CONTEXTO · Mundo · África e Guerra da Ucrânia
Dezassete sul-africanos presos nos campos de batalha da Ucrânia revelam uma rede de engano que liga a família Zuma ao Kremlin. A investigação criminal já começou.
Um pai de três filhos desempregado atendeu uma chamada telefónica em julho que mudaria radicalmente o rumo da sua vida. Do outro lado da linha, uma voz feminina prometia-lhe um programa de formação anual como guarda-costas na Rússia. Melhor ainda: após concluir o curso, receberia um emprego na segurança de um partido político sul-africano. A mulher identificou-se como filha de Jacob Zuma, o antigo presidente da África do Sul.
Seis semanas depois, o homem de 46 anos encontrava-se nas trincheiras enlameadas da região de Donbas, rodeado de tanques, drones e tiroteios. Não havia qualquer formação em segurança. Havia uma guerra. “Fomos enganados”, relata numa mensagem de texto enviada para a África do Sul, ainda preso na Rússia. “Não havia formação de guarda-costas. Estávamos a ir para a guerra.”
A história deste homem replica-se por mais dezasseis sul-africanos que enviaram pedidos de socorro ao governo do presidente Cyril Ramaphosa no final de novembro. O caso transformou-se num escândalo político de dimensões nacionais e expôs as táticas de recrutamento que Moscovo tem vindo a aperfeiçoar em todo o continente africano para alimentar a máquina de guerra na Ucrânia.
O Coração da Trama
No centro desta história está Duduzile Zuma-Sambudla, deputada de 43 anos e figura controversa da política sul-africana. Filha do antigo presidente Jacob Zuma, Duduzile ocupava um lugar parlamentar pelo uMkhonto weSizwe (MK), o partido de oposição criado pelo pai em 2023 após a sua expulsão do histórico Congresso Nacional Africano.
As acusações vieram de dentro da própria família. Nkosazana Bonganini Zuma-Mncube, meia-irmã de Duduzile, apresentou queixa criminal contra ela no passado dia 22 de novembro. Segundo o documento entregue à polícia, Duduzile terá entregue dezassete homens a um grupo mercenário russo sem o conhecimento ou consentimento destes. Oito das vítimas são membros da família alargada das irmãs Zuma.
A Aliança Democrática, segundo maior partido político do país, também apresentou queixa-crime. Fontes do partido mostraram capturas de ecrã de alegadas conversas de mensagens entre Duduzile Zuma-Sambudla e alguns dos homens recrutados. A Unidade de Crimes Contra o Estado da Direcção de Investigação de Crimes Prioritários (conhecida como Hawks) abriu investigação formal.
No dia 29 de novembro, confrontada com a pressão crescente, Duduzile Zuma-Sambudla renunciou ao seu lugar no parlamento e a todos os cargos públicos. O partido MK aceitou a demissão mas insistiu que esta não constitui admissão de culpa. Duduzile esteve presente na conferência de imprensa que anunciou a decisão, mas não pronunciou uma palavra. Horas antes, tinha apresentado a sua própria queixa à polícia alegando fraude, numa tentativa de se colocar como vítima de terceiros.
A Defesa da Acusada
Segundo documentos policiais aos quais a imprensa sul-africana teve acesso, Duduzile Zuma-Sambudla alega ter sido manipulada. Afirma que foi contactada via WhatsApp por um homem que se identificou como “Khoza”, residente na Rússia, que lhe terá garantido acesso a um programa paramilitar legítimo, seguro e sem combate. Duduzile diz que participou ela própria num mês de treino sem qualquer exposição ao combate e que, acreditando na legitimidade do programa, recomendou-o a 22 pessoas, incluindo familiares.
“Estas pessoas chegaram aproximadamente uma semana após a minha chegada. Partilhei informação inocentemente e elas escolheram juntar-se por vontade própria. Não persuadi, pressionei ou coagi nenhuma delas”, lê-se na declaração. A presença de familiares seus no programa seria, segundo esta versão, prova clara de que desconhecia qualquer irregularidade.
Contudo, esta narrativa enfrenta sérias contradições. Três homens actualmente na Ucrânia afirmam que Duduzile os persuadiu a assinar contratos incompreensíveis e que ela própria treinou ao lado deles. Um irmão de outro recrutado relata que tentou contactá-la após o irmão ser enviado para o campo de batalha, mas que Duduzile se tornou inacessível.
A Teia Zuma-Kremlin
O escândalo não pode ser dissociado da longa e profunda relação entre Jacob Zuma e Moscovo. Durante a sua presidência (2009-2018), considerada por analistas como o auge das relações Rússia-África do Sul, Zuma promoveu uma aproximação estratégica ao Kremlin que deixou marcas profundas na política sul-africana.
A relação remonta à formação de Zuma. Durante a luta contra o apartheid, serviu como chefe de informações do Congresso Nacional Africano no exílio e recebeu treino da GRU (serviços secretos militares russos) numa base secreta na Crimeia durante a Guerra Fria. Passou dez anos na prisão de Robben Island ao lado de Nelson Mandela, consolidando as suas credenciais como combatente da liberdade.
Mas foi enquanto presidente que a ligação com Moscovo ganhou contornos mais controversos. Zuma tentou forçar um acordo nuclear com a empresa estatal russa Rosatom, estimado em mil milhões de rands (cerca de 50 mil milhões de euros), sem seguir os procedimentos legais de contratação pública. Nhlanhla Nene, então ministro das Finanças, testemunhou perante a Comissão Zondo que foi demitido em dezembro de 2015 precisamente por se recusar a aprovar o negócio.
