OPINIÃO · Cultura · Arquitetura
Há arquitetos que desenham casas. Há arquitetos que desenham cidades. E houve Frank Gehry, que desenhou uma coisa mais difícil: a nossa disponibilidade para nos espantarmos. Morreu aos 96 anos, depois de mais de oito décadas de trabalho, e é provável que muitos continuem a reduzi-lo a clichés: o “arquitetozinho dos metais torcidos”, o homem de Bilbao, o autor de formas “esquisitas” boas para postais e selfies. É sempre mais confortável resumir o que não entendemos.
Mas Gehry fez outra coisa. Abriu uma brecha numa disciplina que, durante muito tempo, confundiu seriedade com paredes direitas e fachadas respeitáveis. Chegou aos anos 60 e 70 como um outsider com protesto dentro, vindo da costa oeste, longe da gravidade europeia, e pegou em materiais que a boa sociedade considerava “baratos” – chapa ondulada, rede metálica, madeira à vista – para dizer à arquitetura: isto também é linguagem.
A sua própria casa em Santa Monica, embrulhada numa espécie de armadura desalinhada em torno de uma moradia banal cor-de-rosa, foi um manifesto. Não era um capricho formal; era uma bofetada ao estatuto da casa como objeto de ostentação. Numa cidade que mede sucesso em metros quadrados e acabamentos, Gehry encheu a sala de vigas expostas, vidro torto, chão de asfalto. Era como se tivesse escrito na fachada: “não estou aqui para vos agradar, estou aqui para pensar”.
O curioso é que não o fez sozinho. À volta, em Los Angeles, crescia uma geração de artistas que experimentava com resinas, espumas, plásticos, coisas que a “alta cultura” nem sequer reconhecia como matéria nobre. Gehry conversava com eles, aprendia com o risco deles, deixava que a intuição entrasse pela porta do atelier. O gesto decisivo talvez tenha sido esse: permitir que a arquitetura se contaminasse pela liberdade da arte contemporânea.
Depois veio a fase em que o jogo deixou de ser doméstico. A antiga garagem de viaturas da polícia transformada em espaço de arte em Los Angeles, o edifício dos criativos da Chiat/Day com os binóculos gigantes à porta, o campus da Vitra na Alemanha, o museu Guggenheim de Bilbao, a sala de concertos Walt Disney, em Los Angeles. A cada obra, o mesmo sobressalto: isto é um edifício ou uma escultura? E a mesma reação, previsível, de quem guarda as chaves do bom gosto: custa demasiado, não é simétrico, não respeita as regras, é um disparate.
O que a história mostrou, porém, é que aqueles volumes aparentemente caóticos tinham uma disciplina feroz por dentro. Quem trabalhou com ele conta que os rabiscos a lápis eram o início de um processo muito rigoroso, não o fim. O museu de Bilbao, por exemplo, foi desenhado de dentro para fora: o percurso das obras, a logística, os montacargas, as reservas, tudo antes das curvas de titânio que nos ficam na memória. A pele exuberante é apenas a parte visível de um mecanismo pensado ao milímetro para funcionar durante décadas – e tem funcionado.
Talvez por isso Gehry tenha sido tão amado pelo público e tão desconfortável para a profissão. Mostrou que a arquitetura podia ser simultaneamente exigente e popular, radical e, ainda assim, acolhedora. Os seus edifícios convidam ao toque, provocam uma espécie de alegria física. Quem sobe as rampas de Bilbao ou entra na Walt Disney Concert Hall não sente apenas respeito; sente vontade de olhar, de se aproximar, de testar ecos, de descobrir ângulos. É arquitetura que não manda calar: convida à conversa.
