Como a Memória Soviética Alimenta a Máquina de Carne Russa

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

CONTEXTO · Mundo · África e Guerra da Ucrânia

Mais de 1400 africanos combatem na Ucrânia sob bandeira russa. A maioria não sobrevive um mês.

Por detrás dos números, histórias de engano revelam como Moscovo explora o legado histórico da luta anti-colonial para recrutar carne para canhão.


Richard Kanu serviu mais de dez anos no exército da Serra Leoa. Sobreviveu à brutalidade da guerra civil que devastou o seu país. Pensava conhecer a guerra. Mas nada o preparou para o que viu quando chegou a Donetsk.

Dos homens com quem treinou em Rostov-on-Don — muitos deles africanos como ele, migrantes em busca de uma vida melhor — viu dezenas estendidos na lama, mortos. Quando lhe ordenaram atacar uma posição ucraniana fortemente defendida com apenas dois companheiros, questionou o comandante. “Um tanque está ali, RPGs estão ali, drones, toda a artilharia diferente. Como esperam que capturemos aquele lugar?” A resposta foi gelada: “Não me importa. Têm de enfrentar o vosso inimigo.”

Kanu feriu um pé no ataque. Mesmo ferido, foi forçado a avançar. Foi capturado pelos ucranianos. Agora, num campo de prisioneiros de guerra, reflecte sobre o erro que cometeu ao assinar documentos em russo que não conseguia ler, pensando candidatar-se a um emprego em São Petersburgo. “Meti-me neste problema porque não conheço o idioma”, diz. “Meti-me num problema enorme.”

A história de Kanu multiplica-se por mais de mil histórias semelhantes. Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, pelo menos 1436 cidadãos de 36 países africanos combatem actualmente ao lado da Rússia. O número real será provavelmente superior. A maioria não sobreviverá mais de um mês.

A Sentença de Morte

“Assinar um contrato é equivalente a assinar uma sentença de morte”, afirmou Sybiha num comunicado que causou alarme em todo o continente africano. As suas palavras não são hiperbólicas. São sustentadas por dados brutais.

Os recrutas africanos são imediatamente enviados para os chamados “assaltos de carne” — ataques em ondas humanas contra posições fortificadas ucranianas. A expressão, usada por soldados de ambos os lados, descreve uma táctica deliberada: atirar homens em quantidade suficiente contra o inimigo até que este fique sem munições, sem energia, sem capacidade de resistir. Os corpos acumulam-se. As linhas avançam alguns metros. Repetem-se os ataques.

Um vídeo filmado por soldados russos após a captura de Avdiivka, em fevereiro de 2024, mostra um militar a caminhar por uma trincheira que baptiza de “estrada da morte”. A cada poucos passos, um cadáver na lama. O Ministério da Defesa britânico calcula que a Rússia perdeu mais de mil soldados por dia — mortos ou feridos — durante os meses de maio, junho e julho de 2024.

Para os africanos recrutados, a morte chega ainda mais depressa. A maioria dos combatentes estrangeiros capturados pelos ucranianos foi apanhada na sua primeira missão de combate. Não conseguiram sequer completar um ataque.

Dosseh, um jovem africano cujo caso foi documentado pela imprensa ucraniana, foi enviado para a frente de combate com treino praticamente nulo. Não falava o idioma. Não conseguia ler os documentos que assinou. Nunca tinha segurado uma espingarda antes de chegar ao campo de treinos. Disseram-lhe que seria usado num papel de apoio. Em vez disso, foi destacado para uma unidade de assalto activa.

A sua primeira missão foi também a última. Vinte minutos após o contacto, quatro dos seis homens do seu grupo estavam mortos. Arrastou-se pela neve, escondeu-se num bunker abandonado, fingiu-se de morto debaixo de ramos de árvores para evitar os drones. Quando se rendeu aos soldados ucranianos, estava gravemente ferido. As pernas já não funcionam. Os médicos ucranianos avisaram que poderão ter de ser amputadas.

Agora Dosseh aguarda julgamento num centro de detenção ucraniano. Não é considerado combatente legítimo segundo o direito humanitário internacional. Poderá ser processado como mercenário.

