Há pouco tempo deparei-me com um conceito que, para muitos, ainda soa a ficção científica: afantasia, a impossibilidade de “ver” imagens na mente. A partir daí fui lendo estudos, testemunhos, relatos de artistas, cientistas e gente comum que vive com o ecrã interior apagado – ou permanentemente aceso. Este texto nasce dessa descoberta: a de que até a forma como lembramos e imaginamos não é igual para todos, e que isso muda silenciosamente a maneira como amamos, sofremos e nos pensamos a nós próprios.
Há pessoas que, quando lhes pedimos para imaginarem o mar, sentem o sal no canto da boca, ouvem o embate das ondas e quase precisam de afastar o cabelo do rosto por causa do vento. Outras, quando recebem o mesmo pedido, só encontram uma palavra seca: “mar”. Sabem o que é, conhecem definições, recordam factos, mas não se abre nenhum ecrã interior. Fica tudo negro, como uma sala de cinema antes do filme começar — só que, nesse caso, o filme nunca começa.
Durante muitos anos eu achava que “ver com os olhos da mente” era apenas um modo de dizer. Uma figura de estilo, como dizer que “o tempo voa” ou que “o coração aperta”. Até ao dia em que percebi que não: há quem feche os olhos e veja, com nitidez quase fotográfica, o rosto da mãe; há quem ouça, por dentro, uma sinfonia inteira; há quem consiga voltar a uma noite de adolescência como se carregasse em play numa gravação secreta do cérebro. E há outros – não são poucos – para quem nada disso existe. A isso chamaram, há poucos anos, afantasia.
Gosto do nome. Parece uma palavra inventada por um poeta cansado de tudo o que é óbvio: a ausência de fantasia, a imaginação que não se deixa convocar. Não se trata de falta de criatividade, mas da impossibilidade de acender imagens voluntariamente. Pode haver sonhos, pode haver lembranças, mas não há cinema interno onde se escolhe a cena, rebobina ou pára a meio.
Conheci um homem assim. Contou-me que sabia que tinha sido um miúdo feliz porque guardava cadernos antigos onde, em criança, colava recortes de foguetões, planetas, missões espaciais. Se abrisse o caderno, via as fotografias, as datas, as legendas que escrevera. Mas se fechasse o caderno e fechasse os olhos, não conseguia recuperar o miúdo curvado sobre a cola, nem a mesa, nem o cheiro da casa. Sabia que tudo aquilo tinha acontecido. Conseguia alinhavar a história, ano por ano. Só que a história não tinha imagens.
“Não tens saudades?”, perguntei-lhe.
Ele fez uma pausa, como quem procura uma palavra num sítio onde nunca a guardou.
“Tenho uma espécie de saudade conceptual”, respondeu. “Sei que gostei, sei que me doeu, sei que fui feliz. Mas é como se a vida me tivesse sido contada. Não como se eu voltasse lá.”
A maior parte de nós vive convencida de que o normal é aquilo que sente. Eu, por exemplo, sempre carreguei o incómodo de recordar coisas demais. Basta alguém mencionar uma rua, e lá vem a avalanche: quem estava comigo, o frio nessa noite, a frase parva que disse e não devia, a janela com luz acesa no terceiro andar. Um excesso de presença do passado, às vezes útil, muitas vezes cansativo. Só mais tarde descobri que há um nome para o extremo oposto: hiperfantasia, quando o filme interior não pára, não cala, não adormece.
Entre estes dois extremos — o apagão e a inundação — estende-se um corredor largo onde cabe quase toda a gente. Só que o facto de haver um corredor não torna menos contundente a experiência de quem vive nas pontas. Para quem tem afantasia, o passado não deixa rasto visual. Para muitos, não deixa sequer rasto sonoro. Fica como uma cronologia seca: datas, nomes, cidades, acontecimentos – sem a espessura sensorial que normalmente cola a nossa história ao corpo.
