A Concertação como Ficção Útil

O PS acusa o Governo de romper acordos laborais. Mas a concertação social portuguesa nunca foi desenhada para vincular — foi desenhada para legitimar. E todos os partidos o sabem.

Economia

Elian Morvane
Elian Morvanehttps://www.arcananews.com/
Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.

Política / Trabalho / Portugal

A Concertação como Ficção Útil

Portugal tem uma instituição chamada Concertação Social. Tem sede, tem partes, tem protocolos assinados. O que não tem, como este episódio volta a demonstrar, é força vinculativa real. O Governo pode ignorar o que foi negociado. A oposição pode denunciar essa ignorância. E o ciclo recomeça na próxima legislatura, com outros atores, no mesmo formato.

O que José Luís Carneiro disse esta semana sobre o pacote laboral do Executivo não é novo como acusação — é novo como sinal. Um secretário-geral do PS a invocar “a palavra dada” e “o espírito de compromisso” num modelo que o próprio PS ajudou a construir e a esvaziar durante anos de governação diz menos sobre a má-fé do Governo atual do que sobre a natureza do instrumento que ambos defendem quando estão na oposição e contornam quando estão no poder.

O que é a concertação e para que serve realmente

O modelo português de concertação social — formalmente instalado com a criação do Conselho Económico e Social em 1991 — foi desenhado para dar às grandes organizações sindicais e patronais um lugar na definição das políticas laborais antes de chegarem ao Parlamento. A ideia era importada do corporatismo democrático do norte da Europa: negociar antes de legislar, incorporar os atores com interesses diretos, reduzir o conflito social através da antecipação.

O problema é que o modelo europeu que serviu de referência assenta em sindicatos com taxas de sindicalização altas, em organizações patronais com mandato real das empresas, e em governos dispostos a pagar o custo político de cumprir o que foi negociado. Portugal tem as instituições sem as condições. A taxa de sindicalização ronda os 15%. As confederações patronais representam formalmente o tecido empresarial mas raramente falam por ele com autoridade real. E os governos, de qualquer cor, tratam os acordos de concertação como documentos políticos — úteis para legitimar medidas impopulares, descartáveis quando a conveniência muda.

O que o Governo atual está a fazer — e o que isso revela

A acusação de Carneiro é que o Executivo está a “reabrir dossiês estabilizados” e a “corrigir à direita” matérias que tinham sido negociadas. Do lado do Governo, a resposta é que o país “não pode ficar preso a soluções pensadas para uma realidade económica muito diferente”. Ambas as posições são politicamente defensáveis. Nenhuma das duas toca no problema real.

O problema real é que a concertação social em Portugal nunca produziu acordos com força de lei. Produziu declarações de intenção com valor político variável consoante a conveniência de quem governa. Quando o PS negociou e assinou acordos com sindicatos e patronato durante os seus anos no poder, fê-lo sabendo que o próximo governo não estava juridicamente obrigado a respeitá-los. O mesmo vale agora em sentido inverso.

Isto não é cinismo — é a arquitetura do sistema. A concertação foi desenhada como instrumento de legitimação, não como mecanismo de vinculação. Serve para que o Governo possa dizer que ouviu antes de decidir. Não serve para que o que foi ouvido determine o que é decidido.

Porque é que o PS invoca agora o que nunca vinculou

A posição de Carneiro é politicamente racional. O eleitorado trabalhador que o PS perdeu nas últimas eleições não saiu por causa de uma rutura ideológica — saiu por uma acumulação de perceção de que o partido governava para outros. Invocar “a credibilidade da palavra do Estado” e “as linhas vermelhas” na proteção social é uma forma de reconstruir essa identificação sem ter de propor nada concreto antes do processo parlamentar.

O problema é que essa linguagem só funciona se o eleitorado não se lembrar de que o PS também contornou acordos de concertação quando lhe foi conveniente — nas reformas do trabalho de 2012 que apoiou parcialmente, nas alterações à legislação laboral que introduziu sem acordo tripartido pleno, nas políticas de contenção que aplicou durante o período de ajustamento. A memória institucional portuguesa é curta, o que torna esta estratégia viável. Contudo, não a torna coerente.

O que está realmente em jogo

O debate sobre o pacote laboral do Governo não é sobre direitos laborais em abstrato. É sobre quem controla a narrativa do conflito distributivo numa economia com salários baixos, produtividade estagnada e demografia em deterioração acelerada.

O Governo quer mostrar que tem coragem para mexer em dossiês que outros evitaram. O PS quer mostrar que defende quem trabalha. Os sindicatos querem manter relevância numa economia onde representam uma minoria dos trabalhadores. O patronato quer flexibilidade sem o custo político de a pedir abertamente.

A concertação social é o palco onde este conflito é encenado de forma aceitável para todas as partes. Não é o lugar onde é resolvido. Nunca foi.

O que Carneiro disse esta semana é verdade no plano formal — o Governo está a contornar acordos. O que não disse, porque não lhe convém, é que o sistema que produziu esses acordos foi sempre construído para permitir exatamente isso.

Imagem: Teixeirafilipa / Wikimedia Commons – CC BY-SA 4.0.


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