O Preço da Esperança

O que leva um homem a assinar um contrato de morte? Para a maioria dos africanos que acabam nas trincheiras ucranianas, a resposta é simples e devastadora: esperança.

Esperança de salários que nunca viram nas suas vidas. Os recrutadores russos prometem 2200 dólares mensais — dez vezes o que um militar ganha em muitos países africanos. Oferecem bónus de inscrição de 2000 dólares. Acenam com passaportes russos para os recrutas e as suas famílias, documentos que abrem portas a uma vida melhor, longe da pobreza endémica que assola grande parte do continente.

Para migrantes em situação irregular na Rússia — e há dezenas de milhares vindos da Ásia Central e de África —, a chantagem é mais directa: alistamento ou deportação. Alguns assinam contratos para evitar a prisão. Outros, estudantes africanos que cometeram pequenos delitos na Rússia, são-lhes oferecidas duas escolhas: cadeia russa ou serviço militar.

Um estudante zambiano, Lemekhani Nathan Nyirenda, foi recrutado directamente da prisão. Morreu na Ucrânia em setembro de 2022, tornando-se a primeira morte estrangeira confirmada na guerra.

O pai sul-africano de três filhos que atendeu a chamada telefónica em julho acreditou na promessa porque pensou que Duduzile Zuma-Sambudla, filha do antigo presidente, pessoalmente garantira que tudo estaria bem. Seis semanas depois, dormia em trincheiras encharcadas, rodeado de tanques e tiroteios. “Sou uma casca de ser humano, fisicamente esgotado”, escreveu. “É uma miséria completa.”

A Herança Soviética

Para compreender como a Rússia consegue recrutar milhares de africanos para morrer numa guerra europeia, é necessário recuar décadas, até à Guerra Fria.

Entre os anos 1950 e 1990, a União Soviética foi o maior aliado de África na luta contra o colonialismo. Enquanto potências ocidentais como o Reino Unido, França, Portugal e Bélgica resistiam à descolonização — e os Estados Unidos rotulavam Nelson Mandela e o Congresso Nacional Africano como terroristas —, Moscovo enviava armas, instrutores militares, financiamento e apoio diplomático aos movimentos de libertação.

A FRELIMO em Moçambique, o MPLA em Angola, o SWAPO na Namíbia, o ANC na África do Sul — todos receberam treino, armamento e sustento soviético. Quando estes movimentos tomaram o poder após a independência, os laços permaneceram. Dois presidentes sul-africanos pós-apartheid, Thabo Mbeki e Jacob Zuma, receberam formação militar na União Soviética.

A Universidade da Amizade dos Povos, fundada em Moscovo em 1960 e baptizada com o nome de Patrice Lumumba — o líder congolês pró-soviético assassinado nesse mesmo ano —, acolheu cerca de 60.000 estudantes africanos entre 1949 e 1991. Formou elites políticas, académicas e económicas que hoje ocupam posições de poder em todo o continente.

A União Soviética construiu a barragem de Assuão e a fábrica de aço de Helwan no Egipto. Ergueu a central hidroeléctrica de Capanda em Angola. Desenvolveu minas de bauxite na Guiné. Criou a fábrica de aço de El Hadjar na Argélia. Segundo estimativas da ONU, a União Soviética representou até 40% do fornecimento de armas a África durante a Guerra Fria. Tanques soviéticos constituíam 70% de todos os tanques nos exércitos africanos.

Quando a União Soviética colapsou em 1991, deixou dívidas. Muitas dívidas. Em outubro de 2019, Vladimir Putin anunciou que a Rússia tinha cancelado 20 mil milhões de dólares em dívidas africanas à URSS. Esse gesto, apresentado como generosidade, é também um investimento: a memória da solidariedade soviética continua viva.

O Regresso de Moscovo

Após duas décadas de relativo desinteresse por África nos anos 1990 e 2000, a Rússia regressou ao continente a partir de 2016. Não como a União Soviética — sem a ideologia comunista, sem os projectos de desenvolvimento em grande escala, sem a generosidade (ainda que interessada) de outrora. Regressou com uma proposta mais estreita: segurança, armamento, e influência política.

