Índia e Japão disputam o futuro do comboio de alta velocidade

Tóquio disponibilizou um empréstimo de longo prazo, a 0,1% de juro e reembolso em 50 anos, que cobria cerca de 81% do custo então estimado para a ligação Mumbai-Ahmedabad.

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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O Japão financiou a primeira linha de alta velocidade indiana para exportar a tecnologia Shinkansen. Nova Deli quer fabricar os seus próprios comboios e utilizar sinalização europeia. A construção avançou, mas os dois países continuam a negociar a forma como os diferentes sistemas irão funcionar em conjunto.

O primeiro comboio de alta velocidade da Índia deveria ter entrado ao serviço em 2023. Três anos depois, não circula um único nos 508 quilómetros entre Mumbai e Ahmedabad. Os terrenos foram adquiridos, há viadutos erguidos e frentes de obra abertas em vários pontos do traçado. Falta concluir a infraestrutura e instalar os sistemas que permitem a circulação. Foi nesse intervalo que a divergência sobre os equipamentos se tornou visível.

O acordo inicial previa financiamento japonês e Shinkansen. Nova Deli mantém o compromisso com a tecnologia japonesa, mas decidiu contratar sinalização com base em normas europeias e preparar comboios de fabrico nacional para a abertura parcial.

Na JR East, uma das empresas envolvidas, a opção por fornecedores distintos levanta reservas. O Shinkansen nasceu como um sistema desenvolvido de forma integrada, em que material circulante, sinalização e controlo de tráfego respondem a um mesmo caderno de encargos e a procedimentos de ensaio comuns. A Índia quer equipamentos de várias origens e abrir espaço para que as suas empresas participem nos futuros projetos.

O contrato de sinalização foi atribuído a um consórcio que inclui a alemã Siemens. A escolha vai obrigar a demonstrar compatibilidade com os comboios japoneses que possam chegar depois.

O que terá de ser demonstrado para que comboios indianos e japoneses possam circular com sinalização europeia na mesma linha?

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Um empréstimo japonês para a primeira linha de alta velocidade

O acordo foi alcançado em 2015, entre Narendra Modi e Shinzo Abe. Tóquio disponibilizou um empréstimo de longo prazo, a 0,1% de juro e reembolso em 50 anos, que cobria cerca de 81% do custo então estimado para a ligação Mumbai-Ahmedabad.

Para os construtores japoneses, era a oportunidade de instalar o Shinkansen num mercado de grande dimensão, com décadas de operação e uma reputação de pontualidade e segurança. Do lado indiano, tratava-se de reduzir o tempo de viagem entre dois polos económicos e ganhar competências numa tecnologia até aí inexistente no país.

O projeto foi avaliado inicialmente em cerca de 980 mil milhões de rupias. Estimativas posteriores citadas na imprensa financeira internacional apontam para pelo menos 1,87 biliões.

A abertura anunciada para 2023 foi sendo adiada. O Governo indiano trabalha agora com entrada em serviço por fases, a começar por um troço em Gujarat.

Comboio Shinkansen japonês na estação de Himeji
Shinkansen na estação de Himeji, no Japão. Modelo histórico, diferente da futura série E10. Autor: Fg2. Domínio público.

Os terrenos estão adquiridos. A construção continua

Durante anos, a aquisição de terrenos travou a obra. Em Maharashtra, onde fica Mumbai, os processos atrasaram o arranque de várias intervenções, situação reconhecida pelas autoridades indianas como condicionante até 2021.

Em fevereiro de 2026, o Ministério dos Caminhos de Ferro anunciou a aquisição dos 1.389,5 hectares necessários e a conclusão das autorizações legais e da deslocalização de infraestruturas de serviços afetadas. Em setembro, numa resposta da National High Speed Rail Corporation Limited a um pedido de informação, a execução física global surgia nos 62,16%.

O corredor atravessa Gujarat, Maharashtra e o território de Dadra e Nagar Haveli, com 12 estações previstas, entre elas Surat, Vadodara e Ahmedabad. Uma parte considerável será em viaduto. Na região de Mumbai, o projeto inclui cerca de 21 quilómetros de túnel, com uma passagem sob o estuário de Thane Creek. Os equipamentos de circulação só serão instalados e testados à medida que a infraestrutura ficar disponível.

A Siemens e a escolha da sinalização europeia

Em junho de 2025, a Siemens anunciou a participação num contrato de cerca de 41 mil milhões de rupias para sinalização e telecomunicações. O consórcio junta a Siemens Limited, a Siemens Mobility GmbH e a Dineshchandra R Agrawal Infracon.

Prevê a instalação de European Train Control System, ETCS nível 2, desenhado, segundo a empresa, para operações até 350 quilómetros por hora. O sistema supervisiona a circulação e transmite aos comboios as informações necessárias ao controlo dos movimentos. É usado em redes de vários países, no âmbito do esforço europeu de interoperabilidade.

Na origem do projeto estava a sinalização japonesa associada ao Shinkansen. Os engenheiros da JR East têm defendido que comboios e sistemas de controlo foram desenvolvidos para funcionar segundo especificações comuns, sujeitas a ensaios e certificação próprios.

Em Nova Deli, a leitura é outra. O uso de normas internacionais facilita a entrada de diferentes fornecedores e cria competências locais. A compatibilidade terá de ser demonstrada antes de qualquer entrada ao serviço dos comboios japoneses.

Painel de controlo TCAS num comboio indiano Vande Bharat
Interface TCAS num comboio Vande Bharat, tecnologia distinta do ETCS previsto para Mumbai-Ahmedabad. Autor: GKP07. CC0, domínio público.

