NOTÍCIA · Sociedade · Vida digital
Um número crescente de filhos adultos descreve o mesmo desconforto, repetido com pequenas variações: atravessam o país para ver a família, chegam com a expectativa de um convívio simples, e encontram os avós “presentes” — mas ocupados noutro lugar. Não é o telemóvel na mão dos netos que lhes fica na memória. É o telemóvel na mão de quem deveria estar disponível.
Quando os avós fazem scroll, a família percebe tarde.
As histórias têm um padrão reconhecível. Avós que passam o almoço a alternar entre vídeos curtos e mensagens; avós que interrompem uma conversa para “ver só isto”; avós que chamam os netos para perto — e continuam a deslizar o dedo, como se a presença física fosse suficiente para cumprir a ideia de “estar juntos”.
O fenómeno está a ganhar nome nas conversas familiares e nas redes: uma inversão silenciosa do pânico do “tempo de ecrã”. Durante anos, a inquietação social apontou para crianças e adolescentes, com os adultos no papel de guardiões. Agora, em muitas casas, o debate troca de mãos: são os filhos a tentar “regular” os pais.
O impacto não é apenas doméstico. Profissionais que trabalham com envelhecimento e saúde mental têm vindo a alertar para o modo como rotinas de ecrã prolongadas podem agravar isolamento, fragmentar atenção, perturbar sono e, sobretudo, substituir aquilo que não tem substituto: vínculo, conversa, tacto, lentidão partilhada.
Nada disto implica que a tecnologia seja inimiga, nem que a ligação digital seja “má” por definição. Implica outra coisa, mais delicada: que as ferramentas desenhadas para prender atenção não escolhem idades — e que, quando o mundo abranda, o ecrã oferece um tipo de ocupação que pode parecer companhia, mas nem sempre é.
Imagem: by nickypung, via pixabay