O Grupo Wagner, a organização mercenária liderada por Yevgeny Prigozhin até à sua morte em 2023, tornou-se o braço operacional desta estratégia. Presente na República Centro-Africana, no Mali, no Burkina Faso, no Sudão, o Wagner oferecia protecção a governos autoritários em troca de acesso a recursos minerais e influência política. Após a morte de Prigozhin, o Corpo Africano, directamente controlado pelo Kremlin, assumiu as operações.

A Rússia explora habilmente o ressentimento anti-ocidental que persiste em muitos países africanos. Enquanto o Ocidente é associado ao colonialismo, ao neocolonialismo, à imposição de condições nos empréstimos do FMI, Moscovo apresenta-se como parceira sem agenda imperialista. É uma narrativa convincente — e parcialmente falsa.

A diferença entre o apoio soviético à descolonização e a presença russa contemporânea é abissal. A União Soviética, apesar das suas motivações geopolíticas, investia em infraestruturas, educação, desenvolvimento. A Rússia de Putin extrai recursos, sustenta ditadores, recruta mercenários. A primeira Cimeira Rússia-África realizou-se em Sochi em 2019. A segunda, planeada para 2022 na Etiópia, foi adiada. A terceira está prevista mas sem data confirmada.

Os Números da Tragédia

Os 1436 africanos identificados pela Ucrânia como combatentes ao lado da Rússia representam apenas a ponta do iceberg. A Inteligência de Defesa da Ucrânia (HUR) estima que a Rússia tem uma rede de recrutamento activa em pelo menos 21 países, incluindo vários em África. O foco concentra-se nos países da África Central: Ruanda, Burundi, Congo, Uganda.

Mas as nacionalidades dos recrutas estendem-se por todo o continente: Camarões, Gana, Senegal, Uganda, Quénia, África do Sul, Somália, Serra Leoa, Burundi, República Centro-Africana, Mali, Níger. A lista cresce.

A situação tornou-se tão grave que vários governos africanos emitiram avisos. O Ministério da Defesa dos Camarões ordenou aos seus oficiais que tomassem “medidas apropriadas imediatas contra a deserção”. Todos os militares na activa estão agora proibidos de viajar para o estrangeiro sem permissão especial. O governo camaronês sente-se vulnerável: combate em quatro frentes simultaneamente — piratas na costa, rebeldes centro-africanos no leste, separatistas anglófonos no sul, ISIS e Boko Haram em marcha no norte. Não pode dar-se ao luxo de perder soldados para a Rússia.

O Quénia confirmou em novembro que alguns dos seus cidadãos foram detidos em campos militares russos. O presidente William Ruto contactou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky para pedir ajuda. Ruto pediu a libertação de quenianos em custódia ucraniana. Zelensky concordou.

A Jordânia exigiu que a Rússia pare de recrutar os seus cidadãos após dois jordanianos terem sido mortos a combater nas forças russas. O ministério dos Negócios Estrangeiros da Jordânia emitiu um aviso contra Moscovo e “entidades externas” que trabalham online para recrutar pessoas.

O Silêncio de Moscovo

Quando os recrutas africanos são capturados pelos ucranianos, a Rússia não pede a sua troca em negociações de prisioneiros. No último ano, nem um único africano foi trocado. Moscovo não os solicita. Nos países de origem, muitos enfrentam processos criminais por actividade mercenária.

Este abandono deliberado revela a verdadeira natureza do recrutamento: os africanos não são soldados russos. São material descartável. Carne para os “assaltos de carne” que permitem à Rússia avançar alguns metros nas linhas de frente ucranianas sem ter de mobilizar mais russos das grandes cidades — Moscovo, São Petersburgo — onde a oposição à guerra seria politicamente explosiva.

A lei sul-africana criminaliza servir em forças armadas estrangeiras sem aprovação governamental. A lei queniana também. Mas as leis não conseguem competir com a desesperação económica ou com a ilusão de uma vida melhor.

As Ramificações Globais

O recrutamento de africanos para a guerra na Ucrânia não é apenas uma tragédia humanitária individual. Tem consequências geopolíticas profundas.

