Há dias, sentado no banco de sempre, o senhor Henrique dizia-me — sem levantar os olhos do jornal — que já não entende este mundo. “Antigamente as mulheres usavam creme Nivea, minha menina. Agora é mucina de caracol, extratos que não sei de onde vêm, máscaras que parecem de extraterrestres.”
Quando um frasco de creme diz mais sobre o mundo do que parece.
Ele fala sempre assim, com aquela dignidade de quem já viu guerras, crises e, sobretudo, muitos cremes. Eu sorri. Ouço-o porque gosto da música das suas queixas, mas também porque às vezes ele apanha o país no ar, sem se dar conta.
Nessa tarde, enquanto ele falava, passou uma rapariga a correr para o autocarro com uma embalagem cor-de-rosa na mão — “Lip Sleeping Mask”, dizia no rótulo em letras tão brilhantes como néons de Seul. Duas outras, perto da esplanada, discutiam exosomas e polideoxi… qualquer coisa, palavras assim compridas, que talvez sejam científicas ou talvez sejam apenas feitiços da modernidade.
E, de repente, percebi que a conversa do senhor Henrique não era sobre cremes; era sobre o país que mudava à frente dele.
Foi isto que me chamou a atenção quando li a reportagem sobre o império coreano da beleza, essa travessia improvável de um país que outrora sobrevivia com viúvas de guerra a vender cremes porta a porta — e que agora conquista o mundo com frascos translúcidos e rotinas de dez passos. Há quem diga que isto é apenas comércio. Eu digo: não, não é só isso. Na vida real, as revoluções mais silenciosas fazem-se em casa, ao espelho, quando as pessoas tocam no próprio rosto e acreditam, nem que seja por um instante, que podem ser outra versão de si mesmas.
Talvez seja por isso que a beleza coreana pegou tão fundo. Não veio com promessas abstractas, mas com gestos concretos — limpar, hidratar, reparar. E com ingredientes que soam a histórias: ginseng plantado ao milímetro, mucina de caracol (que toda a gente faz troça até experimentar), extratos de folhas que ainda ninguém sabia serem milagrosas. É uma beleza que nasceu de uma cultura que cuida da pele como quem escreve uma carta lenta, cheia de paciência.
E nós, cá na praça, recebemos estas coisas com a mesma curiosidade com que olhamos para turista que se perdeu e abre o mapa ao contrário. Primeiro estranha-se. Depois pergunta-se. Depois experimenta-se — geralmente depois de ver uma influencer qualquer explicar que aquilo faz “uma pele de vidro”, expressão que me parece tão bonita quanto irrealizável.
Portugal sempre gostou de adotar tendências vindas de longe. É coisa antiga. Fomos buscar especiarias, tecidos, palavras, modos. Agora vem a beleza, embalada em potes pequenos e slogans grandes. O mais curioso é que a globalização, esse monstro que nos dizem anónimo, chega-me sempre pelos mesmos lugares: pelas conversas de mercado, pelo comentário da dona Albertina que diz que a neta “só usa coisas coreanas”, ou pelo saco da loja Sephora que as raparigas pousam no chão enquanto tiram fotografias.
O que mudou não foi apenas o consumo. Mudou o imaginário.
Antes, a beleza era europeia: francesa, italiana. Depois americana. Agora, a referência é outra — grupos de K-pop, séries que o mundo inteiro vê, rostos que parecem eternamente jovens, cidades futuristas com luzes de néon. Mais importante ainda: uma cultura que se mostrou capaz de transformar fragilidade em aspiração.
A senhora Arlene, de Nova Jersey, que aos 84 anos viaja até Seul para comprar cremes de ginseng, não vai à procura da juventude; vai à procura de uma história para acreditar um pouco mais no seu corpo. Não é diferente da dona Judite que compra creme no mercado porque a vizinha disse que “faz milagres”. A esperança é sempre internacional.
O que mais me impressiona, no entanto, é outra coisa: este fenómeno não nasce do luxo puro, mas da competição feroz dentro do próprio país. Dizem os números que os coreanos gastam mais em cosméticos do que qualquer outro povo. Talvez por isso se reinventem tão depressa. Talvez por isso uma marca pequena consiga explodir com um único ingrediente, da mesma forma que um músico de rua, numa tarde certa, pode transformar-se num fenómeno mundial.
E nós, cá na praça, assistimos a esta explosão com a mesma mistura de espanto e distração com que observamos um turista que tenta pedir um café “meia de leite” com sotaque francês. O mundo está ali, tão grande, tão perto, tão nosso sem pedir licença.
Enquanto escrevo, o senhor Henrique passou novamente. Parou ao meu lado, apontou para o creme cor-de-rosa que uma miúda tinha pousado no banco e disse:
— Isto vale mesmo a pena?
Não soube responder-lhe com ciência. A verdade é que ninguém sabe bem. Uns dizem que sim, outros que não. Mas respondi-lhe o que realmente acredito:
— Vale a pena se nos fizer bem. Mesmo que seja só um bocadinho.
Ele ficou a pensar. E eu também.
No fundo, acho que é esse o segredo da beleza coreana: não promete eternidade, promete cuidado. E o cuidado, esse, é a coisa mais revolucionária que podemos oferecer aos outros — e a nós mesmos.
Autor: Maria do Rio
Imagem: Créditos: AestheticJourney / Pixabay (licença livre para uso editorial).
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