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A Eurovisão entrou novamente em turbulência política depois de Espanha, Irlanda, Países Baixos e Eslovénia anunciarem, esta quinta-feira, que não participarão na edição de 2026. A decisão surgiu após a União Europeia de Radiodifusão (EBU), responsável pelo concurso, confirmar que Israel continuará a ser admitido na competição, que decorrerá em maio, em Viena.
Quatro países boicotam Eurovisão 2026 devido à participação de Israel.
Os quatro países justificam a retirada com a deterioração da situação humanitária em Gaza e com o entendimento de que a presença de Israel é incompatível com o espírito de cooperação cultural que a Eurovisão pretende representar. A saída de Espanha foi a primeira a ser formalizada, depois de a RTVE ter pedido, sem sucesso, uma votação para suspender a participação israelita. Minutos depois, Irlanda, Países Baixos e Eslovénia alinharam a sua posição.
A emissora pública irlandesa, RTÉ, classificou como “inconcebível” concorrer ao lado de Israel “face à perda de vidas em Gaza e ao impacto humanitário do conflito”. A emissora neerlandesa AVROTROS declarou que “a cultura une, mas não a qualquer preço”.
Israel, que participa na Eurovisão desde 1973 graças à afiliação da sua emissora pública KAN na EBU, rejeitou as críticas e confirmou presença em Viena. O presidente da KAN, Golan Yochpaz, denunciou a iniciativa de exclusão como “um boicote cultural”, alertando que precedentes deste tipo podem atingir outros países no futuro. O presidente israelita, Isaac Herzog, agradeceu publicamente aos países que defenderam a manutenção de Israel na competição.
A retirada de quatro países — dois deles com forte peso histórico no concurso — coloca a Eurovisão numa crise que não é inédita, mas cuja escala é maior do que a de boicotes anteriores. Espanha integra o “Big Five” dos principais financiadores e garante acesso direto à final. A Irlanda detém o recorde de vitórias (sete), enquanto os Países Baixos venceram cinco vezes.
A EBU aprovou, na mesma reunião, alterações às regras de votação para limitar qualquer influência governamental — um tema que gerou controvérsia após membros do governo israelita terem apelado publicamente ao voto na sua representante em edições anteriores.
A tensão acumulada nos últimos dois anos, marcada pela ofensiva israelita em Gaza e por críticas de fãs e artistas, reacendeu um debate mais amplo sobre os limites entre cultura e política. Em 2019, a banda islandesa Hatari ergueu uma bandeira com a palavra “Palestina” durante a transmissão ao vivo, e desde então a participação israelita tem estado no centro das divisões.
Apesar do impacto imediato, especialistas em história da Eurovisão recordam que o concurso já ultrapassou períodos de contestação. O investigador Dean Vuletic lembrou que “os boicotes não são novidade” e recordou o caso de 1969, quando a Áustria faltou à edição em Madrid em protesto contra a ditadura de Franco.
A questão agora é se a saída de quatro países significará apenas um episódio isolado ou se marcará uma mudança estrutural na forma como a Eurovisão lida com conflitos geopolíticos num evento que, historicamente, sempre procurou apresentar-se como palco de união cultural.
Autor: Arcana News
Imagem: cottonbro studio / Pexels (licença gratuita para uso editorial).


