Na manhã de 6 de Fevereiro, a bordo do navio de investigação Hakurei-Maru 2, fundeado a duzentos quilómetros a leste de Minamitorishima, um técnico da Agência Japonesa para a Ciência e Tecnologia Marinha e Terrestre ligou o sistema de bombeamento que ia sugar lama do fundo do Pacífico, seis mil metros abaixo. O tubo tem o diâmetro de um braço humano. A pressão da água naquela profundidade é suficiente para esmagar o aço não reforçado. Durante nove dias, a bomba funcionará sem parar.
Ninguém a bordo sabe ao certo o que vai encontrar quando a lama subir à superfície. Acreditam no que deve estar lá — ítrio, európio, térbio, disprósio, elementos raros que a China controla quase na totalidade e que são essenciais para baterias de carros eléctricos, ecrãs de smartphones, sistemas de defesa militar. Um estudo de 2018 estimara reservas para centenas de anos. Mas estimar não é o mesmo que confirmar. E confirmar não é o mesmo que conseguir trazer à superfície de forma que não custe mais do que vale.
A quinze de Fevereiro, quando o Hakurei-Maru 2 atracar de volta ao porto, a lama estará a caminho dos laboratórios. Dentro de semanas, haverá números. E depois desses números, haverá uma pergunta que ninguém consegue responder ainda: isto vale alguma coisa?
Minamitorishima é um triângulo de terra com menos de dois quilómetros quadrados, perdido no Pacífico a mais de mil e quinhentos quilómetros de Tóquio. Não tem população permanente. Tem uma pista de aterragem, três edifícios da Guarda Costeira japonesa, e uma coordenada geográfica que, nos últimos anos, se tornou estrategicamente valiosa — ou a mais cara ilusão de valor ainda por desmentir.
A ilha pertence ao Japão. Isso resolve a parte legal: não é preciso pedir autorização internacional para minerar ali. Mas não resolve a parte técnica, a parte económica, nem sequer a parte moral.
Seis mil metros é uma distância maior do que a altura do Monte Branco medida desde o nível do mar até ao cume, mas invertida e mergulhada em escuridão total. Não há luz solar a essa profundidade. Não há fotossíntese. Não há peixes reconhecíveis. Há vida — vermes, bactérias, crustáceos sem olhos, organismos que se alimentam de detritos que caem lentamente durante meses desde a superfície. A pressão da água é de cerca de seiscentas atmosferas. Um ser humano sem protecção seria esmagado instantaneamente.
Trazer lama dali para cima não é uma questão de mergulhar e recolher. É engenharia extrema: milhares de metros de tubagem reforçada, sistemas de bombeamento contínuo, monitorização constante para evitar colapso ou contaminação. O sistema que o Japão desenvolveu demorou sete anos a construir e custou cerca de duzentos e cinquenta e cinco milhões de dólares. Ainda não se sabe se aguenta operações prolongadas, se consegue escalar para volumes comerciais, ou se o custo operacional não devora qualquer margem de lucro.
O teste actual não é sobre lucro. É sobre viabilidade técnica: será que o sistema consegue fazer aquilo para que foi desenhado? A resposta, por enquanto, parece ser “sim, consegue bombear lama”. Mas “sim, consegue bombear lama” não é o mesmo que “sim, consegue bombear lama suficiente, a custo aceitável, durante tempo suficiente, para pagar os duzentos e cinquenta e cinco milhões já gastos e gerar retorno”.
Essa segunda pergunta não tem resposta.
Um relatório de 2016 calculou que a operação só seria economicamente viável se conseguisse extrair três mil e quinhentas toneladas de sedimento por dia e se os preços das terras raras se mantivessem elevados. Até ao final de 2026, a agência japonesa espera conseguir trazer centenas de toneladas por dia. Mas centenas não são milhares. E “espera-se” não é “conseguiu”.
Sanae Takaichi, primeira-ministra do Japão, descreveu o teste como “uma primeira mundial”. Isso é verdade. Mas “primeira mundial” pode significar duas coisas: ou é o princípio de algo viável, ou é a prova de conceito mais cara da história recente da mineração.
O que torna este momento politicamente urgente não é a tecnologia. É a China.
Pequim controla cerca de setenta por cento da produção global de terras raras. Não porque seja o único lugar onde existem, mas porque, durante décadas, assumiu os custos ambientais e económicos de as extrair em massa. No ano passado, decidiu estrangular as exportações. O alarme foi global. O Japão, altamente dependente de tecnologia avançada e sem reservas terrestres significativas, viu-se exposto.
A resposta foi uma parceria com os Estados Unidos e a União Europeia, desenhada para diversificar fontes. Mas diversificar fontes terrestres demora décadas. A mineração oceânica, pelo menos em teoria, poderia ser mais rápida.
Donald Trump fez da mineração submarina uma prioridade política. O argumento oficial é de segurança nacional e autonomia tecnológica. O argumento não dito é de corrida estratégica: se a China controla terras raras em terra, os EUA querem controlar terras raras debaixo de água.
A administração Trump está a acelerar a emissão de licenças comerciais para empresas que querem minerar o fundo oceânico em águas internacionais, ignorando as regras negociadas pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos — um organismo criado por tratado, que os Estados Unidos nunca ratificaram. Dezenas de países pedem moratória. Washington trata isso como irrelevante.
O Japão, apanhado entre dependência chinesa e pressão norte-americana, escolheu uma terceira via: minerar dentro das suas próprias águas, desenvolver tecnologia nacional, reduzir vulnerabilidade externa. É uma aposta cara. Mas a vulnerabilidade também custa.