Há, no entanto, um detalhe que me intriga: muitas dessas pessoas dizem que sonham com imagens. Que à noite vêem rostos, lugares, cores, situações complexas. De manhã acordam e sabem que aquilo esteve lá, mas não conseguem trazê-lo de volta. Como se houvesse um projecionista interno que só trabalha de madrugada, em regime secreto, e que se recusa a abrir o cinema quando o dia chega.
Outros vivem precisamente o contrário. Conheci uma artista que me confessou ter medo de ver as notícias. Qualquer descrição de violência, mesmo sem imagens, transforma-se dentro da cabeça numa cena tão gráfica que a deixa enjoada. Se alguém conta um acidente, ela vê o vidro, o metal, o corpo. Se lê sobre um animal maltratado, vê-lhe o olhar. Se perde um gato, continua a vê-lo, deitado na cadeira favorita, muito depois de ele ter morrido. Para ela, a memória não é um álbum: é um assombro. E a imaginação não é um luxo: é um risco.
Tudo isto nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável: o que é que realmente faz de nós “nós”? É a história que contamos sobre a nossa vida? É a capacidade de a revisitar por dentro, com imagens, cheiros, ruídos? Ou basta sabermos, em termos gerais, quem amámos, o que nos foi tirado, o que escolhemos fazer?
Há filósofos que defendem que o eu é, sobretudo, uma narrativa. Um fio de episódios que vamos organizando, ajustando, reescrevendo — às vezes com mais talento do que honestidade. Mas o que fazer com quem quase não consegue recontar o próprio enredo? Quem sabe que esteve ali, que casou, que errou, que pediu desculpa, que teve filhos… e, no entanto, não consegue recuperar a temperatura do momento, a luz da sala, a expressão concreta de um rosto?
É tentador dizer: “Isso é estar amputado.” Mas talvez seja demasiado fácil falar assim a partir da nossa própria forma de sentir. Para algumas pessoas com afantasia, o verdadeiro luto não é pela ausência de imagens, é pela fragilidade das memórias autobiográficas: não recordam viagens, conversas, aniversários; sabem que aconteceram, mas não conseguem reentrar nelas. Sentem-se, por vezes, como leitores de um livro que alguém escreveu sobre eles – um livro sem ilustrações, sem sublinhados, sem anotações à margem.
Outros, porém, veem vantagens. Um bombeiro contou, numa dessas entrevistas que andam dispersas por livros e estudos, que a incapacidade de visualizar cenas o ajudava a não ficar preso ao horror do que testemunhava em serviço. Quando chegava a casa e fechava os olhos, vinha só o escuro habitual, não o rosto de quem morrera, não o sangue, não o ruído metálico. Para ele, essa escuridão era uma forma de descanso.
Do outro lado, quem tem hiperfantasia pode ficar enredado nas próprias imagens. Uma discussão de há dez anos continua a projetar-se, intacta, com cada palavra e cada gesto. Um erro antigo reaparece, noite após noite, com o mesmo peso. Um momento de humilhação volta tantas vezes que ganha vida própria. A imaginação transforma-se num sistema de tortura doméstica, sempre ligado à corrente.
Talvez por isso eu desconfie das respostas prontas à pergunta “é uma bênção ou uma maldição?”. A nossa época adora listas de vantagens, infográficos sobre “pessoas assim ou assado”, diagnósticos que viram identidade. O termo afantasia ajudou milhares de pessoas a não se sentirem loucas nem sozinhas. De repente, perceberam que não eram falhas, eram variações. Havia mais como elas. Havia investigadores, questionários, percentagens aproximadas.
Só que, logo a seguir, veio outra pergunta: o que é que isto faz à maneira como amamos? Se eu quase não consigo recordar o rosto dos meus filhos em pequeno, isso significa que os amo menos? Se deixo de ver, por dentro, a pessoa amada quando ela se afasta, significa que a esqueço depressa demais? Ou será apenas outra maneira de estar no mundo — mais dependente da presença física, menos alimentada pelo arquivo mental?
