As Princesas de Platina e o Funeral do Feminismo Soviético

Economia

Aurelian Draven
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Aurelian Draven é correspondente especial do Arcana News, dedicado ao estudo de conflitos, memória e territórios esquecidos. É focado em segurança internacional, zonas de conflito e dinâmicas do Médio Oriente.

ANÁLISE · Rússia · Sociedade

Há uma imagem que resume melhor do que qualquer estatística o estado da mulher na Rússia de Putin: uma jovem de vinte e poucos anos, saída de uma cidade cinzenta de província, entra num clube de Moscovo com o cabelo impecavelmente alisado, o rosto retocado por cosmética cara e um vestido que vale mais do que o salário anual dos pais. No dia seguinte, aparece ao volante de um carro de luxo. Não foi promovida. Não inventou nada. Não chefia empresa alguma. “Conseguiu” um homem. E, no ecossistema social onde vive, isso basta para ser considerada vencedora.

Esta não é apenas uma história de ostentação. É o resultado de um século inteiro de experiências falhadas com o corpo e a vida das mulheres russas. Durante a revolução, as dirigentes bolcheviques quiseram libertá-las da família patriarcal e do casamento de interesse. Deram-lhes educação, divórcio sem humilhação pública, acesso à universidade, ao trabalho, a maternidades públicas e, muito cedo, até o direito ao aborto. Milhões de mulheres entraram no mercado laboral, encheram hospitais, fábricas, escolas. A avó e a mãe de muitas “princesas de platina” foram médicas, engenheiras, operárias, funcionárias do Estado. Sabiam desmontar uma máquina e resolver uma equação.

O que lhes prometeram, porém, nunca se cumpriu.

Sob o socialismo real, a mulher não deixou de ser dona de casa; passou a ser dona de casa depois do expediente. Trabalhava oito, dez horas; voltava para uma casa sem máquinas, sem produtos, sem abundância; lutava por fraldas, carne, roupa para os filhos. O Estado proclamava a igualdade, mas a famosa “dupla jornada” – laboratório e fogão, fábrica e fila do supermercado – continuava a ser só delas. Quando o sistema colapsou, no início da década de 1990, era evidente que o tal “paraíso emancipador” tinha deixado um rasto de cansaço e cinismo.

Depois veio a terapia de choque económica. Salários que não chegavam, empresas fechadas, homens atirados para o desemprego. Muitos recusaram descer na escala social: se já tinham sido engenheiros ou oficiais, não aceitavam tornar-se porteiros ou empregados de balcão. Deitaram-se no sofá, agarraram a garrafa e deixaram que fossem elas, outra vez, a segurar o país pelas pontas: ex-professoras a limpar casas, investigadoras a fazer caixa num supermercado, directoras de escola a lavar casas de banho.

É neste terreno que a Rússia de Putin constrói o seu “novo” ideal feminino. Não a camponesa heroica, nem a operária do cartaz de propaganda, mas a esposa ultra-feminilizada de um homem muito rico: manicure perfeita, corpo trabalhado, vestido de griffe, olhar treinado para saber onde está o dinheiro e como o segurar. O Kremlin recompôs a velha nomenklatura com outro verniz, mas a arquitectura moral é a mesma: um punhado de homens ligados ao poder político, contratos públicos que caem nas mãos dos amigos, uma aristocracia de jactos privados, iates e propriedades em Londres ou no Mediterrâneo. À volta deles, um enxame de mulheres que aprendem a sobreviver dentro da escala de valores que lhes oferecem.

Não admira, por isso, que floresçam “academias da vida privada”, “escolas de feminilidade” e cursos que prometem ensinar como prender um homem com presentes, elogios e acrobacias sexuais de catálogo. A linguagem é quase mística: quatro “estados” da mulher – menina, sedutora, rainha, dona de casa – alinhados com chakras, símbolos eslavos, fragmentos de cristianismo ortodoxo e psicologia de aeroporto. Mas a mensagem é brutalmente simples:

  • não o contrarie em público;
  • não lhe dês ordens;
  • não tomes a dianteira;
  • não sejas demasiado competente;
  • pede coisas caras para ele sentir que está a “prover”;
  • faz com que ele se sinta excecional, mesmo quando não é.

