Nesta entrevista da série Vidas Invisíveis, a Magazine Arcana escuta a Marta (nome fictício), uma mulher de 43 anos que vive entre o amor pela filha e a precariedade. Uma história de resistência quotidiana, contada devagar.
Entrevista a Marta (nome fictício)
Por Alberto Carvalho — Magazine Arcana
Encontrámo-nos num café pequeno, num fim de tarde que parecia suspenso. Ela pediu um galão e uma torrada. Falava baixo, como quem ainda mede o peso de ser ouvida. Disse-me logo que não queria fotografias, nem o nome verdadeiro. “Não por vergonha”, explicou, “mas porque quero poder continuar a viver sem que os vizinhos saibam tudo.”
Marta tem 43 anos, foi professora contratada durante mais de uma década. Hoje trabalha a tempo parcial num lar. Ganha pouco mais de 700 euros. Vive com a filha de oito anos num T1 arrendado em segunda mão. Aceitou esta conversa porque, segundo disse, “há demasiadas pessoas a desaparecer em silêncio”.
“há demasiadas pessoas a desaparecer em silêncio”
Magazine Arcana — Quando diz que desapareceu, o que quer dizer com isso?
Quando fui mãe, o mundo reduziu-se à casa, às fraldas, às horas mal dormidas. Achei que era uma fase. Mas o que veio depois foi pior: a separação, o desemprego, a falta de chão. De repente, deixei de ser “a Marta” e passei a ser “a mãe daquela menina”. É estranho: a sociedade elogia as mães, mas também as esquece. Ninguém pergunta como estamos. Só se a criança está bem alimentada.
Sentiu-se invisível?
Completamente. O Estado só me vê quando precisa que assine papéis. A escola só me liga quando há faltas. Os amigos foram desaparecendo, cada um com as suas urgências.
Eu tornei-me uma espécie de sombra funcional — faço o que é preciso, mas deixei de ter nome.
E o trabalho?
O trabalho é sobrevivência. Digo sempre que tenho dois empregos: um que me paga a renda e outro que me paga o sentido. O primeiro é no lar; o segundo, é ser mãe. Mas às vezes confundo os dois — cuido de pessoas o dia todo e à noite só quero que alguém cuidasse de mim.
Há vergonha na pobreza?
Há vergonha em falhar. E em Portugal falhar é proibido.
Eu falhei — no casamento, na carreira, no sonho de estabilidade. As pessoas acham que a pobreza é falta de dinheiro. Mas não: é falta de tempo, de voz, de pertença. É não poder escolher nada. É viver a pensar se o multibanco vai aceitar o cartão.
Quando olha para o futuro, o que vê?
Depende do dia. Há dias em que vejo luz — quando a minha filha ri, quando chega uma manhã de sol e parece que tudo pode recomeçar. Mas há outros em que só vejo nevoeiro.
Penso muitas vezes que estamos todos a fingir que a sociedade funciona. Não funciona.
Há uma parte enorme do país a viver no limite, mas com medo de o dizer.
Se pudesse falar diretamente ao primeiro-ministro, o que diria?
Diria: venha morar comigo um mês.
Com 700 euros, uma criança, uma renda e uma conta da luz.
Depois conversamos sobre mérito, esforço e “oportunidades iguais”.
E à sua filha, o que gostaria que ela soubesse sobre si?
Que tentei. Que mesmo quando o mundo parecia fechado, eu não deixei de tentar.
E que ser mãe é um amor que cansa, mas que também salva.
Ela não precisa de saber o quanto chorei. Basta que saiba que resisti.
Quando terminou o café, Marta guardou o guardanapo como quem leva uma prova de presença. Disse-me: “escreva só o que for preciso — o resto não interessa.”
Fiquei a pensar no que significa existir num país onde tanta gente cumpre o seu dever e, ainda assim, vive como se fosse um erro.
Nota editorial:
Esta entrevista integra o ciclo Vidas Invisíveis, uma série da Magazine Arcana dedicada a retratar histórias reais de pessoas que vivem nas margens da atenção pública.
Imagem – Fonte: Pixabay / pasja1000