Claro que houve excessos, falhas técnicas, conflitos, egos magoados. Ninguém que empurre uma disciplina inteira para fora do sítio o faz sem ferir suscetibilidades. Gehry podia ser duro, competitivo, pouco paciente com quem lhe queria cortar as asas. Mas é significativo que, mesmo nas histórias de conflito, apareça sempre a mesma imagem: um homem obcecado em levar até ao fim a visão que tinha na cabeça, a ponto de ser capaz de enfrentar clientes poderosos, comités respeitáveis, orçamentos timoratos.
O que me interessa mais, porém, é outra faceta: a do homem que, já consagrado, se virou para contextos onde quase ninguém olha. Gehry desenhou, gratuitamente, equipamentos para orquestras juvenis, centros de apoio a doentes oncológicos, espaços comunitários em bairros pobres de Los Angeles. Um dos exemplos mais comoventes é o campus do Children’s Institute em Watts, 20 mil metros quadrados pensados para que as crianças tenham, finalmente, um lugar que diga “tu pertences aqui”.
Quem lá trabalha descreve o efeito com palavras simples: as crianças entram cabisbaixas e, ao atravessarem a porta, endireitam-se. Como se o edifício, com os seus volumes partidos, as suas janelas generosas, os pátios inesperados, lhes dissesse que a cidade também é para elas. Há qualquer coisa profundamente política nesse gesto: pegar na linguagem experimental que fascinou museus, filarmónicas e marcas de luxo e colocá-la ao serviço de quem quase nunca é convidado para a festa.
É aqui que a herança de Gehry nos toca de perto. Porque o que ele nos deixa não é apenas um catálogo de obras impressionantes; é uma pergunta sobre o que queremos que a arquitetura faça. Queremos edifícios apenas eficientes, corpos neutros que não ofendem ninguém? Queremos objetos espetaculares que funcionem como logotipo turístico e selfie point, mas esqueçam a vida de quem mora ao lado? Ou queremos espaços que arrisquem dizer alguma coisa sobre nós – mesmo à custa de desconforto, polémica, crítica?
Em Portugal, a discussão parece muitas vezes adormecida. Habituámo-nos a tratar a arquitetura como assunto de nicho, entregue a especialistas e revistas. No entanto, basta uma decisão mal pensada sobre um hospital, uma escola, um bairro social, para percebermos que o desenho do espaço condiciona, todos os dias, a forma como nos encontramos, estudamos, protegemos os mais frágeis. Gehry lembra-nos justamente isso: a planta de um edifício é um argumento sobre o mundo. Pode ser conservador, violento, burocrático – ou pode ser um pouco mais generoso.
Gosto de pensar que a arquitetura de Frank Gehry é, acima de tudo, uma escola de coragem. Coragem para aceitar que a cidade não tem de ser sempre uma repetição de caixas alinhadas; coragem para admitir que a beleza não é luxo, mas uma forma de respeito; coragem para, no fim da carreira, pôr esse vocabulário ao serviço de quem vive nos interstícios do sistema.
Ele partiu, mas os seus edifícios continuam a pôr problemas incómodos. O mais difícil talvez seja este: se aprendemos, graças a eles, que a cidade pode ser mais livre, mais surpreendente, mais nossa, o que fazemos agora com essa liberdade? Continuamos a escolher, nas periferias, escolas e centros de saúde que parecem armazéns? Aceitamos que as crianças de certos bairros não tenham direito a nenhum espanto? Ou exigimos, com a teimosia calma dos cidadãos, que a arquitetura pública não seja apenas “correta”, mas digna?
Frank Gehry passou a vida a lembrar-nos que um edifício pode ser mais do que abrigo. Pode ser um gesto, uma pergunta, um convite a olhar o mundo de outra maneira. A verdadeira homenagem não será repetir-lhe as curvas, mas recusar a ideia de que o futuro da cidade é feito de resignação. Se os seus desenhos nos ensinaram alguma coisa, foi isto: a cidade muda quando alguém tem coragem de a sonhar de novo – e quando nós, do lado de cá, aceitamos entrar.
por Alberto Carvalho
Foto: Pexels / Pixabay