Chama-se a isto “civilizar o patriarcado”: torná-lo aceitável, tratável, quase glamoroso. Ele é o provedor, o escudo contra a violência do mercado; ela é a beleza, o corpo, o sexo, a doçura que consola. Em troca da abdicação de poder e de voz, ganha a promessa de não voltar para a fila do pão ou para o hospital público onde faltam medicamentos.

Há quem, de fora, olhe para esta economia afectiva e a confunda com frivolidade. Não é. É sobrevivência. Quando uma mulher com quatro diplomas perde o marido para uma rapariga de vinte anos, sem estudos, mas com uma determinação fria em “conseguir” uma vida de luxo, não é apenas um drama sentimental. É um sistema de incentivos a funcionar em pleno. O recado está dado: o mercado matrimonial premia menos a inteligência e a autonomia do que a capacidade de servir de troféu e de nunca ameaçar o ego do homem.

É aqui que a história se torna, ao mesmo tempo, russa e universal.

A Rússia contemporânea oferece um exemplo concentrado de algo que outros países vão ensaiando com mais pudor: a recuperação de um modelo de género em que a mulher volta a ser, acima de tudo, mãe e ornamento. Quando o regime se radicaliza, criminaliza movimentos LGBT, dificulta o acesso ao aborto, despenaliza grande parte da violência doméstica e condecora mulheres que têm muitos filhos com medalhas de “glória maternal”, não está apenas a gerir demografia. Está a dizer às cidadãs: escolham, de uma vez por todas, entre serem trabalhadoras cansadas e mal pagas ou esposas dependentes mas protegidas.

O mais irónico é que muitas escolhem, conscientemente, a segunda opção. Depois de décadas a carregar o peso da família e do Estado, a fantasia de “ficar em casa” com um marido milionário parece uma forma de libertação. Não se trata de ingenuidade: para inúmeras mulheres russas, abandonar a carreira não é abdicar de um sonho cor-de-rosa; é fugir da realidade brutal do mercado de trabalho, da corrupção, da insegurança.

O que esta história revela, no entanto, é o falhanço simultâneo de dois projectos: o do feminismo de Estado soviético, que nunca quis verdadeiramente ceder poder aos cidadãos, e o do capitalismo autoritário de Putin, que só aceita mulheres fortes se estiverem ao serviço da sua narrativa imperial. Em ambos os casos, a autonomia feminina é tolerada enquanto não belisca o centro de comando.

Quando uma mulher altamente qualificada conclui, amargamente, que perdeu o marido porque ousou ter carreira, opiniões, comparações desagradáveis com o percurso escolar dele, não está apenas a falar de um casamento; está a denunciar uma pedagogia social:

“O homem não precisa de uma mulher excecional; precisa de uma mulher com quem ele se sinta excecional.”

É o epitáfio perfeito para o feminismo soviético.

A pergunta que fica, vista daqui, é incómoda: quantas democracias consolidadas estão, silenciosamente, a caminhar na mesma direção? Quantos discursos sobre “valores tradicionais”, defesa da família e “equilíbrio natural entre os sexos” são, na verdade, a preparação de um regresso elegante ao mesmo negócio de sempre: ele decide, ela adorna?

Observando Moscovo – as bolsas com fechos de diamantes, os iates, as academias de “magia íntima” e “flauta encantada” – é fácil rir. Mais difícil é admitir o que ali se vê como num espelho distorcido: a tentação profunda, em tempos de crise, de voltar a dizer às mulheres que a sua liberdade foi um luxo e que a sua salvação passa outra vez por encontrar o homem certo, ao preço de se anular.

A Rússia de Putin é, nesse sentido, uma espécie de laboratório sombrio. Nele, a experiência radical de emancipação feminina do século XX foi embalsamada, exposta numa vitrina histórica, e ao lado colocaram um novo altar: o da esposa jovem, bela e maleável, que “sabe o seu lugar” e aprende técnicas de sedução como se fossem ferramentas de carreira. O futuro que nos mostram não é inevitável. Mas seria imprudente olhar para ele como se fosse apenas um exotismo distante.

Porque, quando a política se casa com a nostalgia de um mundo ordenado por homens e servido por mulheres, o próximo curso a encher não é o de “igualdade de oportunidades”, mas o de “como fazer o marido sentir-se um imperador”. E, a partir daí, o resto cai por gravidade.

Autor: Aurelian Draven

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