EUROPA · DINÂMICAS DE PODER.
Quatro anos depois da invasão em larga escala, o continente comprometeu 193 mil milhões de euros, aprovou um empréstimo de 90 mil milhões e viu esse empréstimo bloqueado por um único homem que precisa de vencer umas eleições em abril. A sequência não é um acidente institucional. É o retrato exato da posição europeia neste conflito.
A Europa paga uma guerra que não controla.
Na tarde de 20 de fevereiro, o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó, anunciou que Budapeste bloquearia o maior pacote de apoio financeiro à Ucrânia alguma vez aprovado pela União Europeia.
O empréstimo de 90 mil milhões tinha sido negociado durante meses, aprovado pelo Conselho Europeu em dezembro, ratificado pelo Parlamento Europeu a 11 de fevereiro com 458 votos a favor. Era a espinha dorsal do esforço europeu em 2026 e 2027 — 60 mil milhões para aquisição de defesa, 30 mil milhões de apoio orçamental, financiado por dívida emitida nos mercados de capitais, reembolsável pela Ucrânia apenas quando a Rússia pagar reparações de guerra.
Num único comunicado, ficou suspenso.
O pretexto invocado foi o oleoduto Druzhba.
Os fornecimentos de petróleo russo à Hungria tinham sido interrompidos em janeiro — Budapeste responsabilizava Kiev, Kiev atribuía os danos a um drone russo, e a verdade factual de quem destruiu o quê continua por apurar com certeza.
Mas quem acompanha a tática húngara reconhece o que a questão do oleoduto não explica: Viktor Orbán está em campanha eleitoral para as legislativas de abril, desfavorecido nas sondagens por dez pontos percentuais face ao partido da oposição, Tisza, e a retórica anti-Ucrânia tem-lhe rendido eleitoralmente de forma documentada. Mais: a Comissão Europeia mantém bloqueada a candidatura húngara de 16,2 mil milhões ao fundo SAFE de defesa — e o veto ao empréstimo ucraniano é, simultaneamente, alavanca de negociação sobre esse dossiê.
Orbán está, em suma, a fazer o que os sistemas de veto permitem fazer: a usar o bloqueio de uma política europeia para extrair vantagens noutra, enquanto serve os seus interesses domésticos.
O problema não é Orbán. O problema é que a arquitetura institucional da UE lhe dá poder para isso.
O mecanismo é preciso e vale a pena compreendê-lo.
O empréstimo de 90 mil milhões exige três atos legislativos. Dois foram aprovados a 24 de fevereiro sob regras de cooperação reforçada que dispensam unanimidade. O terceiro — uma emenda ao Quadro Financeiro Plurianual — exige os 27.
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Orbán bloqueia esse único documento e paralisa o pacote inteiro.
A Comissão diz que encontrará caminho “de uma forma ou de outra”, incluindo pela via do artigo 327 do Tratado de Lisboa. Os juristas discordam sobre se essa via funciona. Entretanto, o prazo aproxima-se.
O caso Orbán não é uma anomalia. É uma demonstração de como a Europa chegou ao quarto aniversário da invasão russa: com muito dinheiro comprometido, mecanismos institucionais que um ator de má-fé consegue paralisar, e uma dependência estratégica que nenhum discurso sobre autonomia consegue disfarçar.
Para perceber o alcance dessa dependência, é preciso descer da retórica dos títulos para a mecânica do que a Ucrânia usa todos os dias para não perder a guerra.
O que a Europa paga e o que não controla
Os números do apoio europeu são genuinamente impressionantes e merecem ser ditos antes de serem colocados em perspetiva.
Desde fevereiro de 2022, a União Europeia e os seus Estados-membros transferiram cerca de 193 mil milhões de euros.
O apoio militar europeu cresceu 67% em 2025 relativamente à média dos três anos anteriores.
A despesa europeia em defesa passou de 218 mil milhões em 2021 para cerca de 381 mil milhões em 2025 — 75% de aumento em quatro anos.
A Polónia destina mais de 4% do PIB à defesa.
A Alemanha superou os 100 mil milhões anuais, alterou o travão constitucional à dívida e comprometeu 500 mil milhões adicionais em despesa de segurança.
A produção europeia de munições de 155 mm multiplicou-se por oito desde 2022, aproximando-se de dois milhões de projéteis por ano. Por qualquer métrica histórica, é uma mobilização sem precedentes em tempo de paz.
Mas há uma pergunta que estes números não respondem: o que é que a Europa controla efetivamente?
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