A Cor do Medo — Parte I: A Estátua e a Sombra

Economia

Elian Morvane
Elian Morvanehttps://www.arcananews.com/
Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

A COR DO MEDO

por Alberto Carvalho

(Parte I)

Da luz da liberdade à sombra da suspeita: o medo como nova bandeira da América.

Dizem que a luz da Estátua da Liberdade nunca se apaga, mas há noites em que o brilho que vem da sua tocha parece o de um incêndio. Talvez porque já não ilumina quem chega — apenas denuncia quem foge. Lá dentro, entre os degraus que conduzem à coroa, há ecos de passos em botas federais, vozes em inglês a pedir documentos, mãos em luvas pretas que abrem malas e fecham bocas. No alto, a tocha — símbolo de abrigo — é agora o farol de um medo que muda de cor conforme a pele que ilumina.

Nos Estados Unidos de Trump, o medo tem um nome, uma língua e uma tez. E, como sempre, quando o poder precisa de um inimigo, volta-se contra o mais visível: o outro. Desta vez, o outro fala espanhol, carrega rosários de contas gastas, ouve rancheras nos domingos de sol, trabalha até tarde e sorri com timidez nos supermercados. Para alguns, é o rosto do crime. Para outros, é apenas o espelho da própria culpa.

A América, que se fez prometendo liberdade, reaprende agora a lição do domínio. E fá-lo com o zelo religioso de quem quer salvar a alma da pátria mesmo que para isso precise de a perder. O medo — esse animal antigo — voltou a ser instrumento de governo. As ruas estão cheias de fantasmas de uniforme que falam de lei enquanto esmagam o chão com as botas do arbítrio.

Trump descobriu que há algo mais eficaz do que o muro: a humilhação pública. Ela não custa cimento nem requer Congresso. Basta um mandado impreciso, um rosto moreno e uma noite de silêncio. Há vídeos que mostram agentes federais em máscaras pretas, a gritar “amigo” em espanhol antes de empurrar alguém contra a parede. O insulto tornou-se método. O sarcasmo, política. E a dor, rotina.

Na América de hoje, há cidadãos que têm medo de falar a língua dos seus pais, medo de cantar, medo de levar os filhos à escola. Há mães que se despedem dos filhos de manhã sem saber se voltarão a jantar juntos. E há quem já não vá à missa porque teme ser detido à porta da igreja. Nenhum país livre pode suportar essa sombra sem se tornar o que teme.

O problema, contudo, não é apenas americano. O medo tem sotaques diversos e fronteiras elásticas. Ele instala-se onde a ignorância encontra um microfone, e o ressentimento, uma bandeira.

Portugal começa a reconhecer-lhe o timbre. Não nas redadas, ainda, mas nas palavras — que são o primeiro degrau do ódio. Quando um político acusa imigrantes de parasitar o Estado, quando se fala de “limpeza” nas ruas ou de “bons portugueses” contra “os outros”, a tocha da liberdade treme. Não é preciso romper janelas nem algemar ninguém: basta convencer o povo de que há inimigos à espreita, e o resto vem com a noite.

André Ventura — rosto português da mesma pulsão autoritária — não precisa de máscaras para semear medo. Sorri enquanto o faz. Diz que protege as famílias, mas divide as casas. Diz que fala pelo povo, mas alimenta-se do seu desespero. A sua política é a do espelho: mostrar ao país o seu lado mais escuro e chamá-lo de coragem.

E muitos aplaudem, cansados de esperar soluções, como se o ruído pudesse substituir o pão. Assim começou também a América de Trump — com promessas de ordem, de soberania, de grandeza. Mas a ordem sem justiça é apenas silêncio imposto. A soberania sem dignidade é tirania doméstica. E a grandeza sem compaixão é uma forma disfarçada de barbárie.

(continua — Parte II: A Fronteira do Medo)


SÉRIE — “A COR DO MEDO”

Autor: Alberto Carvalho
Categoria: Opinião / Ensaio
Língua: Português (Portugal)
Selo editorial: Caderno de Alberto Carvalho — Arcana News

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