Os bispos católicos dos Estados Unidos aprovaram esta quarta-feira, em Baltimore, uma rara mensagem pastoral que critica de forma aberta a política federal de deportações em massa de imigrantes. Sem citar o Presidente pelo nome, o texto rejeita “qualquer expulsão indiscriminada de pessoas” e denuncia um clima crescente de medo nas comunidades migrantes.
Reunidos na assembleia anual de outono, os prelados afirmam que a questão deixou de ser apenas jurídica ou partidária. É, sublinham, uma prova à consciência moral do país. “Amamos esta nação e rezamos pela sua paz e prosperidade. Precisamente por isso sentimos a obrigação, neste contexto, de levantar a voz em defesa da dignidade humana concedida por Deus”, lê-se na declaração.
O documento foi aprovado por 216 votos a favor, com apenas cinco votos contra e três abstenções – uma unidade pouco habitual num episcopado que, nos últimos anos, se dividiu frequentemente em torno da política norte-americana. Desta vez, porém, os bispos quiseram apresentar uma frente comum, em sintonia com o Papa Leão XIV, o primeiro pontífice norte-americano, que tem insistido na defesa dos migrantes e refugiados.
Bispos católicos norte-americanos reunidos em Baltimore durante a assembleia anual em que aprovaram uma declaração contra as deportações em massa de imigrantes.
A mensagem fala de famílias que vivem com receio de que uma simples ida à escola possa terminar numa detenção, de pais separados dos filhos e de comunidades que se habituaram a ver agentes federais às portas de paróquias, hospitais e centros comunitários. Os bispos dizem-se “entristecidos” com a forma como o debate público transformou os imigrantes em alvos de suspeita e hostilidade, e “preocupados” com as condições em centros de detenção onde, por vezes, nem a assistência espiritual é garantida.
A aprovação do texto foi antecedida por horas de discussão à porta fechada. Vários bispos temiam retaliações políticas, nomeadamente em dossiers sensíveis como vistos para missionários e religiosos. Ainda assim, a maioria considerou que o silêncio já não era possível. Cardeais e bispos das dioceses mais expostas às operações de imigração insistiram na necessidade de uma palavra clara, depois de meses a acompanhar famílias em tribunais, a visitar centros de detenção e a participar em vigílias de oração às portas desses locais.
Em cidades como Chicago, Miami, El Paso ou San José, párocos e agentes pastorais relatam há semanas igrejas mais vazias, crianças que deixam de frequentar a catequese e pessoas que evitam qualquer contacto com estruturas públicas por medo de fiscalização. A declaração episcopal procura responder também a esse receio, assegurando aos migrantes que “a Igreja continuará a ser casa e refúgio”, independentemente do seu estatuto legal.
O texto lembra que muitos dos que hoje enfrentam deportações contribuíram durante anos para a economia local, criaram famílias, frequentam comunidades paroquiais e consideram os Estados Unidos como o seu único lar. E reforça que o respeito pela lei não pode ser separado do respeito por cada vida concreta: “Políticas que rompem famílias sem necessidade, que tratam pessoas apenas como números de um ficheiro, ferem o tecido moral da própria nação”, alertam os bispos.
Leitura integral disponível.Este artigo apresenta um excerto. A versão completa está disponível após entrada gratuita.
O registo é gratuito, não pede dados de pagamento, e dá acesso imediato à leitura integral deste texto e dos futuros no Arcana News.
Entrar (se já tem conta) · Criar conta (gratuito)


