ANÁLISE · Estados Unidos · Geopolítica
Donald Trump publicou na sexta-feira um documento de 33 páginas que marca uma viragem na forma como Washington se posiciona no mundo.
Oito anos depois de ter reconhecido formalmente a competição entre grandes potências, a nova estratégia nacional retira os Estados Unidos dessa corrida — privilegiando o hemisfério ocidental e tratando o comércio como ameaça equivalente à capacidade militar chinesa.
Aliados europeus ficam em segundo plano. Moscovo e Pequim respiram de alívio.
Da competição global ao foco hemisférico: o que mudou na estratégia de segurança de Trump.
O documento é a tentativa mais completa da administração Trump de explicar o seu pensamento sobre segurança nacional. Até agora, o presidente comunicava sobretudo através de explosões breves nas redes sociais. Este texto oferece pela primeira vez uma visão estruturada do que podem ser os próximos três anos de política externa americana — e possivelmente os próximos sete, dado que a marca do vice-presidente JD Vance está visivelmente impressa no papel.
Não é um manifesto isolacionista do tipo que circula em think tanks libertários. Mas é claramente uma declaração de que os Estados Unidos já não podem, nem devem no interesse nacional, carregar o peso da liderança global tal como a exerceram nas últimas décadas.
Documento de 33 páginas marca recuo da liderança global que aliados europeus financiaram durante décadas.
A mudança mais notória está na prioridade geográfica. O hemisfério ocidental surge em primeiro lugar, com o resto do mundo deliberadamente secundarizado. Há uma lógica geográfica nesta escolha — proximidade física, influência histórica, integração económica natural. Mas não há lógica estratégica, porque as maiores ameaças à segurança americana não vêm do Brasil, da Colômbia ou sequer de Cuba.
A estratégia sublinha correctamente a importância de remover influências malignas do hemisfério, embora sem mencionar explicitamente Rússia, China ou Cuba como essas influências. Sugere também que migração e drogas são duas das ameaças mais graves à América. Trump mostrou que os Estados Unidos conseguem travar migrações descontroladas quando há vontade política. Reduzir o fluxo de drogas ilegais requer algo diferente: diminuir a procura interna americana. A permanência de Nicolás Maduro no poder na Venezuela será o primeiro teste real deste foco nas Américas.
Por qualquer medida objetiva, a maior ameaça aos Estados Unidos é a potência hostil do outro lado do Pacífico que triplicou o seu arsenal nuclear em cinco anos: a China. Contudo, o documento descreve o comércio como “o que está verdadeiramente em jogo” no Pacífico e trata desequilíbrios comerciais como ameaça maior à prosperidade americana do que a expansão militar de Pequim.
A melhor defesa possível para esta fraqueza em relação à China é que a administração quer conciliar para ganhar tempo enquanto Pequim controla a produção de terras raras. O documento merece reconhecimento por reiterar o interesse americano na paz no Estreito de Taiwan e promete “construir forças armadas capazes de negar agressão em qualquer ponto da Primeira Cadeia de Ilhas” — ainda que sem comprometer o aumento de gastos militares que isso exige.
A China é também o principal financiador da guerra de Vladimir Putin na Ucrânia, e é aqui que a estratégia descarrila completamente. O texto defende “estabilidade estratégica” com a potência que invadiu a Europa de Leste e tem usado chantagem nuclear contra os Estados Unidos e a NATO. Putin usará este documento como prova de que a expansão da NATO e a decadência europeia justificam o seu imperialismo. Difícil imaginar como isto facilita o fim da guerra na Ucrânia.
Simultaneamente, o documento ataca os amigos americanos do outro lado do Atlântico. A administração tem razão sobre o declínio da autoconfiança europeia e décadas de negligência do poder militar. Mas a mesma administração que dá lições à Europa sobre liberdade de expressão diz que os Estados Unidos devem ignorar como as ditaduras do mundo se governam internamente.
A estratégia está cheia de outras contradições. Oferece uma história resumida e falsa do declínio americano antes de Trump assumir o cargo, enquanto afirma simultaneamente que os Estados Unidos têm a melhor economia do mundo. Diz que é preciso mobilizar aliados num esforço conjunto para resistir ao mercantilismo chinês, mas celebra tarifas sobre esses mesmos aliados que os tornam menos propensos a confiar em Washington.
A administração afirma que os Estados Unidos devem liderar o mundo em ciência e tecnologia, mas rejeita qualquer necessidade do que ridiculariza entre aspas como “talento global”. De onde virão todos esses engenheiros de inteligência artificial?
Algumas destas contradições podem resultar da luta interna entre aqueles que procuram definir a política externa MAGA depois de Trump. Os acenos do documento à liberdade política americana, livre empresa e sociedade civil como fontes de poder nacional são bem-vindos. Leem-se como interjeções de alguém na administração — será Marco Rubio? — que não está preparado para ceder o mundo a esferas de influência.
A administração está também muito melhor em relação a instituições internacionais do que teria estado uma presidente Kamala Harris. O texto tem razão quando diz que a esquerda “amarrou a política americana a uma rede de instituições internacionais, algumas das quais são movidas por antiamericanismo declarado”. Veja-se as Nações Unidas.
Mas no fundo, o documento é estranhamente irrealista sobre as ameaças do mundo. Potências revisionistas estão a trabalhar juntas para montar um desafio global e ideológico aos Estados Unidos — um eixo entre China, Rússia, Irão e Coreia do Norte. Questões prudenciais sobre prioridades e intervenção americana são cruciais, mas decorrem dessa competição maior.
Alguns descartarão a estratégia como mais um documento de Washington que o presidente Trump não lerá. Apontarão que a suposta “predisposição ao não-intervencionismo” é desmentida pela campanha nas Caraíbas e pelo ataque ao programa nuclear iraniano.
Mas pode ter-se a certeza de que os inimigos da América estão a ler este documento. E o que verão é um país consumido pelas suas próprias lutas internas e incapaz de ser honesto sobre as ameaças reais vindas da China e da Rússia.
Os americanos elegeram Trump em 2016 em parte porque não apreciavam a ingenuidade de Barack Obama sobre os adversários e o seu recuo da liderança americana. O mistério é porque Trump está a reviver grande parte dessa grande estratégia falhada no seu segundo mandato.
Autor: Arcana News
Crédito: Steenjepsen via Pixabay


