ANÁLISE · Rússia · Sociedade
Há cidades que se leem pelos edifícios; Moscovo lê-se pelos vestidos. Nos bairros onde circula o dinheiro do Estado e dos contratos públicos, vêem-se mulheres muito jovens, muito arrumadas, muito trabalhadas: cabelos perfeitos, cirurgia discreta, casacos que custam mais do que muitos salários anuais. Não é apenas gosto. É uma linguagem social: cada peça diz quanto vale o homem a cujo lado se apresenta.
A imagem choca ainda mais quando lembramos o ponto de partida. A Rússia foi um dos primeiros países do mundo a consagrar, em lei, direitos avançados para as mulheres: acesso massivo à educação, divórcio sem culpa, maternidade apoiada, participação no mercado de trabalho. Durante décadas, raparigas que nasciam em aldeias pobres chegavam à universidade, tornavam-se médicas, engenheiras, professoras. Oficialmente, a mulher soviética era “igual ao homem”.
Na prática, nunca deixou de acumular funções. Trabalhava fora e trabalhava dentro de casa. O Estado apropriou-se do discurso da emancipação, mas não mexeu no núcleo do poder masculino dentro da família. A “dupla jornada” – emprego e casa – tornou-se norma silenciosa. No fim da década de 1980, quando o regime entrou em colapso, muitas russas estavam exaustas de um ideal de igualdade que se traduzia, sobretudo, em mais trabalho.
O choque económico dos anos 90 agravou tudo. Com fábricas a fechar e salários em atraso, muitos homens recusaram aceitar ocupações consideradas “inferiores” ao estatuto que tinham tido. A fuga foi, muitas vezes, para o álcool e para a desistência. As mulheres, pelo contrário, aceitaram o que aparecia: limpar escadas, atender caixas, vender em mercados improvisados. Foram elas que sustentaram famílias inteiras em anos de desordem.
É sobre esse cansaço que se constrói o presente. A era Putin ofereceu uma espécie de pacto: menos caos, mais estabilidade; em troca, menos direitos reais e mais obediência. Para as mulheres, esse pacto tem uma versão muito concreta: ou continuam a lutar num mercado de trabalho duro e mal pago, ou tentam saltar para o universo protegido da elite masculina — o mundo dos contratos públicos, das empresas energéticas, das estruturas de segurança. Só que a porta de entrada raramente é o currículo; é o corpo.
Na cultura política e mediática russa, a figura da “esposa certa” foi cuidadosamente lapidada. Jovem, magra, hiperfeminina, sempre disponível para confirmar a grandeza do marido. Numa sociedade em que o Estado volta a elogiar a “mãe numerosa”, a condenar o aborto e a encorajar a submissão, ter um homem rico é, para muitas, a única forma de imaginar uma vida sem humilhação económica constante. Não é romantismo: é cálculo de sobrevivência.
Daí o sucesso das chamadas escolas de “feminilidade” que florescem nas grandes cidades. Vendem cursos com nomes exóticos – arte da sedução, energia feminina, segredos do lar perfeito – mas a proposta é elementar: ensinar como agradar, como não competir, como pedir presentes, como não pôr em causa o ego masculino. A ideia é que uma mulher demasiado segura de si, demasiado instruída, demasiado frontal, é vista como ameaça. Uma mulher que aprende a elogiar, a criar dependência emocional e a exibir o estatuto do marido, pelo contrário, é vista como “um bom investimento”.
Ao mesmo tempo, o regime instalou um discurso agressivo sobre “valores tradicionais”. A propaganda mistura Igreja Ortodoxa, nostalgia imperial e moral sexual conservadora: casamento heterossexual, maternidade como missão principal, rejeição total de qualquer diversidade de género ou orientação. As leis acompanham o discurso. Tornou-se mais difícil interromper uma gravidez, a violência doméstica foi relativizada, movimentos LGBT foram classificados como “extremistas”.
Tudo isto tem uma função política: garantir que a frustração social não se transforma em contestação organizada. Se os homens são chamados a provar a virilidade na guerra ou no negócio, as mulheres são convocadas para provar a feminilidade no casamento e na maternidade. Em vez de cidadãs com direitos, tornam-se amortecedores do sistema: cuidam dos filhos quando os pais são enviados para o front, cuidam dos pais e avós com pensões insuficientes, cuidam de um lar que o Estado precisa que continue silencioso.
É tentador considerar este cenário algo “tipicamente russo”, fruto de uma história singular. Seria mais cómodo, mas seria falso. Sempre que uma sociedade atravessa crise económica, insegurança e medo, ressurgem discursos muito parecidos: a culpa é da emancipação, a família tradicional é a solução, a mulher “moderna” é causa de decadência. Uns vêm embrulhados em religião, outros em nostalgia nacional; todos têm o mesmo objectivo: recentrar o poder na mão de poucos homens e transformar o resto em adorno.
A Rússia de Putin apenas levou esta lógica mais longe e tornou-a quase caricatural. As esposas-troféu de Moscovo, com as suas malas inacessíveis e escoltas discretas, são a face visível de um mecanismo profundo: o corpo feminino como moeda de acesso a segurança material, o casamento como seguro de saúde e de habitação, a beleza como substituto de direitos. Por detrás da vitrine, permanece a mesma vulnerabilidade de sempre: um divórcio inesperado, uma guerra, uma mudança de humor no círculo do poder, e todo aquele luxo revela quão descartável é a vida de quem o exibe.
Olhar para este quadro não é um exercício de exotismo. É um aviso. Em países que se consideram estáveis e democráticos também se ouvem, cada vez mais, vozes que lamentam o “excesso” de emancipação, que romantizam um passado em que “os papéis estavam claros”, em que o homem sustentava e a mulher “sabia o seu lugar”. Sempre que essas vozes ganham palco, a experiência russa deveria servir como estudo de caso: atrás da promessa de proteção, vem quase sempre um pedido de silêncio.
Quando o poder político escolhe o corpo das mulheres como montra de prosperidade e instrumento de controlo social, não estamos diante de um capricho cultural; estamos diante de uma estratégia. E estratégias, ao contrário dos vestidos, não passam de moda sozinhas. É preciso desmontá-las, nomeá-las, mostrar o preço que cobram. Na Rússia, esse preço já se paga há muito tempo. Se não tivermos cuidado, acabaremos todos a comprar, a crédito, o mesmo modelo.
por Aurelian Draven
Imagem gratuita, licença Pixabay – autor: designerpoint.


