CONTEXTO · Economia e Poder · Índia / China · Comércio Índia-China
No comércio Índia-China, as compras indianas incluem máquinas, componentes e materiais que abastecem a produção local. Uma fábrica instalada na Índia pode utilizar esses fornecimentos chineses, mesmo quando o produto final é fabricado em território indiano.
A Índia compra à China muito mais do que lhe vende. Entre essas compras estão equipamentos de produção, componentes eletrónicos e materiais utilizados pelas indústrias que Nova Deli pretende desenvolver. Nos veículos elétricos, a dependência passa pelos ímanes de terras raras. Na indústria farmacêutica, pelos ingredientes necessários ao fabrico de medicamentos.
Reduzir estas importações exige mexer no abastecimento das empresas. Uma restrição à entrada de produtos chineses pode atingir tanto os concorrentes estrangeiros dos fabricantes indianos como os fornecedores a quem estes recorrem.
Comércio Índia-China: o que as fábricas compram
Uma máquina importada permite fabricar outros produtos. Os componentes eletrónicos e os ingredientes farmacêuticos entram no processo de produção e tornam-se parte daquilo que a empresa vende. Têm uma função diferente da mercadoria acabada que chega ao mercado para consumo ou utilização.

Os fabricantes de medicamentos indianos dependem de ingredientes chineses, apesar da sua capacidade de produzir e vender medicamentos. As unidades de veículos elétricos precisam, por sua vez, de assegurar o abastecimento dos materiais e componentes que utilizam, incluindo ímanes de terras raras.
Enquanto mantiverem esses fornecedores, a expansão das fábricas pode exigir mais compras à China. A produção interna cresce sem que desapareça a necessidade de importar.
Para reduzir essa dependência, as empresas teriam de encontrar fornecedores de outras origens ou passar a adquirir esses materiais e equipamentos na própria Índia. As medidas comerciais podem alterar as condições de entrada de uma mercadoria, mas as fábricas continuam a precisar de quem a produza e forneça.

Mudar o local de produção
O Vietname recebeu investimento industrial como alternativa à China e continua a importar desse país equipamentos e materiais essenciais. Parte das cadeias de abastecimento mantém-se ligada aos fornecedores chineses, mesmo quando o fabrico ou a montagem se realizam noutro território.
As empresas que deslocam a produção podem conservar essas relações de fornecimento. Para a Índia, atrair uma unidade industrial é, por isso, apenas uma parte do esforço necessário para desenvolver a produção local. Também precisa de empresas que abasteçam essa unidade.
Nas atividades de maior valor tecnológico, a Índia procura investimento que ajude a construir uma base industrial própria. A produção de iPhones transferida para o país ilustra esse objetivo, mas a instalação das fábricas deixa por resolver a origem dos equipamentos, dos componentes e do conhecimento técnico de que precisam.
Os fabricantes chineses ocupam várias posições nesta relação. Vendem meios de produção às empresas indianas e competem com elas em produtos finais. A Índia procura manter o acesso aos primeiros enquanto dá espaço às suas empresas para crescerem.
Comércio e investimento são decisões diferentes
Depois do confronto fronteiriço de 2020, a Índia proibiu aplicações chinesas e restringiu a possibilidade de empresas chinesas investirem em empresas emergentes indianas. As medidas incidiram sobre áreas específicas da relação económica, sem interromper o comércio Índia-China.
Uma empresa indiana pode continuar a comprar um equipamento chinês sem que o fornecedor se instale na Índia. Já um investimento chinês em território indiano pode criar produção local que utilize componentes importados. Restringir a entrada de capital e reduzir as compras ao exterior exigem, assim, decisões diferentes.
As empresas precisam de assegurar os fornecimentos enquanto desenvolvem alternativas. Interromper uma compra sem encontrar substituto pode afetar a atividade que a política industrial procura promover. Ao mesmo tempo, abrir o mercado aos fabricantes chineses coloca as empresas indianas perante concorrentes mais eficientes.
Estas necessidades ajudam a explicar por que razão as restrições adotadas na relação com a China não eliminaram as compras de mercadorias chinesas. O abastecimento das fábricas continuou a exigir equipamentos e materiais.
O défice bilateral e as contas externas
O défice no comércio Índia-China corresponde à diferença entre o valor das mercadorias que a Índia compra e vende a esse país. Pode diminuir através de uma redução das compras, de um aumento das vendas ou da combinação de ambos.
As contas externas indianas incluem também o comércio com os restantes parceiros e as compras de energia. O encarecimento destas últimas pode aumentar a despesa com importações, mesmo que as trocas com a China se mantenham.

A rupia está exposta a esse conjunto de relações. Além dos pagamentos pelas importações, os movimentos de capitais influenciam a pressão sobre a moeda. A diferença entre compras e vendas à China explica apenas uma parte das necessidades externas da economia indiana.
Mudar de fornecedor também não garante uma redução do défice global. Se uma empresa deixar de comprar à China e passar a adquirir o mesmo equipamento noutro país, diminui a dependência chinesa, mas conserva uma despesa com importações.
O que teria de mudar nas trocas
As fábricas indianas poderão precisar de menos fornecimentos chineses nas atividades em que conseguirem substituir máquinas, componentes e materiais. Nas restantes, a expansão industrial continuará a exigir compras aos mesmos fornecedores.
A Índia procura igualmente aumentar as vendas ao mercado chinês. Esse esforço atua sobre o outro lado da conta comercial e depende da capacidade das suas empresas para colocarem produtos na China.
O desequilíbrio no comércio Índia-China persistirá enquanto essas vendas ficarem muito abaixo das compras. Produzir mais na Índia pode ajudar a reduzi-lo quando substituir mercadorias importadas ou gerar novas exportações. Quando a produção adicional exige mais equipamentos e componentes chineses, uma parte da expansão das fábricas volta a aparecer na conta das importações.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.



Comentar como Convidado