CONTEXTO
No extremo oriental do Congo, longe de Kinshasa e ainda mais longe da atenção internacional, subsiste uma figura cuja autoridade não nasce de urnas, mas da memória de um povo.
O Rei Entre Dois Fogos.
Mwami Butsitsi Kahembe IV Isaac, rei dos Bukumu, assume o seu papel num território onde a legitimidade não se mede pelo poder das armas, mas pelo peso da tradição e pela capacidade de sobreviver às forças que, há décadas, modelam a região mais instável de África.
O seu “palácio” atual não é mais que um edifício de paredes simples, implantado na periferia de Goma. O palácio ancestral desapareceu há trinta anos, engolido pela violência dos conflitos tribais. O trono, no entanto, sobrevivem-lhe no imaginário colectivo: nele se deposita a esperança de continuidade nas comunidades que ali vivem entre erupções, deslocamentos forçados e confrontos armados. Sentado diante de mim naquela manhã, o rei falava com a serenidade de quem sabe que não governa pela força, mas porque o povo, apesar de tudo, continua a reconhecê-lo como guardião do que resta da ordem.
No mundo de Mwami Isaac, a neutralidade é uma arte e um risco. O M23 controla, hoje, vastas áreas de Kivu do Norte; o exército congolês reivindica autoridade estatal; o governo de Kinshasa acusa o Ruanda de ingerência; e cada milícia local reivindica a sua própria causa. O rei vive entre estes vetores, consciente de que qualquer gesto pode ser interpretado como alinhamento. Fala com quem manda, porque não tem outra escolha. Tem fotografia com uns e guarda outras na gaveta. Este é o preço político de sobreviver num território onde a geografia do poder muda com a mesma rapidez com que se rearranjam os blocos de lava do Nyiragongo.
A natureza da sua autoridade ajuda a explicar essa resistência. Os Bukumu não lhe pedem que mude o curso da guerra; pedem-lhe que mantenha viva a continuidade do seu mundo. Para uns, é um símbolo espiritual; para outros, um árbitro possível entre disputas; para muitos, apenas um eco daquilo que já foi. Mas essa frágil autoridade ancestral tem algo que falta ao Estado: proximidade. Em aldeias destruídas, em campos de deslocados, na vida quotidiana esmagada pela incerteza, a figura do rei lembra às famílias que ainda pertencem a uma história que não foi totalmente consumida pela violência.
Ainda assim, Mwami Isaac não esconde a ironia de governar um povo que acredita que um vulcão em erupção é sinal de um rei que falhou. Os seus antepassados sacrificavam gado e virgens. Ele, modernizado, educado, urbano, tem de conter um sorriso quando explica que os tempos mudaram e que a tradição já não se impõe ao direito internacional. Mas essa ironia fina confirma o essencial: por detrás da aparência cerimonial há um líder obrigado a navegar entre a modernidade e o passado, entre a legitimidade temporal e a sobrevivência quotidiana.
A sua posição revela uma das chaves para compreender a crise congolesa: o Estado é demasiado frágil, os actores armados demasiado fortes e as estruturas tradicionais demasiado fundamentais para desaparecer. O rei dos Bukumu não controla fronteiras, nem minas, nem aeroportos. Controla, sim, algo menos visível: a ideia de que ainda existe um fio de continuidade numa região submetida a múltiplas ordens políticas. O poder que exerce é mínimo, mas o significado é imenso. O Congo contemporâneo vive desta contradição: quanto mais se fragmenta, mais recorre a figuras que parecem anacrónicas e, no entanto, tecem sentidos de pertença impossíveis de extinguir.
Se o Ocidente olha para Goma e vê apenas mapas militares, o próprio território lembra que ali existem outras autoridades — frágeis, vulneráveis, mas indispensáveis. O rei dos Bukumu é uma delas. Não detém a paz, não impõe leis, não dispensa milagres. Mas a sua presença lembra que, mesmo num espaço dominado pela força, a legitimidade pode resistir sem disparar um único tiro.
E, por vezes, isso vale mais do que parece.
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