Esse trabalho implica verificar, em conjunto, o comportamento dos veículos, dos equipamentos instalados na linha e dos centros de controlo. Inclui cenários de falha, travagem de emergência, perda de comunicação rádio e transição entre modos de condução. A sinalização europeia tem procedimentos próprios de certificação de segurança, com análise de caso de segurança e validação de interfaces. A introdução do material japonês vai exigir uma segunda camada de ensaios de integração, para comprovar a interoperabilidade entre os sistemas instalados na via e o equipamento embarcado nas futuras composições.

Os primeiros comboios serão fabricados na Índia

O calendário das composições japonesas tornou-se outro ponto de atrito. A Índia contava usar Shinkansen desde o início. O desenvolvimento da futura série E10 passou a obedecer a um calendário incompatível com a abertura parcial prevista para 2027.

Responsáveis do Ministério dos Caminhos de Ferro afirmaram que essas composições não chegarão a tempo. Os dois países aceitaram a utilização inicial de comboios concebidos e fabricados na Índia.

A indústria nacional prepara composições de alta velocidade com velocidade de projeto de 280 quilómetros por hora. A ideia é começar a exploração comercial de um primeiro troço enquanto prosseguem os trabalhos necessários aos veículos japoneses.

Na primeira fase, a infraestrutura continua a beneficiar de financiamento e assistência técnica do Japão, mas o material circulante será indiano e a sinalização terá origem num consórcio com empresas europeias. Os futuros E10, com velocidade superior, ficam associados ao início da década de 2030, sem datas nem condições técnicas fechadas.

A indústria ferroviária indiana procura ganhar autonomia

A Índia dispõe de uma extensa rede e já fabrica composições próprias, como os Vande Bharat. A alta velocidade exige outro patamar de estabilidade, travagem, sinalização, manutenção e certificação.

Comboio Vande Bharat de fabrico indiano
Comboio Vande Bharat, exemplo da produção ferroviária indiana, não o modelo de alta velocidade previsto para Mumbai-Ahmedabad. Autor: Voice of Bolpur. CC0, domínio público.

A linha Mumbai-Ahmedabad abre às suas empresas a participação em construção e fornecimento de equipamentos que podem ser reutilizados noutros corredores. O planeamento ferroviário prevê sete ligações adicionais, num total próximo de quatro mil quilómetros. A dependência indiana de fornecedores chineses ilustra os desafios da autonomia industrial noutros setores.

A experiência adquirida na instalação, manutenção e certificação dos sistemas desta primeira linha pode constituir uma vantagem nos concursos seguintes. A sinalização é decisiva nisso. A adoção de normas usadas por diferentes fabricantes pode facilitar concorrência e substituição de equipamentos ao longo da vida útil, dependendo da compatibilidade efetiva e da capacidade técnica de quem tem de integrar os sistemas.

Exportar o Shinkansen fora do Japão

O Shinkansen foi desenvolvido para uma rede com características próprias. A segurança operacional resulta de décadas de aperfeiçoamento de equipamentos, procedimentos de manutenção e controlo.

Na Índia, o financiamento japonês deu a Tóquio uma posição central na definição inicial. As prioridades industriais de Nova Deli foram alterando as condições dessa participação.

Os fabricantes japoneses continuam interessados em fornecer comboios e equipamentos. Com sinalização europeia, participam num processo de integração que não corresponde integralmente à configuração usada no Japão.

Em 2025, os dois governos reafirmaram a intenção de introduzir na Índia a tecnologia Shinkansen mais recente. A declaração conjunta da cimeira bilateral mencionou expressamente a futura série E10 e a preparação dos sistemas necessários. Não especificou como seriam resolvidas as questões de integração.

A controvérsia chegou à política japonesa

Em julho de 2026, Hideki Makihara, antigo ministro da Justiça japonês, criticou publicamente a condução do projeto por parte da Índia. Atribuiu a Nova Deli a responsabilidade pelos atrasos e contestou a exclusão da sinalização japonesa.

Responsáveis indianos rejeitaram essa leitura. Defenderam que as decisões tinham sido discutidas entre parceiros e que o recurso a comboios nacionais decorria, em parte, da indisponibilidade das novas composições japonesas no prazo.

Os governos procuraram preservar a cooperação bilateral, que inclui investimento, indústria, defesa e iniciativas estratégicas no Indo-Pacífico, num contexto em que a influência chinesa também condiciona outras alianças asiáticas e de diversificação de cadeias de abastecimento.

A abertura parcial prevista para 2027

A Índia aponta para operações comerciais num troço limitado em 2027, com cerca de 100 quilómetros em Gujarat. Representantes japoneses manifestaram reservas sobre o calendário e a extensão efetivamente pronta.

A entrada em funcionamento permitiria testar procedimentos e começar a usar parte da infraestrutura. O impacto nos tempos de viagem entre Mumbai e Ahmedabad continuará reduzido enquanto a ligação não estiver concluída.

Os ensaios iniciais serão feitos com equipamentos diferentes dos que poderão ser usados depois. A chegada dos comboios japoneses poderá exigir adaptações, novos testes e certificação adicional.

As decisões que ficam para os próximos corredores

A primeira linha reúne financiamento japonês, construção executada por várias empresas, sinalização baseada em normas europeias e material circulante que deverá mudar entre a fase inicial e a exploração posterior. Cada componente envolve contratos, responsabilidades técnicas e procedimentos de certificação próprios.

O próximo teste será operacional. Antes de transportar passageiros, o conjunto formado pela via, pela sinalização ETCS e pelos primeiros comboios indianos terá de demonstrar que funciona nas velocidades e condições previstas, com dossiê de segurança validado.

A abertura parcial de 2027, caso se concretize, permitirá avaliar os primeiros sistemas instalados. A integração dos futuros comboios japoneses exigirá uma nova fase de ensaios, cujo calendário continua por definir.

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