CONTEXTO · História · Portugal · Cabos submarinos e comunicações
Os cabos submarinos em Carcavelos começaram a escrever a sua história em 1870, quando um cabo telegráfico entrou no mar. Fazia parte das ligações que permitiriam enviar uma mensagem de Londres à Índia sem a entregar a um navio. Em terra, era preciso construir uma estação, instalar aparelhos e formar quem soubesse operá-los.
A Fundação Portuguesa das Comunicações situa em 8 de junho desse ano a entrada em serviço da ligação entre Carcavelos e Inglaterra. Na inauguração, D. Luís I e a rainha Vitória trocaram mensagens. As companhias que financiavam e operavam os cabos tinham interesses que iam muito além da correspondência entre os dois países.
A posição de Carcavelos permitia integrar rotas atlânticas e mediterrânicas numa rede que dependia de estações em terra. Para as companhias, a costa portuguesa oferecia pontos de passagem. Portugal obtinha acesso mais rápido às comunicações internacionais e, nas décadas seguintes, novas ligações às ilhas e a outros territórios sob a sua administração.
A guta-percha, material de origem vegetal, isolava os condutores dos cabos. No mar, os navios lançavam os troços e regressavam quando era preciso repará-los. Em terra, as concessões estabeleciam as condições em que cada companhia podia operar.
Uma estação numa rede maior

As companhias britânicas permaneceram em Carcavelos por décadas. Os seus cabos ligavam a costa portuguesa a estações europeias e, por meio delas, a destinos noutros continentes. Uma avaria ou uma nova rota podia alterar o trabalho na estação, mesmo quando a decisão tinha sido tomada longe dali.
Na Horta instalaram-se operadores de diferentes nacionalidades, atraídos pela posição do Faial no Atlântico. As condições jurídicas e comerciais das ligações variavam. O Estado português concedia direitos de instalação e exploração; empresas estrangeiras financiavam e geriam parte dos sistemas; nas estações, os operadores asseguravam a passagem das mensagens.
Em 1873 e 1874, a ligação telegráfica entre a Europa e o Brasil avançou por etapas, com passagem pela Madeira e por Cabo Verde. Houve interrupções e reparações antes de a comunicação se tornar regular. As mensagens passaram a atravessar o Atlântico por cabo; as cartas continuaram a viajar de navio.
Portugal autorizava as amarrações no seu território e beneficiava das ligações. As concessões e a propriedade dos cabos pertenciam a planos diferentes da mesma operação. Os contratos definiam o que as companhias podiam instalar; a rede estendia-se muito para lá das águas portuguesas.
O que uma guerra revelou

Em agosto de 1914, depois da entrada britânica na Primeira Guerra Mundial, forças britânicas cortaram cabos alemães no Canal da Mancha. Berlim teve de recorrer também a outras vias de comunicação, incluindo a telegrafia sem fios, mais exposta à interceção.
O corte atingiu troços precisos, num ponto em que os britânicos podiam agir. Outros percursos continuaram disponíveis, embora com custos e riscos diferentes. Para interromper uma comunicação não era preciso deter a praia onde o cabo terminava.
Portugal permaneceu neutral até 1916. Nas suas estações continuavam a trabalhar operadores de circuitos internacionais. Lisboa conservava poderes sobre o território e as concessões, mas as rotas, os investimentos e a operação de cada rede envolviam também empresas e governos estrangeiros.
Cabos submarinos em Carcavelos: o 2Africa

Em maio de 2020 foi anunciado o 2Africa, com oito parceiros: Bayobab, center3, China Mobile International, Meta, Orange, Telecom Egypt, Vodafone e WIOCC. A Alcatel Submarine Networks ficou responsável pelo fabrico e instalação. Carcavelos viria a entrar no traçado português. Os cerca de 45 mil quilómetros anunciados incluem a extensão Pearls.
Os promotores anunciaram a conclusão da infraestrutura principal em novembro de 2025. A entrada em serviço de Pearls estava prevista para 2026.
O processo português tem datas e limites claros. Em 6 de outubro de 2023, foi assinado o contrato de utilização privativa de espaço marítimo para uma faixa de aproximadamente um metro de largura e dois mil quilómetros de extensão, correspondente à rota do cabo nas subdivisões do continente, da plataforma continental estendida e da Madeira. Em 12 de fevereiro de 2024, o Diário da República publicou o Despacho n.º 1653/2024, que reconheceu como ação de relevante interesse público o projeto de instalação e amarração do 2Africa na praia de Carcavelos.
O despacho localiza a amarração numa câmara subterrânea já existente no passeio marítimo, a sul da Avenida Marginal. Regista pareceres de entidades públicas, condições ambientais e o reconhecimento do interesse público municipal pela Assembleia Municipal de Cascais. Em 2024, o objeto da decisão era a instalação em Carcavelos.
O despacho cita o programa nacional de ordenamento do território: a entrada na rede poderá aumentar a competitividade de Portugal e permitir acrescentar valor aos dados que chegam de outros países. Os pareceres e as condições impostas mostram os poderes exercidos pelo Estado sobre a instalação. O documento não quantifica o investimento que permanecerá no país nem a capacidade de decisão que Portugal terá na rede.
Segundo o consórcio, cada investidor gere a operação da sua fibra. Parceiros locais tratam do equipamento nas amarrações, e os operadores das estações devem dar acesso à capacidade em condições justas e não discriminatórias. A lista dos oito investidores não inclui uma empresa portuguesa. A Vodafone Enterprise Spain, através da sucursal portuguesa, figura no contrato relativo ao espaço marítimo. São papéis distintos dentro do mesmo projeto.
O que a praia não explica
Carcavelos voltou a ser escolhida como ponto de chegada. A câmara subterrânea referida no despacho fica sob o passeio marítimo, a sul da Avenida Marginal. A partir dali, a ligação prossegue por outras infraestruturas em terra.
Os termos da amarração de 2024 ficaram num despacho público. O 2Africa é um sistema de acesso aberto, financiado por vários investidores, e a instalação exigiu pareceres e condições ambientais. A história mais ampla das ligações está também no artigo Portugal e os cabos submarinos. Nenhum desses procedimentos existia nesses moldes quando os primeiros cabos chegaram a Carcavelos.
A documentação localiza a câmara existente; não descreve a experiência de quem passa sobre ela. Diz, contudo, bastante sobre as decisões anteriores à chegada do cabo: quem pediu a utilização do espaço marítimo, que entidades se pronunciaram e que condições foram impostas.
Em 1870, a notícia foi a possibilidade de enviar mensagens pelo Atlântico. Em 2024, um despacho identificou uma faixa de mar, pareceres e uma câmara sob o passeio. Há mais documentação sobre a chegada do 2Africa do que uma fotografia da praia permitiria supor. Noutra costa, a disputa por uma rota submarina aparece no artigo Chile, China e o cabo que os EUA bloquearam. A propriedade das fibras, a operação da estação e o acesso à capacidade aparecem em documentos diferentes, nas mãos de entidades diferentes.
Fontes documentais
- Fundação Portuguesa das Comunicações: história dos cabos
- Despacho n.º 1653/2024
- Consórcio 2Africa: perguntas frequentes
- Meta: conclusão do sistema principal em 2025
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