A Guarda que é o regime: por que bombardear o Irão não muda o Irão

Washington e Telavive apostam que a pressão militar quebrará a espinha dorsal do regime iraniano. A espinha dorsal foi construída para não quebrar.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News. Escreve sobre política, cultura e vida pública, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas. Os seus textos combinam rigor crítico, clareza jornalística e uma voz literária própria, orientada por valores humanistas e democráticos.

Washington e Telavive apostam que a pressão militar quebrará a espinha dorsal do regime iraniano. A espinha dorsal foi construída para não quebrar.


Há uma aposta implícita na estratégia conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão: a de que, perante destruição suficiente, alguém dentro do regime negoceia.

A versão mais otimista dessa aposta — defendida, segundo relatos, por setores da administração Trump — é que uma fação pragmática dentro dos Guardas da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla inglesa) abandonará o programa nuclear e aceitará condições americanas para preservar os seus interesses económicos.

A versão mais radical é que a IRGC, enfraquecida pelos ataques, se fragmentará, abrindo espaço a uma mudança de regime.

Ambas as versões assentam numa premissa: a de que a Guarda Revolucionária é um instrumento do regime. Algo que o regime usa e que, por isso, pode ser separado dele — ou virado contra ele.

A premissa está errada. E o erro é consequente.


A Guarda Revolucionária não é um braço armado da república islâmica. É a república islâmica. Não no sentido retórico — no sentido institucional, económico e operacional.

A IRGC controla o programa de mísseis balísticos e drones. Controla a proteção das instalações nucleares. Gere a rede de milícias aliadas no Líbano, na Síria, no Iraque, no Iémen e em Gaza — o chamado “eixo de resistência” que, durante duas décadas, projetou o poder iraniano pelo Médio Oriente sem que o Irão tivesse de disparar um único tiro a partir do seu território. Controla, ainda, através de empresas diretas e indiretas, entre 25 e 50 por cento da economia iraniana — construção civil, infraestruturas, energia, contrabando organizado de petróleo para contornar sanções.

É também a principal força de segurança interna. As milícias Basij, que operam ao nível dos bairros, são uma extensão da IRGC. Foram os Basij que patrulharam Teerão nas primeiras horas dos bombardeamentos americanos e israelitas. Foram os Basij que revistaram automóveis, inspecionaram telemóveis à procura de sinais de dissidência e dispararam sobre edifícios onde se ouviam slogans contra o regime. A Guarda não precisa de esperar ordens do líder supremo para reprimir. Tem autonomia provincial — uma estratégia descentralizada, designada internamente como “estratégia em mosaico”, que delega nos comandantes das 31 províncias a decisão sobre quando e como agir.

Tudo isto tem uma implicação direta para a estratégia de Washington: não existe cenário em que a IRGC se dissolva e o regime sobreviva. São a mesma coisa. Enfraquecer a Guarda não enfraquece o regime — destrói-o. E é exatamente por isso que o núcleo duro da IRGC — estimado entre dois e três mil oficiais cuja carreira, riqueza e identidade estão fundidas com a organização — não tem incentivo racional para negociar a sua dissolução. Estariam a negociar a sua própria extinção.

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Para compreender por que a IRGC é tão resiliente, importa compreender como nasceu — e para que nasceu.

Quando Khomeini fundou a república islâmica em 1979, não confiava nas forças armadas regulares — o Artesh, que tinha servido o Xá e cuja lealdade era, no mínimo, duvidosa. Criou a Guarda Revolucionária como força paralela, com uma missão específica: proteger a revolução, não o país. A distinção é fundamental. O Artesh defende fronteiras. A IRGC defende o regime. São finalidades diferentes, com doutrinas diferentes e culturas institucionais diferentes.

A guerra Irão-Iraque (1980–1988) moldou a Guarda de forma decisiva.

Oito anos de conflito com o Iraque — sem aliados, sob embargo internacional, com armas improvisadas e logística precária — produziram uma organização forjada na adversidade e no isolamento. Foi durante esta guerra que a IRGC desenvolveu o programa de mísseis balísticos de raiz, sem assistência externa significativa. E foi também durante esta guerra que incorporou a doutrina de guerra assimétrica e de atrito prolongado que define, até hoje, o seu pensamento estratégico.

Após a morte de Khomeini em 1989, Ali Khamenei — que lhe sucedeu como líder supremo sem a autoridade religiosa nem a legitimidade popular do fundador — fez da IRGC o pilar do seu poder pessoal. Deu-lhe acesso à economia. Deu-lhe peso na política externa. Fundiu o cargo de líder supremo com a estrutura da Guarda de tal forma que nenhum dos dois pode existir sem o outro.

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A nomeação de Mojtaba Khamenei — filho de Ali Khamenei — como novo líder supremo confirma esta fusão. Mojtaba não tem perfil público. Não tem base clerical independente. O que tem são laços estreitos com a cúpula da IRGC, construídos ao longo de anos de coordenação de operações militares e de intelligence no gabinete do pai.

A sua ascensão sinaliza continuidade — não apenas do regime teocrático, mas da simbiose entre liderança suprema e Guarda Revolucionária que define a estrutura de poder iraniana desde 1989.

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