As palavras de Trump Jr. mostram para onde sopra o vento em Washington

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

ANÁLISE · Estados Unidos · Ucrânia

O filho mais velho do presidente americano disse numa conferência no Qatar que a Ucrânia é mais corrupta que a Rússia e acusou Zelensky de prolongar a guerra por razões eleitorais.

Não tem cargo formal na administração, mas as suas declarações revelam o pensamento da ala mais à direita do trumpismo — precisamente aquela que está a ganhar todas as batalhas internas sobre política externa.

As declarações do filho do presidente não são acidentais — preparam terreno para abandonar Kiev.

Donald Trump Jr. não é secretário de Estado, não é conselheiro de segurança nacional, não tem qualquer função oficial na administração do pai. Mas quando falou numa conferência sobre o Médio Oriente em Doha na semana passada, as suas palavras tiveram mais peso do que muitos comunicados oficiais da Casa Branca. Porque Trump Jr. representa a ala MAGA mais dura, aquela que sempre viu o apoio à Ucrânia como um desperdício de recursos que deviam ser gastos na América, e essa ala está claramente a vencer a discussão interna sobre o futuro da guerra.

As declarações foram notáveis pela frontalidade. Trump Jr. afirmou que Volodymyr Zelensky estava a prolongar o conflito porque sabia que nunca ganharia eleições na Ucrânia se houvesse um cessar-fogo — uma acusação extraordinariamente grave vinda de alguém tão próximo do poder em Washington. Acrescentou que a Ucrânia era mais corrupta que a Rússia, ignorando convenientemente décadas de índices internacionais que demonstram precisamente o contrário.

Depois veio a parte sobre os ricos ucranianos que alegadamente fugiram do país, deixando a “classe camponesa” a combater. Trump Jr. disse ter visto num único dia no Mónaco dezenas de supercarros com matrícula ucraniana, uma observação sem qualquer prova apresentada mas que encaixa perfeitamente na narrativa que a direita trumpista quer vender: Kiev é um buraco corrupto que não merece apoio americano.

Convém contexto. Estas declarações acontecem precisamente quando a equipa de negociação de Trump está a pressionar Kiev para ceder território à Rússia como parte de um eventual acordo de paz. Não são palavras soltas de um filho rebelde a dizer disparates. São o reflexo de uma posição que está a ganhar força dentro da administração, preparando terreno para uma mudança radical na política americana em relação à guerra.

Trump Jr. também atacou Kaja Kallas, a chefe da política externa da União Europeia, dizendo que as sanções europeias contra Moscovo não funcionaram e apenas fizeram subir o preço do petróleo. Descreveu o plano europeu para derrotar Putin como “vamos esperar que a Rússia vá à falência” e disse que isso não era um plano de todo.

Durante a campanha eleitoral, Trump Jr. garantiu ter encontrado apenas três pessoas que consideravam a guerra na Ucrânia uma das dez questões mais importantes para os Estados Unidos. Disse que o risco de barcos venezuelanos trazerem fentanil era um perigo muito mais claro e presente do que qualquer coisa que estivesse a acontecer entre Kiev e Moscovo. É uma posição que ressoa com a base trumpista — America First levado ao extremo de ignorar tudo o que acontece para lá das fronteiras, a menos que afete diretamente território americano.

O Kremlin percebeu perfeitamente a oportunidade. Dmitry Peskov, porta-voz de Putin, elogiou a mais recente estratégia de segurança nacional publicada pela Casa Branca, chamando-lhe uma mudança encorajadora que se alinha com o pensamento russo. O documento em questão critica duramente a União Europeia, afirma que a Europa corre risco de “apagamento civilizacional” e deixa claro que Washington quer melhores relações com Moscovo.

Peskov disse ter recebido com agrado os sinais de que a administração Trump favorece o diálogo e a construção de boas relações entre os dois países. Depois acrescentou uma ressalva curiosa: alertou que o suposto “Estado profundo” americano poderia tentar sabotar a visão de Trump. É uma expressão que vem diretamente do vocabulário trumpista, agora adoptada por Moscovo numa demonstração de quanto as duas narrativas se alimentam mutuamente.

Vale a pena olhar para os números. Os ajustes que Peskov mencionou correspondem “em muitos aspetos” à visão russa, segundo as suas próprias palavras. Não é retórica diplomática vazia. A Rússia tem defendido há meses que qualquer acordo de paz tem de incluir reconhecimento das anexações territoriais, fim das sanções ocidentais e garantias de que a Ucrânia nunca entrará na NATO. A estratégia de segurança de Trump não diz explicitamente isto, mas o facto de Moscovo a ter recebido com tanto entusiasmo sugere que vê ali espaço de manobra suficiente para conseguir muito do que quer.

A questão central é simples: os Estados Unidos vão continuar a apoiar a Ucrânia ou vão forçar Kiev a aceitar um acordo nos termos russos? As declarações de Trump Jr. apontam claramente para a segunda opção. O facto de ele não ter cargo oficial torna as suas palavras ainda mais reveladoras, porque pode dizer abertamente aquilo que outros na administração têm de camuflar com linguagem diplomática.

A União Europeia está numa posição complicada. Investiu milhares de milhões no apoio à Ucrânia, assumiu custos económicos significativos com as sanções, e agora vê-se perante a possibilidade real de Washington abandonar Kiev às suas próprias forças. As críticas de Trump Jr. a Kaja Kallas não são acidentais — são um aviso de que a administração americana não está interessada em coordenar com Bruxelas, e pode mesmo estar disposta a fazer um acordo com Moscovo por cima das cabeças europeias.

Há quem argumente que Trump Jr. é apenas uma voz entre muitas, que a política externa americana é mais complexa do que as opiniões de um filho do presidente sem cargo oficial. É possível. Mas a história recente sugere que quando alguém da família Trump ou da ala MAGA mais dura fala sobre um tema de política externa, está frequentemente a antecipar aquilo que virá a tornar-se política oficial. Aconteceu com o Irão, aconteceu com a China, pode muito bem estar a acontecer agora com a Ucrânia.

Os esforços da Casa Branca para um acordo de paz entram agora numa fase crucial, segundo relatos de várias fontes diplomáticas. Kiev está sob pressão americana para mostrar flexibilidade — um eufemismo para aceitar perdas territoriais. Moscovo sente que tem Washington mais próxima do que esteve em anos. E a Europa vê-se isolada, com a sua estratégia de apoio incondicional à Ucrânia a desfazer-se perante um aliado que já não partilha os mesmos objetivos.

As palavras de Trump Jr. em Doha foram um balão de ensaio. Servem para testar reações, para preparar terreno, para normalizar aquilo que há poucos meses seria impensável dizer em voz alta. Se não houver consequências políticas significativas — e até agora não houve —, então o caminho está aberto para uma mudança radical na posição americana. O Kremlin percebeu isto perfeitamente. A questão é se a Europa também percebeu.

Autor do Texto: Arcana News

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