Quando Zuma ficou doente durante a presidência, não procurou tratamento nos Estados Unidos ou na Europa. Voou para Moscovo. Quando precisou de viajar em 2023, enquanto enfrentava pena de prisão por desacato ao tribunal, voou novamente para a Rússia para “tratamento médico” numa viagem que as autoridades classificaram como “privada, mas não secreta”.
O Padrão de Recrutamento
O caso dos dezassete sul-africanos não é um episódio isolado. Fontes de informações revelaram ao Daily Maverick que o envio de jovens para treino militar no estrangeiro pode ser rastreado até 2016, no auge da chamada “captura do Estado” durante a presidência de Zuma.
Nesse ano, Nathi Nhleko — então ministro da Polícia e actualmente membro do partido MK — enviou um grupo de sul-africanos para treino paramilitar não oficial na Academia das Forças Armadas Populares Chinesas em Langfang. Os recrutas, maioritariamente do norte de KwaZulu-Natal, receberam treino intensivo entre março e maio. O financiamento terá vindo da ONG Indoni, registada em nome da esposa de Nhleko.
Na Rússia, o padrão repete-se mas numa escala que causa alarme internacional. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha, afirmou no início de novembro que mais de 1400 cidadãos de 36 países africanos combatem actualmente ao lado da Rússia. Os números não puderam ser verificados de forma independente, mas múltiplos governos africanos — Quénia, Camarões, Uganda — já confirmaram casos de cidadãos recrutados sob falsas promessas.
As táticas russas são sofisticadas e adaptadas a cada contexto. Recrutadores procuram militares em serviço activo em países africanos, prometendo salários dez vezes superiores aos que ganham, bónus de inscrição de 2000 dólares e passaportes russos. Migrantes em situação irregular na Rússia enfrentam chantagem: deportação ou alistamento. Desempregados recebem ofertas de trabalho em construção, armazéns ou segurança que se revelam contratos militares escritos em russo que não conseguem ler.
Um militar da Serra Leoa, Richard Kanu, descreveu como assinou documentos em russo pensando candidatar-se a um emprego em São Petersburgo. Só percebeu que tinha assinado contrato militar quando chegou a uma base em Rostov-on-Don, junto à fronteira com a Ucrânia. Dos homens com quem treinou — muitos africanos como ele — viu dezenas mortos no terreno em Donetsk.
A Geopolítica por Detrás do Recrutamento
A Rússia enfrenta uma crise de recursos humanos. Perde, segundo estimativas ocidentais, cerca de mil soldados por dia na guerra contra a Ucrânia. A mobilização interna é politicamente explosiva, especialmente nas grandes cidades como Moscovo e São Petersburgo. O Kremlin prefere chamar à guerra “operação militar especial” precisamente para evitar mobilização em grande escala.
A solução passa por recrutar no Sul Global, onde os laços históricos da União Soviética com movimentos de libertação africanos ainda geram simpatia, onde a pobreza torna as promessas financeiras irresistíveis e onde a presença ocidental diminuiu nos últimos anos, dificultando a fiscalização.
O Corpo Africano, unidade criada em 2023 a partir dos restos do Grupo Wagner, opera simultaneamente em África e na Ucrânia. O Ministério da Defesa britânico identificou recentemente elementos deste corpo a combater na região de Kharkiv, sugerindo que a Rússia está a desviar recursos militares previamente alocados a África para reforçar as linhas da frente na Ucrânia.
Para os recrutas, a realidade é brutal. São enviados para “assaltos de carne” — ataques em ondas humanas contra posições fortificadas ucranianas. A esperança de vida no campo de batalha é inferior a um mês. Quando são capturados, como aconteceu com alguns, Moscovo não pede a sua troca em negociações de prisioneiros. Nos países de origem, enfrentam acusações criminais por actividade mercenária.
As Consequências Políticas
Na África do Sul, o escândalo tem ramificações que ultrapassam a justiça criminal. O partido MK, que conquistou surpreendentemente 58 lugares nos 400 da Assembleia Nacional nas eleições de maio de 2024, enfrenta uma crise de credibilidade. Jacob Zuma, que mantém laços próximos com Vladimir Putin, terá contactado pessoalmente as autoridades russas numa tentativa de assegurar o regresso dos homens. Até agora, sem sucesso.
A lei sul-africana criminaliza o serviço em forças armadas estrangeiras sem aprovação governamental. A presidência de Ramaphosa descreveu a situação como “sensível e complexa” e prometeu trabalhar para repatriar os cidadãos. Analistas políticos advertem que o caso pode ter repercussões nas relações internacionais, testando o equilíbrio que Pretória tenta manter entre a posição de não-alinhamento declarada sobre a guerra e a sua pertença aos BRICS, onde a Rússia é parceiro estratégico.
Para os dezassete homens presos entre a Rússia e a Ucrânia, a geopolítica é secundária. “Não queremos morrer aqui”, escreveu o pai de três filhos que atendeu aquela chamada telefónica em julho. “Sou uma casca de ser humano, fisicamente esgotado. É uma miséria completa.”
A sua história, multiplicada por milhares em todo o continente africano, revela como a guerra na Europa se alimenta da vulnerabilidade do Sul Global. E como velhas ligações da Guerra Fria encontram novos propósitos numa guerra do século XXI.
Autor do Texto: Arcana News
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