O paradoxo está embutido na lógica: para construir tecnologias “verdes” — carros eléctricos, turbinas eólicas, painéis solares — é preciso extrair metais raros. Para extrair metais raros de forma a escapar ao controlo chinês, pode ser necessário destruir ecossistemas oceânicos profundos que regulam ciclos químicos e biológicos ainda mal compreendidos.
Os estudos mostram que a recolha de nódulos polimetálicos — pedaços do tamanho de um punho que contêm manganês, níquel, cobalto, cobre — reduz a biodiversidade e abundância de formas de vida no fundo do mar em mais de trinta por cento. O ambiente marinho profundo recupera devagar. Tão devagar que “devagar” pode significar séculos. Retirar sedimento revolve camadas que estiveram imóveis durante milénios, suspende partículas na coluna de água, altera habitats que ainda estamos a começar a estudar.
Defensores da mineração oceânica argumentam que pode ser menos destrutiva do que a mineração terrestre, associada a abusos de direitos humanos, poluição severa e destruição de habitats. Minas terrestres de terras raras podem conter níveis elevados de elementos radioactivos. Investigadores dizem que isso não acontece na lama perto de Minamitorishima.
Mas “menos mau” não é necessariamente “bom”. E “ainda não sabemos o impacto total” não é tranquilizador quando a operação já começou.
A agência japonesa desenvolveu um sistema de monitorização ambiental ligado ao navio, que mede alterações na água em simultâneo com a extracção. Isso é um avanço. Mas informação abrangente sobre os efeitos a longo prazo ainda não está disponível. Não porque não interesse. Porque ainda não houve tempo.
O argumento habitual é: “Temos de escolher entre destruir a terra ou destruir o oceano.” Mas isto assume que destruir é inevitável, e que a única variável é o local. Há quem discorde dessa premissa e defenda economia circular, reciclagem em massa, redução de consumo. Mas reciclagem em massa ainda não existe à escala necessária. E redução de consumo é politicamente impopular.
Por isso, avança-se para o fundo do oceano. Não porque seja claramente a melhor solução. Porque parece a solução possível dentro das condições actuais: procura crescente, dependência geopolítica inaceitável, alternativas terrestres insuficientes ou controladas por rivais estratégicos.
Há também uma dimensão financeira que complica tudo.
Várias empresas de mineração submarina em fase de arranque apostam num modelo de negócio assente numa premissa: há tanto metal no fundo do oceano que compensa ir buscá-lo. Mas nenhuma conseguiu ainda provar viabilidade comercial. A indústria está cheia de esperança, capital de risco e protótipos. Falta-lhe receita.
O sistema japonês, financiado pelo Estado, não depende de lucro imediato. Mas depende de justificação política. E justificação política, em democracia, tem prazo. Se os próximos testes falharem, ou se os custos continuarem a subir sem retorno visível, o projecto pode ser abandonado. Se forem bem-sucedidos, abre-se precedente: outros países com capacidade técnica farão o mesmo.
A maior parte do fundo oceânico está fora das águas territoriais de qualquer país e, por isso, está sujeita a regras internacionais. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos passou anos a tentar finalizar um conjunto de normas para mineração comercial em águas internacionais. Ainda não finalizou.
Os Estados Unidos não ratificaram o tratado. Não seguem as regras. E, sob Trump, estão a acelerar licenças. Outros países tratam isto como precipitação irresponsável. Mas “irresponsável” não impede ninguém quando há corrida estratégica em curso.
O que isto revela é um vazio regulatório global, onde a urgência geopolítica colide com a ausência de consenso sobre o que é aceitável fazer ao fundo do oceano. Não há acordo sobre limites. Não há acordo sobre supervisão. Não há sequer acordo sobre se isto devia estar a acontecer.
E, no entanto, está.
Papua Nova Guiné e Noruega consideraram operações semelhantes. Ambas suspenderam. Mas suspender não é desistir. É esperar.
A quinze de Fevereiro, o Hakurei-Maru 2 atraca. A lama é descarregada, analisada, testada. Confirmam-se — ou não — as quantidades de ítrio, európio, térbio, disprósio. Confirmam-se — ou não — os números que já se esperavam.
Mas continua sem resposta a pergunta essencial: a que custo?
Custo financeiro: será que trezentas toneladas por dia, ou mesmo três mil, pagam a operação e deixam margem? Ou será que o preço de mercado das terras raras flutua demasiado, e qualquer crise geopolítica que reduza a procura transforma esta operação num sorvedouro de capital público?
Custo ambiental: será que estamos a destruir sistemas que regulam química oceânica, ciclos de carbono, cadeias alimentares invisíveis mas essenciais? Ou será que o impacto é localizado, gerível, aceitável face à alternativa de dependência chinesa permanente?
Custo político: será que avançar sem consenso internacional cria precedente perigoso, onde cada país com capacidade técnica faz o que quer no fundo do oceano, sem supervisão, sem transparência, sem possibilidade de travão colectivo?
Nenhuma destas perguntas tem resposta definitiva. E, no entanto, a operação continua. O próximo teste já está marcado. Empresas privadas, nos Estados Unidos e noutros países, observam. Governos calculam. Ambientalistas protestam. Economistas fazem contas.
E Minamitorishima continua ali — pequena, remota, inabitada, com seis mil metros de lama potencialmente valiosa por baixo, e uma pergunta sem resposta por cima.
Dentro do Hakurei-Maru 2, enquanto o tubo ainda bombeia lama do fundo do Pacífico, um técnico verifica pressão, caudal, integridade estrutural. Está a fazer o trabalho para o qual foi contratado. Não sabe se o que está a bombear valerá biliões ou nada. Não sabe se isto é o futuro ou apenas o erro mais caro da história recente da mineração japonesa.
A lama vai dar a resposta. Ou não vai.
Imagem: – Pixabay / Pexels
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