Em primeiro lugar, enfraquece a segurança em países africanos já frágeis. Quando soldados experientes desertam para a Rússia, os exércitos nacionais ficam mais vulneráveis. O Governo dos Camarões expressou exactamente esta preocupação.

Em segundo lugar, aprofunda a dependência de países africanos face a Moscovo. Os governos que permitem ou facilitam o recrutamento ficam comprometidos. A Rússia ganha influência. Os acordos comerciais, políticos e militares tornam-se assimétricos.

Em terceiro lugar, coloca governos africanos numa posição geopolítica delicada. Muitos países africanos abstiveram-se nas votações da ONU que condenam a invasão russa da Ucrânia. A não-alinhamento declarado reflete tanto o legado histórico do apoio soviético quanto interesses económicos contemporâneos — a Rússia tornou-se um fornecedor crucial de cereais para vários países africanos, ultrapassando os Estados Unidos nesse papel após 2010.

Mas o recrutamento de cidadãos africanos para morrer numa guerra europeia testa esses equilíbrios. A África do Sul, membro dos BRICS ao lado da Rússia, vê-se agora a investigar como cidadãos seus acabaram nas trincheiras de Donbas. O Quénia, tradicionalmente mais próximo do Ocidente, tem de negociar a libertação dos seus cidadãos sem romper relações com Moscovo.

A Ofensiva Ucraniana

A Ucrânia lançou uma iniciativa especial dirigida a combatentes estrangeiros nas forças russas. O programa, com websites em inglês, russo, espanhol e árabe, oferece refúgio seguro e estatuto de prisioneiro de guerra a quem se renda. É uma tentativa de explorar o descontentamento óbvio entre recrutas enganados.

Sybiha apelou directamente aos africanos nas linhas da frente: “Desertem, rendam-se, salvem as vossas vidas.” A mensagem não é apenas humanitária. É estratégica. Cada deserção enfraquece as linhas russas. Cada rendição oferece informação sobre tácticas, moral, condições.

Mas a iniciativa enfrenta obstáculos. Muitos recrutas não têm acesso a internet nas trincheiras. Desconhecem a existência do programa. E mesmo aqueles que o conhecem temem as consequências: se a Rússia não os quer de volta, o que lhes acontecerá? Nos seus países, enfrentam prisão. Na Ucrânia, são considerados mercenários. O refúgio prometido pode ser apenas uma cadeia diferente.

O Futuro da Tragédia

Enquanto a guerra continuar, o recrutamento continuará. A Rússia precisa de homens. Os homens africanos precisam de dinheiro. É uma equação brutal mas simples.

Alguns analistas argumentam que o fluxo de mercenários após o fim da guerra — quando milhares de combatentes com experiência na Ucrânia ficarem sem emprego — poderá desestabilizar ainda mais África. O continente já emprega mercenários a um ritmo não visto desde a Guerra Fria. Se a guerra terminar abruptamente, esses homens procurarão trabalho. Grupos como o Corpo Africano estarão prontos para os recrutar.

A violência e o jihadismo vistos no Mali e na República Centro-Africana podem espalhar-se. Organizações mercenárias, inundadas de recrutas com experiência de combate pós-Ucrânia, apenas exacerbarão o problema.

Para já, homens como Richard Kanu aguardam em campos de prisioneiros. Homens como Dosseh aguardam com pernas que talvez nunca mais funcionem. Homens como o pai sul-africano de três filhos aguardam em algum ponto da Rússia, presos entre um país que não os quer de volta e uma guerra que não compreendem.

“Não queremos morrer aqui”, escreveu ele. Mas a máquina de guerra não se preocupa com vontades. Preocupa-se com números. E há sempre mais homens desesperados dispostos a acreditar em promessas, sempre mais memórias históricas a serem exploradas, sempre mais carne necessária para os assaltos.

A União Soviética apoiou a libertação de África. A Rússia moderna explora os filhos dessa libertação. É este o legado, amargo e trágico, da Guerra Fria no século XXI.

Autor do texto: Arcana News

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