Como funciona o sistema de contraterrorismo de Trump com Gorka?

Sem separação entre política e análise de ameaças, o sistema produz coerência — e perde capacidade de ser surpreendido.

Economia

Aurelian Draven
Aurelian Dravenhttps://www.arcananews.com/
Aurelian Draven é correspondente e analista do Arcana News, onde escreve sobre conflito, segurança internacional e memória estratégica. É autor de mais de cem artigos de análise e inteligência, com atenção particular ao Médio Oriente, às zonas de tensão global e ao impacto de longo prazo das decisões de poder.

ANÁLISE · Segurança · Estados Unidos · Contraterrorismo / Administração Trump

Na manhã seguinte à demissão de Joe Kent — o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo que saiu em protesto contra a guerra com o Irão —, Sebastian Gorka ligou-lhe e deixou uma mensagem no correio de voz. Chamou-lhe “vergonha total”. Terminou com “boa riddance”. Dias depois, Gorka manifestou interesse em ocupar o lugar que Kent acabara de abandonar.

O que o episódio revela sobre o sistema é mais interessante do que o que revela sobre o homem.


Como funciona o sistema de contraterrorismo de Trump com Gorka?

O cargo e o que ele deixou de ser

O cargo de conselheiro antiterrorismo do Conselho de Segurança Nacional tem uma história curta mas densa. Richard Clarke, que o ocupou sob três presidentes, revelou depois do 11 de Setembro que os avisos sobre a Al-Qaeda tinham sido ignorados pela liderança da administração Bush nos meses anteriores aos ataques. O que Clarke descreveu não era falta de informação — era falta de mecanismo para transformar informação em decisão. O cargo foi criado, em parte, para ser esse mecanismo: o ponto onde a análise de ameaças se converte em política coordenada entre agências, onde a inteligência dispersa encontra uma estrutura que a transforma em ação preventiva.

Gorka: o sistema que não consegue ver o que não procura

O título formal de Gorka foi atualizado nos últimos anos face à formulação anterior de “special assistant”. Contudo, esse upgrade no título coincidiu, segundo especialistas ouvidos pela imprensa norte-americana, com uma diminuição real dos poderes do cargo face aos seus primeiros titulares. É uma trajetória que não é incomum em Washington — funções que ganham visibilidade e perdem substância, que crescem em nome e encolhem em capacidade de execução.

O que Gorka faz com essa visibilidade é documentável a partir das suas próprias palavras públicas. Descreve mortes de militantes como “nuvens de névoa vermelha”. Apresenta vídeos classificados de ataques letais a audiências de funcionários do Departamento de Estado — que tentaram sair a seguir e foram retidos para uma fotografia. Os lanyards da sua equipa estão impressos com “WWFY & WWKY”, acrónimo de uma frase de Trump sobre localizar e matar inimigos. Às quintas-feiras convoca reuniões interagências sobre ameaças. No caminho para o trabalho, ouve um podcast de história militar pró-Trump. Guarda no escritório um globo e um poster das Torres Gémeas.

Tudo isto pode coexistir com competência operacional real. O problema é outro: a função foi reconfigurada em torno de uma lógica de performance — para o presidente, para as audiências, para o registo público — que consome exatamente o tipo de atenção e de tempo que o trabalho de prevenção de ataques exige para si. Prevenir um ataque não tem audiência. Não tem vídeo. Não tem contagem.


O problema da estratégia escrita por um único autor

Há cerca de um ano, Gorka declarou que uma estratégia nacional antiterrorismo estava “iminente”. Repetiu a formulação em julho, em outubro, em janeiro. O documento não foi publicado. Quando questionado recentemente, Gorka disse ter colocado “o trabalho de uma vida” no texto — e recebido feedback para o encurtar. Disse também ter escrito o documento pessoalmente, sem o processo habitual de consulta interagências.

Uma estratégia nacional antiterrorismo não é um ensaio de autor. É um documento de coordenação: existe para alinhar prioridades entre o FBI, o Departamento de Justiça, o Departamento de Segurança Interna, o Centro Nacional de Contraterrorismo, o Departamento de Estado e as agências de informações militares. O seu valor não está na qualidade da organização — está no facto de ter sido negociado entre as agências que o têm de executar. Sem esse processo, o que existe é uma posição pessoal com papel timbrado. As agências que a recebem sabem a diferença. E comportam-se em conformidade — continuando a operar com as suas próprias prioridades implícitas, os seus próprios precedentes, as suas próprias lógicas de alocação de recursos.

Num contexto de ameaça estável, essa fragmentação é subestimada. Num conflito ativo com um patrocinador estatal do terrorismo — o Irão, com serviços de informações operacionais em múltiplos teatros e historial documentado de ações contra alvos americanos no exterior —, é uma estrutura de decisão sem arquitetura partilhada no momento em que a arquitetura mais importa.


As métricas que tornam o fracasso invisível

Gorka afirma que operações dos EUA eliminaram mais de 750 militantes desde janeiro de 2025. Os especialistas independentes contestam os números, argumentando que a descrição de “jihadistas líderes com sangue americano nas mãos” é sistematicamente exagerada — que a maioria dos visados são combatentes de baixo escalão, não figuras com capacidade de planear ataques complexos contra o território norte-americano.

Há, contudo, um problema anterior à questão da exatidão. Contar mortos é uma métrica de atividade, não de eficácia. Um sistema de contraterrorismo que funciona bem produz poucos eventos visíveis: investigações que terminam em detenções preventivas, redes desmanteladas antes de executarem ataques, financiamento interrompido, recrutamento perturbado. Nenhum destes resultados é contável da forma que Gorka conta. São invisíveis por definição — e são exatamente o tipo de trabalho que depende das equipas especializadas que foram reduzidas nos últimos meses.

A Divisão de Segurança Nacional do Departamento de Justiça opera com menos 40% dos procuradores. O FBI removeu cerca de 300 agentes especializados em contraterrorismo. Quando estes cortes produzem efeitos — uma investigação que não avançou, uma rede que não foi detetada a tempo —, esse efeito não aparece em nenhuma contagem. Não tem nome, não tem data, não tem vídeo. É a ausência de um evento que nunca aconteceu. E Gorka não tem como ser responsabilizado por isso, porque o sistema de métricas que construiu publicamente não inclui o que não aconteceu. O que não aconteceu é precisamente o critério que, em contraterrorismo preventivo, distingue um sistema que funciona de um sistema que ainda não falhou.


O vácuo que Gorka quer preencher

Depois de Kent se demitir, Gorka quis o seu cargo. O Centro Nacional de Contraterrorismo é o organismo que agrega informação de todas as agências e produz avaliação integrada de ameaças — o lugar onde a inteligência dispersa se transforma em quadro coerente disponível para decisão política.

Gorka já controla a política. Quer agora controlar a análise.

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