçamento ucraniano e a compra de armamento, sem tocar, pelo menos por agora, no capital imobilizado.
Trump quer ir muito mais longe. Os documentos enviados às capitais europeias apresentam um modelo em que grandes bancos de investimento e fundos norte-americanos passariam a gerir diretamente estas verbas para financiar projetos de reconstrução em território ucraniano. Um dos exemplos apontados é a construção de um enorme centro de dados, pensado para ser alimentado pela central nuclear de Zaporizhzhia – a maior da Europa –, atualmente ocupada por forças russas. A expectativa da Casa Branca é que, com a alavancagem financeira típica de Wall Street, o montante inicial possa crescer várias vezes, transformando os ativos congelados num “motor” de investimento privado.
O segundo pilar do plano é ainda mais sensível para os europeus: uma reentrada programada da Rússia na economia global.
A visão traçada em Washington prevê que, depois de um acordo de paz, empresas norte-americanas comecem a investir em setores considerados estratégicos – metais raros, energia, exploração no Ártico – e que, gradualmente, se restabeleçam os fluxos energéticos russos para a Europa e para outros mercados. Não se trata apenas de levantar sanções, mas de redesenhar quem controla e intermedeia esses fluxos.
É aqui que se abre a fratura com a Europa.
Desde o início da invasão, a UE fez da redução da dependência do gás russo uma prioridade. Gasodutos que durante décadas alimentaram a indústria europeia foram desligados ou destruídos, e foi aprovado um calendário para acabar com as importações por oleoduto e gasoduto num horizonte de poucos anos.
A lógica europeia tem sido clara: quanto menos receitas energéticas Moscovo tiver, menos capacidade terá para sustentar o esforço de guerra e ameaçar os vizinhos. Reabrir a torneira russa, ainda que com nova arquitetura financeira, é visto por muitos governos como o regresso a um erro que custou caro.
Do ponto de vista político, o plano norte-americano é apresentado como um “negócio de paz”: quanto mais entrelaçadas estiverem as economias de Ucrânia, Rússia, Europa e Estados Unidos, menor será a probabilidade de regressar à guerra aberta.
A administração Trump assume, porém, uma diferença importante face à antiga doutrina europeia de “mudança através do comércio”: não espera que a Rússia se transforme numa democracia. O objetivo é mais pragmático – estabilizar o regime, travar a guerra e devolver previsibilidade aos mercados, com Washington no centro da engrenagem.
Vários responsáveis europeus que tiveram acesso aos documentos reagiram com desconforto. Alguns reconhecem a necessidade urgente de dinheiro para a reconstrução ucraniana, mas receiam que o plano acabe por dar à Rússia a folga económica de que precisa para recuperar, rearmar-se e voltar a usar a energia como arma política. Outros olham para o mapa e veem outra coisa: uma tentativa de “partilhar” a arquitetura económica do pós-guerra, em que os Estados Unidos ficam com a chave dos grandes investimentos e a Europa com o papel de cliente e fiador.
Enquanto isso, o calendário diplomático acelera.
Trump falou por telefone com Emmanuel Macron, o chanceler alemão Friedrich Merz e o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, insistindo que a guerra “já dura há demasiado tempo” e sugerindo que os europeus se movem devagar.
Em paralelo, Volodymyr Zelensky tem multiplicado contactos com o setor financeiro, incluindo reuniões com o presidente executivo da BlackRock, Larry Fink, para discutir cenários de reconstrução. Em Londres, Paris e Berlim sucedem-se reuniões em que líderes europeus tentam coordenar posições antes de sentarem à mesa com os emissários de Washington.
Entre esses emissários destacam-se dois nomes: Steve Witkoff, designado como enviado para a Rússia, e Jared Kushner, genro do Presidente e figura já conhecida das grandes negociações da primeira presidência Trump.
Os dois têm ouvido executivos de topo de Wall Street sobre a criação de estruturas financeiras capazes de absorver e multiplicar os ativos russos congelados. Nalgumas versões apresentadas a Kiev, o plano assume contornos quase de “capitalismo redentor”: veteranos ucranianos seriam convidados a trocar as armas por empregos altamente remunerados em centros de dados de última geração, construídos e geridos por empresas norte-americanas.
Do ponto de vista europeu, esta narrativa traz riscos evidentes. Por um lado, a justiça mínima da situação: usar dinheiro russo para reconstruir um país devastado pela Rússia pode parecer legítimo, mas fazê-lo de modo a reabilitar rapidamente a economia de Moscovo, entregando a gestão a investidores externos, é outra coisa. Por outro, a autonomia estratégica: se os grandes ativos do pós-guerra forem geridos a partir de Nova Iorque, com regras e prioridades definidas em Washington, a margem de decisão europeia sobre o seu próprio espaço económico fica reduzida.
A isto soma-se a questão de fundo: o que fazer com uma Rússia debilitada, mas ainda perigosa. Serviços de informação ocidentais apontam que o país enfrenta já dificuldades reais para manter o equilíbrio entre a economia de guerra e o controlo da inflação, com sinais de pressão sobre o sistema bancário. Um alívio rápido das sanções e uma vaga de investimento externo podem estabilizar o país – ou podem consolidar o regime e prolongar a vida da máquina militar, sob nova forma.
A Ucrânia permanece no meio deste confronto de agendas. A curto prazo, Kiev precisa de dinheiro para pagar salários, manter infraestruturas básicas a funcionar e sustentar a defesa. A médio prazo, precisa de um plano de reconstrução credível, que não a transforme numa espécie de condomínio financeiro administrado de fora. Entre a abordagem europeia – mais cautelosa, centrada em empréstimos garantidos por ativos congelados e numa pressão prolongada sobre Moscovo – e o modelo norte-americano – mais agressivo, baseado em grandes operações de investimento e reabertura rápida da economia russa – o país arrisca ver o seu futuro decidido por interesses que não controla.
No fim, o debate em curso não é apenas sobre ativos congelados, sanções ou infraestruturas de gás. É sobre quem vai definir as regras do jogo na ordem económica pós-guerra: se serão as democracias europeias que vivem com a Rússia à porta, ou se será uma aliança entre capitais norte-americanos e elites russas reincorporadas, à sombra de um acordo de paz apressado. O plano de Trump não responde a essa pergunta – limita-se a dizer quem gostaria de estar no centro do tabuleiro.
Autor: Alberto Carvalho
Foto: Masood Aslami / Pexels


