A repressão à imprensa livre não é uma patologia dos regimes autoritários que, por contágio, começa a infectar democracias. É a resposta racional de qualquer governo a uma equação de incentivos que mudou — e que mudou em simultâneo em sistemas políticos muito diferentes.
Compreender porquê exige abandonar a moldura moral dominante e substituí-la por uma pergunta mais fria: quando é que expor o poder tem um custo suficientemente baixo para que alguém o faça impunemente?
A resposta a essa pergunta determina tudo o resto.
Durante décadas, o modelo ocidental de liberdade de imprensa assentou num conjunto de condições que tornavam o custo de exposição politicamente suportável para os governos. Mercados mediáticos diversificados e economicamente independentes do poder político; sistemas judiciais com capacidade efetiva de escrutínio; atenção internacional sustentada sobre casos de repressão; e uma cultura cívica que associava o jornalismo livre à credibilidade institucional do próprio Estado. Dentro destas condições, suprimir jornalistas era caro: gerava escândalo, erosão de legitimidade, pressão externa. O cálculo racional favorecia a tolerância.
Essas condições deterioraram-se. Não de forma abrupta — de forma incremental, em múltiplos vetores em simultâneo. E foi essa deterioração, e não a expansão ideológica do autoritarismo, que tornou a supressão racionalmente atraente em contextos muito distintos.
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O mecanismo tem três componentes que se reforçam mutuamente.
O primeiro é a fragmentação da atenção pública.
A proliferação de plataformas digitais não democratizou a informação — pulverizou a capacidade de sustentar atenção coletiva sobre qualquer caso individual. Um jornalista preso em 2005 podia tornar-se um caso político durante semanas; hoje, o mesmo caso compete com mil outros estímulos em simultâneo e perde relevância em dias. Para um governo, este encurtamento do ciclo de atenção reduz o custo de reputação associado à supressão. O escândalo existe; simplesmente não dura.
O segundo componente é a captura económica dos mercados mediáticos, operada não por censura direta mas por instrumentos aparentemente neutros.
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