Navios chineses e vigilância dos cabos submarinos

Clube · adesão gratuita

Três dos cabos submarinos classificados como mais expostos no Pacífico ainda não entraram em serviço. O índice avalia risco, não prevê ataques.

Economia

Alberto Carvalho
Alberto Carvalhohttps://arcananews.com/author/albertocarvalho/
Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
Guardados

Em 2024, um dos navios chineses de investigação, o Xiang Yang Hong 06 realizou três viagens nas proximidades de Guam. Entre fevereiro e maio de 2024, efetuou três viagens em alto-mar, ao largo da costa de Guam, concentrando-se numa área situada a cerca de 210 milhas náuticas da costa, onde mapeou infraestruturas críticas. As atividades de levantamento abrangeram dois cabos submarinos: o Apricot e o Asia-America Gateway (AAG), este último com conectividade para os Estados Unidos. A documentação pública mostra os percursos e a proximidade às infraestruturas. Sobre a disputa em torno de um cabo submarino entre o Chile e a China, o AN publicou também uma análise. A finalidade das atividades realizadas a bordo não consta dos registos públicos.

O Futures Lab do CSIS analisa registos AIS de 1 de janeiro de 2020 a 9 de dezembro de 2025 relativos a 223 embarcações de 48 países

O Futures Lab do Center for Strategic and International Studies, em Washington, publicou, a 8 de outubro de 2026, um estudo sobre a utilização de navios de investigação com possíveis funções civis e militares. O trabalho, assinado por Jose M. Macias III, Tao-Hung Chang, Nico Vacca e Benjamin Jensen, analisou 223 embarcações de 48 países.

Mapa histórico de cabos submarinos, contexto da investigação sobre navios chineses
Mapa ilustrativo histórico de cabos submarinos de 2007. Rarelibra / Wikimedia Commons, domínio público. Imagem de arquivo, não documenta os cabos de 2026.

Os investigadores trabalharam com registos do Sistema de Identificação Automática (AIS), relativos ao período entre 1 de janeiro de 2020 e 9 de dezembro de 2025. Calcularam a proporção do tempo que as embarcações passaram em alto-mar, nas proximidades de cabos submarinos e gasodutos. O resultado mais evidente foi que a maior parte dos navios passou menos de 1% do tempo anual nessas zonas.

A distribuição entre os navios chineses e os de outras bandeiras não foi igual. Nas cinco comparações anuais, os navios chineses surgiram acima do percentil 80 em quatro, os norte-americanos em todas e os russos em duas. Em 2024, sete embarcações chinesas ultrapassaram aquele limiar.

Os investigadores encontraram uma associação estatística positiva entre a bandeira chinesa e o tempo passado junto dessas infraestruturas. A associação relativa aos navios norte-americanos foi mais fraca.

Há uma limitação particularmente relevante: o modelo explica apenas cerca de 1,3% da variação observada. Quando se aplicam métodos mais conservadores para calcular a incerteza estatística, a associação atribuída à bandeira chinesa torna-se menos precisa.

Receber o Despacho Semanal
Até onde quer aprofundar a sua visão do mundo? Receba o Despacho Semanal. Política, poder e mundo, com profundidade. Grátis. Semanal. Direto ao ponto.

Os resultados sustentam a existência de um padrão que merece investigação. Não identificam a finalidade de cada viagem.

O Ke Xue inicia uma missão em março de 2024, a cerca de 290 milhas náuticas a oeste de Okinotori, e segue para o mar do Japão, o estreito de Tsugaru e o mar de Bering

O segundo caso relativo aos navios chineses envolve o Ke Xue. Durante 2024, navegou em áreas do Pacífico ocidental e setentrional por onde passam ligações submarinas entre o Japão, a Ásia Oriental e a América do Norte. Iniciou uma missão semelhante a um levantamento oceanográfico, em março de 2024, a cerca de 290 milhas náuticas a oeste de Okinotori, uma formação geográfica com cerca de 108 pés quadrados de superfície emersa na maré alta, localizada a meio caminho entre Taiwan e Guam. Seguiu depois pelo mar do Japão e pelo estreito de Tsugaru, prosseguindo em direção ao mar de Bering. A atividade no mar de Bering concentrou-se nas proximidades de infraestruturas e de uma base militar norte-americana.

Alguns trajetos apresentavam movimentos compatíveis com levantamentos sistemáticos do fundo marinho. A equipa comparou as áreas de operação com informação geológica do Serviço Geológico dos Estados Unidos. Parte desses movimentos ocorreu fora de zonas identificadas como particularmente favoráveis à exploração de recursos minerais submarinos.

