Em março de 2025, num intervalo de menos de três semanas, as autoridades de segurança norte-americanas responderam a cinco incidentes distintos em quatro estados: um tiroteio num bar no Texas, explosivos junto à residência oficial do presidente da câmara de Nova Iorque, um ataque a tiro num campus universitário na Virgínia, um atropelamento junto a uma sinagoga no Michigan, e a detenção de um homem por ameaça de ataque a uma mesquita no Ohio. Nenhum foi reivindicado por uma organização estruturada. Todos ocorreram num momento em que as agências federais responsáveis pela prevenção de ataques tinham acabado de absorver cortes significativos de pessoal especializado.
O que cortaram no contraterrorismo dos EUA antes do Irão?
A coincidência não passou despercebida aos atuais e antigos responsáveis de segurança. Em circunstâncias normais, uma acumulação deste tipo teria ativado mecanismos de alerta e coordenação entre agências. Em março de 2025, parte desses mecanismos estava a ser desmontada.
Desmantelaram o sistema. Depois começou a guerra.
O que foi cortado e quando
O segundo mandato de Trump reorganizou as prioridades das agências federais de segurança desde janeiro de 2025. A deportação em massa tornou-se o eixo operacional dominante, absorvendo recursos humanos e institucionais que tinham sido alocados, durante anos, à prevenção de ataques. A reorientação foi declarada como política deliberada — não foi silenciosa nem gradual. As suas consequências sobre a capacidade de contraterrorismo foram-se tornando visíveis ao longo dos meses seguintes.
O FBI removeu cerca de 300 agentes especializados em contraterrorismo. Uma unidade de contrainformação dedicada à monitorização de ameaças iranianas perdeu uma dúzia de elementos. A Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça opera agora com menos 40% dos procuradores que tinha. O Departamento de Segurança Interna não publicou boletins de alerta terrorista desde setembro de 2024. A avaliação anual de ameaças internas — documento público de referência para as agências e para o debate político — não foi divulgada desde o regresso de Trump ao poder.
Cada uma destas reduções tem uma lógica administrativa própria. O problema não está em nenhuma isoladamente. Está na sua sobreposição com o início de operações militares ativas contra o Irão — um patrocinador estatal do terrorismo com capacidade de ativar redes fora das suas fronteiras, historial de ações contra alvos americanos no exterior, e serviços de informações que funcionam em múltiplos teatros em simultâneo.
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A estrutura que a estratégia devia dar
O cargo de conselheiro antiterrorismo da Casa Branca existe, na sua função essencial, para produzir doutrina: uma estrutura de prioridades, critérios para a alocação de recursos face a ameaças em competição, mecanismos de coordenação entre agências que não dependam da boa vontade bilateral de cada diretor. O titular atual, Sebastian Gorka, ocupa formalmente o cargo de deputy assistant to the president and senior director for counterterrorism no Conselho de Segurança Nacional.
Há cerca de um ano, Gorka declarou que uma estratégia nacional antiterrorismo estava “iminente”. Repetiu a formulação em julho, em outubro e em janeiro. Nenhum documento foi publicado. Gorka disse recentemente ter escrito o texto pessoalmente, sem o processo de consulta interagências habitual neste tipo de documento — o processo que garante que a estratégia reflita não apenas as prioridades da Casa Branca, mas a realidade operacional das agências que a têm de executar.
Sem doutrina aprovada, as agências funcionam com base em prioridades implícitas e precedentes do ciclo anterior. Num momento em que o contexto de ameaça mudou de forma abrupta, isso não é neutral — é uma escolha com consequências que ainda não são totalmente visíveis.
O vazio no topo
A liderança do setor acumulou instabilidade ao longo dos últimos meses. Mike Waltz, conselheiro de segurança nacional, foi transferido para as Nações Unidas após o escândalo Signalgate, deixando o cargo a Marco Rubio, que acumula funções num momento em que o conflito com o Irão domina a agenda diplomática. Joe Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo — o organismo federal responsável pela análise integrada de ameaças —, demitiu-se em protesto contra a guerra com Teerão. O cargo está vago.
O Centro Nacional de Contraterrorismo é o ponto de convergência de informações de várias agências. Não é um cargo administrativo — é onde as peças de diferentes fontes de informação são reunidas e interpretadas em conjunto. A sua direção vaga não é equivalente a um posto de chefia noutro contexto. É uma lacuna no sítio exato onde a coordenação entre agências devia acontecer.
Gorka manifestou interesse no cargo, o que exigiria confirmação pelo Senado. Os seus críticos consideram que esse processo enfrentaria resistência significativa. Até lá, a posição permanece sem titular.
O que os especialistas dizem que se perdeu
O trabalho de prevenção de ataques terroristas é, na sua maior parte, invisível quando funciona. Depende de equipas com anos de conhecimento acumulado sobre redes específicas, indivíduos em vigilância, padrões de comunicação, ligações entre células. Esse conhecimento não é transferível de forma imediata — reside nas pessoas que o construíram, nos processos que o organizam, e nas relações entre agências que permitem partilhá-lo quando é necessário.
Quando essas pessoas são removidas, o que se perde não é contabilizável em números brutos. É o que ex-responsáveis descrevem como capacidade de distinção — a diferença entre uma ameaça credível e ruído, entre um ator isolado e um nó de uma rede maior. Essa distinção é exatamente o que permite intervir antes de um ataque, não depois. Com equipas mais pequenas e conhecimento disperso, a profundidade de análise disponível em cada dossiê diminui. Não de forma catastrófica imediata, mas de forma que só se torna mensurável quando alguma coisa falha.
Analistas do Soufan Center e de outras instituições descreveram publicamente o estado das estruturas federais de contraterrorismo como esvaziado “por despedimentos, demissões forçadas e cortes orçamentais”. A Casa Branca rejeitou estas caracterizações, argumentando que a reestruturação tornou o aparelho “ainda mais responsivo a potenciais ameaças”. A distância entre as duas avaliações não é apenas política — reflete uma discordância sobre o que o sistema existe para fazer e sobre o custo real, em capacidade operacional, de o reorganizar em tempo de conflito.
O que a guerra com o Irão alterou
Antes do início das operações militares norte-americanas, o foco declarado da administração centrava-se na supressão de grupos jihadistas em África e no Médio Oriente. Gorka afirma que operações dos EUA eliminaram mais de 750 militantes desde janeiro de 2025. Os especialistas independentes contestam os números, argumentando que a maioria dos visados são combatentes de baixo escalão — não figuras com capacidade de planear ataques contra o território norte-americano.
O Irão é outra categoria de problema. Não é um grupo difuso sem estrutura de comando — é um Estado com serviços de informações, capacidade de financiar e coordenar operações no exterior, e historial documentado de ações contra alvos americanos e aliados fora das suas fronteiras. Responder a este tipo de ameaça exige exatamente o tipo de monitorização especializada, análise continuada e coordenação interagências que foi reduzida nos meses anteriores ao início do conflito.
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