NOTÍCIA · UNIÃO EUROPEIA · COMÉRCIO INTERNACIONAL
A União Europeia aprovou esta sexta-feira o avanço político de um amplo acordo comercial com quatro países da América do Sul — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — abrindo caminho à criação de uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo, com mercados que somam mais de 700 milhões de pessoas.
União Europeia dá luz verde política ao acordo comercial com o Mercosul.
O entendimento, negociado durante décadas e sucessivamente bloqueado por divisões internas, foi desbloqueado após concessões de última hora da Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, destinadas a assegurar uma maioria qualificada entre os 27 Estados-membros.
Segundo diplomatas europeus, França, Polónia, Áustria, Irlanda e Hungria mantiveram a sua oposição ao acordo. A Bélgica optou pela abstenção. O apoio da Itália revelou-se decisivo para ultrapassar o impasse. A assinatura formal do tratado deverá ocorrer no Paraguai, nos próximos dias, seguindo-se o processo de ratificação no Parlamento Europeu.
Um acordo ressuscitado após 25 anos
O pacto entre a União Europeia e o bloco Mercosul esteve praticamente paralisado durante um quarto de século, travado por receios ambientais, agrícolas e sociais no espaço europeu. Agricultores e ambientalistas denunciaram repetidamente a possibilidade de entrada de produtos sul-americanos que não cumpririam padrões europeus em matéria de pesticidas, desflorestação, bem-estar animal e direitos laborais.
Em contraste, setores industriais europeus — em particular a indústria automóvel e farmacêutica na Alemanha, Espanha e outros países — pressionaram fortemente a favor do acordo, sublinhando o potencial de acesso a um mercado sul-americano vasto e em crescimento.
Para ultrapassar resistências, a Comissão Europeia ofereceu garantias adicionais, incluindo o acesso antecipado a cerca de 45 mil milhões de euros em apoios agrícolas, destinados a mitigar o impacto do acordo sobre os produtores europeus.
América do Sul entre Bruxelas, Washington e Pequim
O acordo envolve governos ideologicamente distantes entre si, como o do Presidente argentino Javier Milei, aliado político de Donald Trump, e o do Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, crítico frequente da política externa norte-americana. Lula classificou a decisão como um “dia histórico para o multilateralismo”.
A aprovação do pacto ocorre num contexto de crescente reconfiguração do comércio global, marcado pela intensificação de políticas protecionistas e de coerção económica por parte dos Estados Unidos, bem como pela expansão da influência chinesa na América Latina. A China é atualmente o principal parceiro comercial da região e um dos seus maiores investidores em infraestruturas e energia.
Para Bruxelas, o acordo com o Mercosul é também visto como uma forma de diversificar cadeias de abastecimento e garantir acesso a matérias-primas críticas fora da esfera de influência chinesa.
Próximos passos
Apesar do aval político, o acordo ainda terá de ser ratificado pelo Parlamento Europeu, um processo que poderá reabrir o debate sobre impactos ambientais, agrícolas e sociais. Protestos de agricultores já se fizeram sentir em vários países, incluindo França, onde milhares de tratores bloquearam estradas em sinal de oposição ao pacto.
Se aprovado, o tratado reduzirá significativamente as tarifas sobre exportações europeias para a América do Sul e sobre produtos sul-americanos destinados ao mercado europeu, consolidando uma das maiores áreas de comércio livre do mundo.
Imagem: Oleg_mit/Pixabay


