Zelensky recusa cedências e aponta pressões dos EUA

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é autor e cronista do Arcana News, escrevendo atualmente na Revista Arcana News, sem deixar de colaborar também em peças noticiosas e em leituras estratégicas de política, economia e sociedade.

NOTÍCIA · Europa · Guerra

LONDRES — Volodymyr Zelensky apareceu cansado, mas firme, quando entrou na sala virtual onde os jornalistas o aguardavam.

Zelensky trava cedências e admite pressões norte-americanas.

A conversa tinha sido marcada à última hora, depois de um dia cheio de reuniões, e começou com a frase que ninguém no ocidente consegue ignorar: “A Ucrânia não vai dar território.” Disse-o devagar, como quem repete algo que já explicou demasiadas vezes.

O tema voltou à mesa porque, segundo o próprio Zelensky, Washington está a empurrar Kiev para um “compromisso” sobre as exigências de Moscovo. Não é segredo que os norte-americanos procuram encerrar a guerra antes de ela consumir mais recursos, mas o Presidente ucraniano raramente tinha falado assim — diretamente, quase sem filtro.

A divergência é antiga. A Rússia insiste que qualquer acordo tem de abranger toda a região do Donbas; não apenas o que controla, mas também zonas onde nunca conseguiu entrar. Zelensky voltou a dizer que isso não está em discussão. “Nem temos o direito de o fazer”, afirmou. Parou um segundo. “Nem legal, nem moral.”

O tom mudou quando passou a descrever o dia. Londres, chuva miúda, o trânsito habitual em Westminster, e depois o encontro na residência oficial britânica. Keir Starmer recebeu-o com um aperto de mão rápido; Emmanuel Macron chegou um pouco depois; Friedrich Merz atrasou-se por causa de uma reunião no Parlamento alemão. Nada disto saiu nas notas oficiais, mas Zelensky deixou escapar esses detalhes, provavelmente sem intenção. A reunião, contou, foi “tensa em certos momentos”, apesar de todos lhe garantirem que a Europa não vai largar a Ucrânia.

No comunicado francês surgido horas depois — seco, calculado — lia-se apenas que os líderes europeus querem complementar as propostas dos Estados Unidos com contributos próprios, mantendo Kiev informada. Nada sobre tensões. Nada sobre reservas. Nada sobre os receios de que Washington esteja a negociar de forma demasiado solitária.

Mas, no breve intervalo em que Macron falou aos jornalistas antes da reunião começar, escapou-lhe uma frase curiosa. Disse que a Europa ainda tem “cartas na mão”, algo que Zelensky citou mais tarde com um sorriso cansado: “Ele disse-me isso três vezes”, contou.

Merz foi mais sombrio. Explicou que vê o momento como “decisivo” para a segurança europeia e admitiu que partes do plano americano o deixam inquieto. “Temos de falar disso entre nós”, terá dito. Zelensky não desmentiu.

Enquanto tudo isto acontecia, Donald Trump decidia intervir à distância. Afirmou que estava dececionado porque Zelensky ainda não tinha lido a mais recente proposta de paz trabalhada pela sua equipa e por representantes russos. “As pessoas dele adoram o plano”, disse o ex-presidente. Que pessoas? Não explicou. Na Ucrânia, onde muitos passam o dia a gerir cortes de eletricidade — seis a nove horas de luz, com sorte, em horários que nem sempre fazem sentido —, a ideia de entusiasmo por um acordo ainda nebuloso não coincide com a realidade.

Nem Moscovo, nem Kiev, aliás, parecem especialmente convencidos pela versão americana. Putin já considerou partes “inviáveis”. Zelensky insiste que qualquer solução tem de funcionar no terreno e não apenas no papel. Falou disso com uma clareza que deixou pouco espaço para dúvidas: “Se não for exequível, não é acordo.”

A conversa deslizou depois para a Europa e para a nova estratégia de segurança dos Estados Unidos, que critica vários governos europeus e gerou desconforto imediato. Curiosamente, quem a elogiou foi Moscovo. Dmitri Peskov, o porta-voz do Kremlin, disse que via na estratégia “nuances positivas”, sobretudo nas passagens onde se fala em diálogo.

No final da sessão, já perto da meia-noite, Zelensky respirou fundo e repetiu, com menos força do que no início, mas sem hesitação: “Não vamos entregar território.” Fechou o portátil. A guerra continuava onde estava, e o mapa também.

Autor: Arcana News

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