Por Maria do Rio — Cronista de rua. Transforma o que vê nas praças e mercados em retratos vivos.
Há cidades que respiram pelos túneis. Nova Iorque é uma delas.
Abaixo do ruído e da pressa, passa o sangue invisível do quotidiano — comboios que levam trabalhadores, estudantes, enfermeiros, vozes anónimas que fazem o país mover-se.
Quando o poder brinca com as obras que sustentam a vida das pessoas, o que se suspende não é o betão: é a confiança.
E quando o presidente dos Estados Unidos anunciou, com uma frase seca na rede social X, que “terminava” o projeto Gateway, não suspendeu apenas uma obra pública: suspendeu a metáfora do próprio progresso.
Em New Jersey, onde começa um desses túneis, o eco político foi imediato. Mikie Sherrill, candidata democrata ao governo estadual, percebeu antes de todos que o corte de verbas não era um assunto técnico, mas humano: cada atraso de comboio é um jantar perdido, cada travessia cancelada é um salário que não chega.
Jack Ciattarelli, o republicano, tentou equilibrar-se entre a lealdade ao presidente e a raiva dos eleitores. Trump chamara “negociação dura” ao gesto de fechar a torneira; os trabalhadores chamaram-lhe outra coisa — chantagem.
Os norte-americanos vivem há décadas fascinados com a ideia de infraestrutura. Mas esquecem-se, por vezes, de que um túnel não é apenas ferro e cimento: é uma forma de civilização. Liga margens, encurta distâncias, prova que o ser humano quer chegar ao outro lado.
Quando o poder decide travar uma construção, a mensagem é mais profunda do que parece. O que se interrompe não é uma obra — é a crença de que o Estado serve para unir, não para dividir.
Vejo isto de longe, das praças portuguesas onde as promessas de investimento também se eternizam nas maquetes.
Os políticos, de cá e de lá, falam das infraestruturas como quem fala de ficção científica: com entusiasmo enquanto são planos, com amnésia quando se tornam urgências. E as pessoas, que vivem à superfície, aprendem a lidar com a espera como se fosse parte do caminho.
Talvez seja isso que o caso americano nos ensina: que um túnel pode ser muito mais do que uma obra pública — pode ser o símbolo da paciência de um povo. Enquanto os presidentes mudam de discurso, os trabalhadores continuam a cavar, metro a metro, para que um dia as margens se reencontrem.
E é esse gesto — o de continuar a escavar mesmo quando o poder desiste — que faz de cada obreiro um cidadão. Porque, no fundo, a democracia também é isto: uma construção subterrânea, lenta, que só se mantém de pé quando ninguém desiste de a fazer passar.
Texto: © Maria do Rio / Arcana News, 2025.
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