Do lado de quem vê demais, as perguntas não são mais leves: se revivo um trauma vezes sem conta, se o meu corpo reage às imagens internas como se fossem realidade, serei condenado a uma espécie de sequelas permanentes? Se imagino um acidente com tal nitidez que desmaio, onde acaba a imaginação e começa o real? Quando fecho os olhos para descansar, de quem é o comando?
Há ainda uma terceira questão, mais filosófica: é possível viver bem com um passado quase mudo? Talvez a resposta esteja, em parte, na forma como cada um se relaciona com o presente. Há quem defenda que não precisamos de recordar tudo o que nos aconteceu, tal como um músico não precisa de se lembrar de cada ensaio para tocar bem. Importa, dizem, o que fazemos agora. Se hoje tocamos com verdade, que interessa o arquivo dos dias?
A ideia tem o seu conforto. Mas não fecha tudo. Porque muitos de nós sentem que a vida não é só aquilo que estamos a viver hoje; é também o que não queremos perder. A gargalhada da mãe num jardim público. O beijo mal dado atrás de uma escola. O medo da primeira viagem sozinhos. Essas coisas, quando regressam, não trazem apenas alegria ou tristeza: trazem a confirmação de que não passámos a correr pela nossa própria vida.
Talvez seja aqui que a tecnologia entra em cena como tentação. Se o cérebro não guarda, guardará o telemóvel. Se a memória interna falha, que venham as câmaras ao peito, os registos contínuos, os óculos que filmam tudo. Um dia, dizemos, poderemos rever ao detalhe um almoço antigo, uma conversa num comboio, uma noite de hospital. Será isso uma libertação ou outra forma de prisão?
Intuitivamente, suspeito que as duas coisas. As imagens perfeitas não são o mesmo que as memórias imperfeitas. O recordar humano tem hesitações, omissões, sombras. Esquece partes para podermos perdoar, confunde datas para não termos de reviver tudo. A gravação, pelo contrário, é implacável. Não deixa mentir, não deixa corrigir, não deixa embelezar. Pode ser útil para a justiça; não sei se é tão boa para a alma.
O que sei é isto: quanto mais leio sobre a enorme variação de paisagens interiores – cérebros silenciosos, cérebros em delírio, gente que só pensa em conceitos, gente que pensa sobretudo em imagens – mais me impressiona a ligeireza com que julgamos os outros. Exigimos que sintam como nós, que recordem como nós, que desejem como nós. E ficamos sinceramente ofendidos quando não o fazem.
Talvez precisemos de uma espécie de humildade neurológica. Aceitar que a forma como o mundo “aparece” dentro da nossa cabeça não é universal. Que há quem viva com o quarto apagado por dentro e, mesmo assim, construindo afectos sólidos, trabalhos rigorosos, vidas inteiras cheias de gestos bons. Que há quem viva com um palco permanentemente aceso e, apesar disso, consiga não enlouquecer, canalizando essa torrente para a arte, para a ciência, para uma atenção radical aos outros.
No fim, a pergunta volta sempre: o que fica de nós? Para alguns, fica um álbum vivido e revivido ao detalhe; para outros, ficam histórias contadas sem imagens; para outros ainda, ficam obras, telas, relações, filhos, livros, decisões, pequenas fidelidades sem memória. Talvez o essencial seja isto: que, enquanto aqui estamos, tratemos os outros como se fossem mais do que o que recordamos deles — ou do que eles conseguem recordar de si próprios.
Porque, com ou sem cinema interior, há uma coisa que nenhum de nós consegue evitar: estamos todos, ao mesmo tempo, a aprender a ser gente com o material que nos calhou por dentro. O mínimo que podemos fazer é não acrescentar julgamento a essa aprendizagem difícil.
Assinatura: — Alberto Carvalho
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