Roubo de Matisse e Portinari expõe fragilidade cultural | Brasil

Economia

Elian Morvane
Elian Morvanehttps://www.arcananews.com/
Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

ANÁLISE · Brasil · Cultura

Quando uma biblioteca se transforma em alvo: o roubo que expõe a fragilidade cultural brasileira

Dois homens armados levaram treze gravuras de Matisse e Portinari da Biblioteca Municipal Mário de Andrade em São Paulo. O assalto em plena luz do dia revela não apenas falhas de segurança, mas uma questão mais profunda sobre como o Brasil protege o seu património artístico em espaços públicos de acesso livre.

Há qualquer coisa de profundamente perturbador num roubo de arte numa biblioteca pública. Não pela raridade do crime — museus e galerias são alvos frequentes de ladrões sofisticados em todo o mundo — mas pelo que representa sobre o equilíbrio impossível entre acesso público à cultura e proteção de obras insubstituíveis.

O assalto ocorrido na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, no centro de São Paulo, levou oito gravuras de Henri Matisse e cinco de Candido Portinari. Dois homens armados entraram no edifício, foram diretamente à exposição Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade, retiraram as obras das paredes e saíram. A operação terá sido rápida, coordenada e executada em horário de funcionamento normal da biblioteca.

A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa garantiu que o local dispõe de equipa de vigilância e sistema de câmaras de segurança, estando todo o material relevante a ser entregue às autoridades. Mas esta garantia levanta mais questões do que respostas. Se havia vigilância e câmaras, como conseguiram dois homens armados completar um roubo desta natureza? Quanto tempo levou? Houve alguma reação do pessoal de segurança? As câmaras permitirão identificação dos autores?

As autoridades não divulgaram detalhes sobre quais as obras específicas roubadas, o que dificulta avaliar o valor material do furto. Mas sabemos que a exposição, inaugurada a quatro de outubro e prevista para encerrar no dia do roubo, incluía peças raras como Jazz de Matisse e trabalhos de Portinari criados para edições de luxo de Machado de Assis e José Lins do Rego.

Uma obra-prima vulnerável

Jazz é particularmente significativa na história da arte do século XX. Matisse começou este livro em 1943, quando já tinha mobilidade reduzida após intervenções médicas. Foi o período em que desenvolveu a técnica que descreveu como pintar com a tesoura — recortes em papel colorido que se tornaram algumas das suas criações mais icónicas. O catálogo da exposição descreve-a como obra expoente da produção artística tardia do mestre francês.

As gravuras de Portinari tinham valor histórico igualmente considerável. Ilustrações criadas especificamente para edições especiais de dois pilares da literatura brasileira, representavam não apenas trabalho artístico de qualidade mas também um momento específico da cultura nacional — quando arte visual e literatura se cruzaram em projetos editoriais ambiciosos.

A exposição em si tinha um conceito interessante: mostrar obras maioritariamente das décadas de 1940 e 1950, período de sedimentação da arte moderna no Brasil e de criação de espaços dedicados a este movimento. A curadoria incluía uma seleção de livros adquiridos para representar a produção moderna na coleção da biblioteca, colocando artistas e investigadores brasileiros em contacto com a produção modernista europeia através de exemplares como Jazz de Matisse ou Cirque de Fernand Léger.

O dilema da segurança em espaços públicos

Aqui reside um dilema fundamental. Bibliotecas públicas são, por definição, espaços de acesso livre. A Biblioteca Mário de Andrade é frequentada diariamente por centenas de pessoas que vêm estudar, pesquisar, ler. Transformá-la numa fortaleza com segurança de museu contradiz a sua própria razão de existir. Mas ao mesmo tempo, se vai receber obras de valor histórico e artístico considerável, precisa de protegê-las adequadamente.

Não há solução fácil para este problema. Museus têm segurança específica, controlo de acesso rigoroso, sistemas de alarme sofisticados e equipas especializadas. Bibliotecas públicas têm portas abertas, fluxo constante de visitantes anónimos e orçamentos limitados. Quando se decide fazer uma exposição que traz obras valiosas para um espaço público deste tipo, assume-se um risco calculado.

A questão é se esse risco foi adequadamente avaliado neste caso. A exposição estava patente há dois meses. Houve tempo para estudar o espaço, identificar vulnerabilidades, planear uma operação. Se foi um roubo por encomenda — como frequentemente acontece com arte de valor — os ladrões podem ter estado a observar durante semanas.

Um padrão preocupante

O Brasil tem um historial complicado com proteção de património cultural. Não apenas em termos de roubos de arte, mas também incêndios catastróficos como o que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro em 2018, levando vinte milhões de itens. Cada caso tem especificidades próprias, mas juntos formam um padrão preocupante de instituições culturais subfinanciadas, com recursos inadequados e vulneráveis a perdas irreparáveis.

São Paulo é a maior cidade brasileira, um centro cultural e económico de primeira ordem. Se a Biblioteca Municipal Mário de Andrade — uma instituição icónica no coração da cidade — pode ser assaltada em pleno dia, que dizer de bibliotecas e centros culturais em cidades mais pequenas ou com menos recursos?

A investigação policial vai agora depender fortemente das imagens de videovigilância. Roubos de arte raramente se resolvem de imediato. As obras podem desaparecer no mercado negro internacional, serem retidas por colecionadores privados sem escrúpulos, ou ficarem escondidas durante anos à espera que o caso esfrie. A recuperação é estatisticamente improvável, embora não impossível.

Resta saber se este episódio vai provocar alguma mudança nas políticas de segurança em espaços culturais públicos brasileiros, ou se será apenas mais um caso arquivado na longa lista de património perdido. A resposta a essa pergunta dirá muito sobre quanto o Brasil valoriza verdadeiramente o acesso público à cultura — e quanto está disposto a investir para o proteger.

Autor: Arcana News

Imagem: Porto Alegre, by lukascaraffini2012 via pixabay

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