IA e salários: quem ganha com a produtividade?

Leitura integral livre

Estudos encontram ganhos de produtividade, mas a sua distribuição é desigual. Os salários, o tempo de trabalho e as oportunidades de entrada nas profissões dependem também de decisões empresariais e da capacidade negocial.

Economia

Luís Avelar
Luís Avelarhttps://www.arcananews.com/
Luís Avelar é autor no Arcana News. A História e as dinâmicas do poder estão entre os seus principais interesses, a par das mudanças sociais e da política internacional. Escreve sobre os acontecimentos e as relações que ajudam a compreender como chegámos ao presente.
Guardados

A relação entre IA e salários faz parte de um debate frequentemente concentrado no número de empregos que poderão desaparecer. Mas existe outra questão: o que acontece aos trabalhadores que mantêm o emprego quando uma parte crescente do valor produzido depende de sistemas tecnológicos controlados pelas empresas?

Uma ferramenta que permite realizar determinada tarefa em metade do tempo pode produzir resultados económicos muito diferentes. Pode reduzir a jornada, aumentar a produção, melhorar a remuneração ou simplesmente diminuir os custos empresariais. A distribuição dos benefícios depende da organização das empresas, das condições de concorrência, da capacidade negocial dos trabalhadores e das regras aplicáveis à utilização dos sistemas.

O que determina se o tempo poupado com a IA se transforma em melhores salários, menos horas de trabalho ou mais tarefas?

IA e salários: o que encontrou o estudo do BEI

Um estudo publicado em 13 de janeiro de 2026 pelo Banco Europeu de Investimento, baseado em dados de mais de 12 mil empresas não financeiras da União Europeia e dos Estados Unidos, estimou um aumento de 4% na produtividade laboral associado à adoção de inteligência artificial nas empresas europeias. Os dados de empresas norte-americanas foram utilizados para construir a estratégia de estimação. O resultado não foi acompanhado por perdas de emprego detetadas ao nível das empresas no curto prazo.

Os investigadores identificaram ainda salários mais elevados nas empresas que adotavam inteligência artificial, embora os ganhos de produtividade se concentrassem sobretudo nas empresas médias e grandes. Na relação entre IA e salários, esta comparação não demonstra que cada trabalhador tenha recebido um aumento causado pela introdução da tecnologia.

Infografia do BEI: ganho estimado de 4% na produtividade laboral
O BEI estima um efeito médio de 4% na produtividade laboral das empresas europeias analisadas, sem perdas de emprego detetadas no curto prazo. Fonte: BEI, Working Paper 2026/02. Infografia AN, CC0.

Uma empresa com recursos para investir em programas informáticos, bases de dados e formação encontra-se numa posição diferente da de uma organização que apenas consegue adquirir ferramentas isoladas. A desigualdade pode começar antes de qualquer decisão sobre salários. Surge na capacidade de transformar tecnologia em resultados económicos.

Receber o Despacho Semanal
Até onde quer aprofundar a sua visão do mundo? Receba o Despacho Semanal. Política, poder e mundo, com profundidade. Grátis. Semanal. Direto ao ponto.

IA e salários: o tempo poupado pode desaparecer noutras tarefas

A Organização Internacional do Trabalho publicou, em 1 de junho de 2026, uma revisão de estudos empíricos sobre os efeitos da inteligência artificial generativa no emprego, na produtividade e na organização do trabalho. Os ganhos de produtividade existem, mas são desiguais e nem sempre verificados. As poupanças de tempo comunicadas pelos trabalhadores ainda não se traduziram em aumentos generalizados e mensuráveis da produção, dos rendimentos ou do emprego.

A revisão também assinala que a substituição de trabalhadores em grande escala continua limitada, embora identifique riscos para as oportunidades profissionais dos mais jovens e para a qualidade do trabalho.

Um trabalhador pode concluir um relatório mais rapidamente e continuar dependente de decisões, verificações ou procedimentos que não foram automatizados. O ganho individual pode desaparecer noutras fases do processo. Também pode ser absorvido por exigências adicionais: mais tarefas, prazos mais curtos ou maior disponibilidade. A produtividade depende do funcionamento de toda a organização, não apenas da velocidade de uma operação.

Infografia da OIT sobre tempo poupado com IA e resultados económicos medidos
A revisão empírica da OIT, de junho de 2026, distingue tempo poupado e resultados económicos efetivamente medidos. Infografia AN, CC0.

Exposição à inteligência artificial não significa despedimento

Em maio de 2025, a OIT e o instituto polaco NASK estimaram que cerca de um em cada quatro trabalhadores no mundo exercia uma profissão com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. A exposição mais elevada concentrava-se nas profissões administrativas. Apenas 3,3% do emprego mundial pertencia à categoria de exposição mais intensa definida no estudo. Os autores consideraram mais provável a transformação das profissões do que a sua substituição integral.

Gráfico da OIT e do NASK: 3,3% do emprego na categoria de maior exposição à IA generativa
A categoria de exposição mais intensa à IA generativa representa 3,3% do emprego mundial no índice OIT–NASK de 2025. Não corresponde a uma previsão de despedimentos. Infografia AN, CC0.

Uma profissão reúne atividades distintas. Algumas podem ser executadas por sistemas de inteligência artificial, enquanto outras continuam a exigir intervenção humana. Quando determinadas tarefas desaparecem ou diminuem, o conteúdo da profissão pode alterar-se sem que o posto de trabalho seja imediatamente eliminado.

