Ler, esconder, queimar: erotismo e respeitabilidade

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Pepys leu um livro erótico e queimou-o para proteger a reputação. Os manuscritos de Nashe e as atribuições discutidas de outros poemas mostram como o desejo circulava entre leitores respeitáveis.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Em fevereiro de 1668, Samuel Pepys comprou um livro com um destino já decidido: o fogo. Escolheu uma encadernação simples, porque não tencionava conservar o exemplar depois de o ler. A explicação ficou no diário, nas entradas de 8 e 9 de fevereiro: não queria que aquela obra aparecesse entre os seus livros e os desonrasse, caso fosse descoberta. O título era L’escholle des filles. No dia seguinte, Pepys terminou a leitura e registou que o tinha queimado. Pelo meio, encontrou uma justificação para o consumo: um homem sério podia conhecer aquelas matérias para se informar sobre os vícios do mundo.

A compra, a leitura e a destruição fazem parte da mesma decisão. Erotismo e respeitabilidade convivem neste episódio: o leitor permite-se o acesso ao que considera impróprio e prepara, antecipadamente, o desaparecimento da prova.

O que procurava Pepys destruir: o conteúdo do livro ou a possibilidade de ser reconhecido como seu leitor?

Erotismo e respeitabilidade na biblioteca de Pepys

As entradas de 8 e 9 de fevereiro tornam visível essa negociação. Pepys condena o livro e reserva para si uma razão aceitável para o ler. A fórmula da informação permite-lhe manter a imagem de homem sensato enquanto percorre uma obra que ele próprio classifica como obscena.

O documento permite observar uma decisão individual e os argumentos usados para a justificar. Queimar o exemplar encerra a leitura, mas deixa intacta a distinção moral que tornou necessário escondê-lo. Pepys conserva o direito de conhecer o conteúdo; recusa-lhe um lugar na coleção que poderia identificá-lo perante terceiros.

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Diário de Pepys: página de título da edição Wheatley, 1893
Página de título da edição do diário de Samuel Pepys preparada por Henry B. Wheatley, 1893. Project Gutenberg. Domínio público.

Uma personagem feminina não é um testemunho

Cerca de três quartos de século antes, Thomas Nashe tinha explorado outra tensão em The Choise of Valentines. No poema, o encontro entre Tomalin e Frances expõe os limites do desempenho masculino. Quando o amante deixa de corresponder ao desejo da companheira, ela encontra num objeto sexual uma alternativa. A cena desloca o centro da satisfação: o homem perde a garantia de ser indispensável.

Frances é uma personagem construída por um escritor. As suas falas pertencem a uma composição que organiza o encontro, o embaraço e o efeito cómico. O poema não recolhe o depoimento de uma mulher sobre a sua experiência. Nashe pode dar à personagem uma exigência que humilha o narrador e, ao mesmo tempo, usá-la para entreter o leitor. A autonomia representada serve uma finalidade literária.

A diferença entre uma pessoa documentada e uma personagem construída importa também noutras leituras, como na relação entre Joseph Bell e Sherlock Holmes. Aqui, impede que as palavras atribuídas a Frances sejam tratadas como uma voz feminina recolhida diretamente.

A versão editada por John S. Farmer, em 1899, inclui uma dedicatória que defende a escrita de assuntos escondidos e um fecho que promete versos mais adequados à gravidade do destinatário. A própria obra encena a passagem entre a licença erótica e a necessidade de apresentar uma face respeitável.

The Choise of Valentines: edição de John S. Farmer, 1899
Página de título de The Choise of Valentines, de Thomas Nashe, na edição de John S. Farmer, de 1899. Project Gutenberg. Domínio público.

Versos religiosos e obscenos no mesmo caderno

Nashe não viu o poema impresso em vida. Foi copiado em manuscritos. Num estudo publicado pela Folger Shakespeare Library, em 2016, Kate De Rycker identificava seis testemunhos conhecidos, incluindo um exemplar reunido num caderno com versos religiosos e obscenos.

A proximidade material entre esses registos desaconselha uma divisão demasiado arrumada entre leitores devotos e leitores de erotismo. Um mesmo volume podia acolher ambos. O caderno não explica todas as convicções de quem o reuniu, mas mostra que categorias hoje separadas podiam partilhar o mesmo espaço de leitura.

Outro exemplo é Signior Dildo, frequentemente associado ao conde de Rochester. O catálogo de manuscritos literários ingleses da Folger regista cópias, acrescentos e atribuições diferentes. Assinala também que a autoria de Rochester foi questionada e que o poema surgiu impresso em Poems on Affairs of State, em 1704.

Chamar-lhe simplesmente um poema de Rochester apaga essa incerteza. E a presença numa coleção sobre assuntos de Estado recorda que a obscenidade também podia integrar a circulação da sátira política.

Samuel Pepys em gravura de Robert White, segundo Godfrey Kneller
Samuel Pepys, gravura de Robert White segundo Godfrey Kneller, publicada em 1690 e reproduzida na edição de Wheatley. Project Gutenberg. Domínio público.

O livro desapareceu, o gesto ficou registado

A história da leitura depende dos materiais que sobreviveram. Na recuperação dos papiros de Herculano, a dificuldade está em voltar a ler textos carbonizados. No episódio de Pepys, a destruição foi uma decisão do próprio leitor. Os dois casos deixam problemas diferentes a quem procura reconstituir o passado.

Pepys oferece a imagem mais concreta dessa convivência. Quis eliminar o livro da biblioteca, mas deixou no diário o relato da compra e da destruição. O exemplar desapareceu; a tentativa de proteger a reputação tornou-se parte da história da leitura.

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