China aposta tudo nos chips de IA enquanto EUA apertam cerco

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

ANÁLISE · China · Inteligência Artificial

A Moore Threads levantou mais de mil milhões de dólares numa estreia em bolsa que fez as suas ações dispararem 425% no primeiro dia. É o mais recente capítulo de uma corrida onde Pequim tenta construir uma indústria doméstica de semicondutores para IA que não dependa da tecnologia americana.

China aposta tudo nos chips para inteligência artificial enquanto Washington aperta o cerco.

A cena na sexta-feira na bolsa de Xangai foi qualquer coisa de notável. As ações da Moore Threads, uma fabricante chinesa de chips para inteligência artificial, fecharam a 600,5 yuan depois de terem sido oferecidas a 114,3 yuan na oferta pública inicial. Para quem não está habituado a fazer contas rápidas: estamos a falar de uma valorização de mais de quatro vezes num único dia de negociação.

A empresa foi fundada em 2020 por Zhang Jianzhong, um antigo executivo da Nvidia — sim, essa Nvidia, a que vale perto de 4,5 biliões de dólares e se tornou sinónimo de chips para treinar modelos de IA. Zhang saiu da gigante americana para tentar criar algo parecido na China, desenhando processadores gráficos (GPU) especificamente pensados para treinar sistemas de inteligência artificial.

O entusiasmo dos investidores chineses foi, digamos, considerável. A fatia da oferta reservada para pequenos investidores teve uma procura 2.750 vezes superior ao disponível, segundo documentos oficiais. Não admira que a empresa tenha conseguido levantar o equivalente a mais de mil milhões de dólares.

Mas convém não perder a perspectiva. Mesmo depois desta subida estrondosa, a Moore Threads vale cerca de 400 mil milhões de dólares — dados da London Stock Exchange Group. A Nvidia vale 4,5 biliões. É uma diferença de magnitude, não de percentagem.

A Moore Threads faz parte do que em círculos tecnológicos chineses chamam os “quatro pequenos dragões” — startups de semicondutores que Pequim vê como fundamentais para reduzir a dependência do país em relação a fornecedores estrangeiros. É a primeira deste grupo a fazer uma oferta pública, usando um canal na STAR Market (uma espécie de Nasdaq chinês criado em 2019) que foi recentemente reaberto para empresas tecnológicas estratégicas, mesmo que ainda não deem lucro. A Moore Threads continua a registar prejuízos, apesar de ter triplicado as receitas no ano passado.

O timing desta operação não é inocente. Desde que a DeepSeek — outra startup chinesa — lançou no início deste ano um modelo de linguagem que rivaliza com o ChatGPT da OpenAI mas custou uma fração do preço a desenvolver, o dinheiro tem fluído para o sector tecnológico chinês. A Alibaba e a Tencent entraram numa competição aberta para lançar modelos de IA cada vez mais sofisticados.

Do outro lado do Pacífico, a administração Biden colocou a Moore Threads numa lista negra de exportações em outubro de 2023, alegando preocupações de segurança nacional. É o tipo de medida que Washington tem usado repetidamente para tentar limitar o acesso chinês a tecnologia de ponta. A lógica é simples: se controlas os chips, controlas a IA. E se controlas a IA, tens uma vantagem estratégica considerável.

Zhang, o fundador, disse numa entrevista à comunicação social estatal chinesa na sexta-feira que “poder computacional é poder nacional” — uma frase que resume bem a forma como Pequim vê esta questão. Acrescentou que enquanto os agentes de IA continuarem a evoluir na capacidade de resolver problemas, não estamos perante uma bolha especulativa.

Analistas ocidentais tendem a ver as coisas de forma menos optimista. Os chips chineses e os modelos de IA produzidos no país continuam, em vários aspectos importantes, atrás dos equivalentes americanos ou europeus. Mas o apoio político é robusto e o entusiasmo dos investidores fornece um incentivo poderoso para continuar a inovar.

É interessante o contraste com o que se passa nos Estados Unidos. Por lá, começa a haver uma cautela crescente em relação às ações ligadas à inteligência artificial. As avaliações são elevadíssimas e os compromissos de investimento são astronómicos, o que levou alguns investidores a questionar se não estaremos perante uma bolha — e se os preços atuais são sustentáveis.

A próxima startup chinesa de chips a tentar a sorte em bolsa deverá ser a MetaX, também sediada em Xangai, que quer levantar mais de 550 milhões de dólares. Se o desempenho for parecido com o da Moore Threads, pode contar com filas à porta.

O que fica claro é que estamos perante duas visões muito diferentes do futuro tecnológico. Uma assente em restrições e controlo de exportações. Outra em apoio estatal maciço e apetite de risco considerável por parte de investidores. Qual vai funcionar melhor é uma questão em aberto, mas a resposta vai ter consequências que vão muito para além do mercado de semicondutores.

Autor do texto: Arcana News

Crédito de imagem: Pok Rie via Pexels

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