O problema económico desloca-se então para a valorização das competências que permanecem necessárias. Se uma ferramenta permite executar rapidamente atividades que antes exigiam experiência, parte dessa experiência pode perder valor comercial. Mas outras capacidades podem tornar-se mais importantes, nomeadamente a verificação dos resultados, a resolução de situações imprevistas e a responsabilidade pelas decisões.

IA e salários: o FMI mede outro universo de exposição

O Fundo Monetário Internacional estimou, em 2024, que aproximadamente 40% do emprego mundial estava exposto à inteligência artificial, proporção que poderia atingir cerca de 60% nas economias avançadas. Este índice abrange a IA e utiliza uma metodologia diferente da avaliação da OIT sobre IA generativa. As percentagens não devem ser lidas como uma evolução temporal do mesmo indicador.

O estudo distinguia situações em que a tecnologia poderia complementar o trabalho humano de outras em que poderia executar tarefas anteriormente realizadas por trabalhadores. Neste segundo caso, o FMI identificou riscos de redução da procura de trabalho, das contratações e dos salários. Trata-se de uma avaliação de exposição e de cenários possíveis, não de uma medição de perdas salariais já verificadas.

Gráfico do FMI: exposição à IA de 40% do emprego mundial e 60% nas economias avançadas
O FMI estimou exposição à IA em cerca de 40% do emprego mundial e 60% nas economias avançadas. Este índice não é diretamente comparável com o da OIT sobre IA generativa. Infografia AN, CC0.

O Banco Europeu de Investimento encontra ganhos de produtividade e salários mais elevados nas empresas adotantes. A OIT observa que as poupanças de tempo ainda não produziram aumentos generalizados de rendimentos. O FMI identifica riscos de perdas para determinados grupos profissionais. Em conjunto, sustentam uma conclusão mais precisa: a inteligência artificial pode aumentar a produtividade sem assegurar que todos os trabalhadores beneficiem desse aumento. Os dados sobre IA e salários também não demonstram uma deterioração salarial generalizada.

Manter os postos pode coexistir com menos contratações

A preocupação da OIT com as oportunidades dos trabalhadores mais jovens acrescenta outra dimensão à análise. Uma empresa pode manter os seus profissionais experientes e reduzir a necessidade de contratar pessoas para tarefas de iniciação. Isso pode alterar as oportunidades de entrada numa profissão sem provocar uma queda imediata do emprego total.

Em vez de trabalhadores substituídos por máquinas, poderíamos encontrar empresas com menos necessidade de formar novos profissionais através de tarefas que passaram a ser automatizadas. Esta possibilidade exige investigação adicional. Os dados disponíveis não permitem concluir que esteja a ocorrer de forma uniforme entre países e setores. Uma empresa pode apresentar emprego estável e, simultaneamente, modificar a sua política de recrutamento.

IA e salários: quem decide o destino dos ganhos

IA e salários: diferença entre produtividade e distribuição dos ganhos
Produtividade e distribuição dos ganhos são questões distintas. Infografia original do Arcana News, 24 de outubro de 2026. CC0.

A introdução de inteligência artificial pode alterar a organização das tarefas, os critérios de avaliação e as competências exigidas. Se a tecnologia permite aumentar a produção, surge a questão de saber como os ganhos serão utilizados. Uma empresa pode optar por investir em novos serviços, contratar profissionais, melhorar remunerações ou aumentar margens. Estas alternativas não são mutuamente exclusivas.

A relação entre IA e salários depende de condições económicas e institucionais que variam entre empresas e países. A OIT identifica a importância do diálogo social para acompanhar a transformação do trabalho e proteger a sua qualidade. O diálogo sobre produtividade precisa de considerar o tempo utilizado, a formação exigida, a responsabilidade pelos resultados e a evolução das oportunidades profissionais.

Uma ferramenta pode tornar uma tarefa mais rápida e, ao mesmo tempo, aumentar a exigência de supervisão ou a intensidade do trabalho. A discussão aproxima-se da que acompanha a redução do tempo de trabalho na experiência de quatro dias nos Açores: produzir em menos tempo e distribuir esse ganho são decisões relacionadas, mas distintas.

A inteligência artificial coloca duas perguntas que não devem ser confundidas. A primeira é saber se permite produzir mais com os recursos disponíveis. A segunda é determinar quem beneficia do valor adicional produzido.

A investigação disponível começa a oferecer respostas à primeira pergunta, embora os resultados continuem desiguais e dependentes das circunstâncias. A segunda permanece menos esclarecida. A escala do investimento em inteligência artificial ajuda a compreender o esforço de capital necessário, mas não determina a repartição posterior dos rendimentos.

O estudo do BEI mostra que ganhos de produtividade e salários mais elevados podem coexistir. A revisão da OIT distingue poupanças de tempo e benefícios económicos generalizados. A análise do FMI identifica grupos profissionais que poderão enfrentar pressões desfavoráveis. A produtividade mede a capacidade de produzir; a distribuição desse valor depende também de quem pode negociar as condições em que trabalha.

Base documental: Banco Europeu de Investimento, AI adoption, productivity and employment: Evidence from European firms (2026); Organização Internacional do Trabalho, The impact of GenAI on jobs, productivity and work organization (2026) e, com o NASK, Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure (2025); Fundo Monetário Internacional, Gen-AI: Artificial Intelligence and the Future of Work (2024).

Subscrever a Newsletter

Funcionalidade Google

Fontes preferidas disponíveis em Portugal.

A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.

Fonte preferida
- Advertisement -spot_img

Mais artigos

Comentar como Convidado

Arcana Newsspot_img

Leitura Essencial