Estação japonesa de aterragem de cabos submarinos
Estação japonesa de aterragem de cabos submarinos. 伊勢志摩日和 / Wikimedia Commons, domínio público. Imagem de arquivo, não documenta os cabos de 2026.

O Ke Xue apresentou uma interrupção do sinal AIS nas proximidades de Shemya, nas ilhas Aleutas. Os autores registaram o episódio e advertiram contra a sua sobrevalorização.

O levantamento oceanográfico produz dados utilizáveis na ciência e em operações militares

A profundidade, a composição dos sedimentos, a temperatura da água e as correntes são informações utilizadas no estudo dos oceanos. Algumas permitem melhorar a navegação submarina e compreender as condições de propagação do som na água.

Na China, a relação entre as instituições civis de investigação e os objetivos de segurança nacional é objeto de atenção devido à política de integração de capacidades civis e militares. Essa orientação torna relevante conhecer quem financia as missões, que entidades recebem os resultados e que equipamentos são utilizados.

Tal como os navios chineses, as embarcações dos Estados Unidos também realizam levantamentos com interesse científico e estratégico.

O relatório da USCC, de 22 de setembro, reúne seis episódios ocorridos entre 2021 e 2025, classificados como suspeitas de sabotagem

Um relatório diferente, publicado a 22 de setembro pela U.S.-China Economic and Security Review Commission, examinou as ameaças aos cabos transpacíficos e desenvolveu um índice de vulnerabilidade.

Navio Goliath na instalação de cabos em 1850
Navio Goliath na instalação de cabos em 1850. Arquivos PTT França / Wikimedia Commons, domínio público. Imagem de arquivo, não documenta os cabos de 2026.

Preparado pelo China Strategic Risks Institute, o relatório reuniu seis episódios ocorridos entre 2021 e 2025, classificados pelos autores como suspeitas de sabotagem associadas à China. Os incidentes envolveram zonas próximas de Taiwan e do mar Báltico. Em vários casos, as suspeitas recaíram sobre embarcações civis, comerciais ou de pesca, e não sobre navios militares identificados.

A presença de uma embarcação junto de um cabo no momento de uma avaria pode justificar uma investigação. As redes submarinas estão expostas a acidentes. As âncoras e as artes de pesca são causas frequentes de danos.

Em janeiro de 2025, uma interrupção afetou o sistema Trans-Pacific Express (TPE), que conta com a participação de empresas de vários países, entre elas operadores chineses.

Os episódios são apresentados como suspeitos, não como um conjunto de operações cuja autoria esteja judicial ou tecnicamente demonstrada.

O GZVI analisa 32 sistemas e calcula um cenário com uma margem de 1,76% em hora de ponta após quatro cortes nas ligações diretas entre Taiwan e os EUA

O relatório disponibilizado pela USCC analisou 32 sistemas de cabos ligados aos Estados Unidos, incluindo infraestruturas ainda em desenvolvimento.

Para comparar a exposição, os investigadores construíram o Trans-Pacific Cable Gray Zone Vulnerability Index (GZVI). Consideraram a profundidade da água, a intensidade do tráfego marítimo, a proximidade de áreas reivindicadas pela China e a propriedade dos cabos. As águas pouco profundas receberam uma ponderação elevada.

O índice colocou entre os sistemas mais expostos cabos com ligações a Taiwan. A capacidade de Taiwan para resistir a um bloqueio chinês foi analisada separadamente no AN. Alguns nem sequer tinham começado a funcionar quando o estudo foi publicado.

Navio de cabos USNS Zeus
Navio de cabos USNS Zeus. Marinha dos Estados Unidos / Wikimedia Commons, domínio público. Imagem de arquivo, não documenta os cabos de 2026.

Num dos cenários calculados, a interrupção dos quatro cabos diretos entre Taiwan e os Estados Unidos reduziria a margem de capacidade disponível da rede transpacífica para 1,76% durante as horas de maior utilização. É um resultado de simulação, sujeito a hipóteses sobre a procura e a capacidade.

Os sistemas AIS permitem reconstruir trajetos, mas a proximidade não prova uma operação e a interrupção do sinal não prova ocultação

Os sistemas AIS permitem reconstruir trajetos e identificar as embarcações presentes numa área. Podem revelar permanências prolongadas, movimentos repetitivos ou alterações de percurso.

A ausência de transmissão tem várias causas possíveis. A proximidade de um navio a um cabo não prova a realização de uma operação sobre a infraestrutura. Uma trajetória compatível com um levantamento pode corresponder a atividades científicas legítimas.

Em alto-mar, a investigação científica desenvolve-se num quadro jurídico que permite uma ampla liberdade de navegação e de recolha de dados, sujeita às normas internacionais aplicáveis.

O CSIS propõe uma maior partilha de dados entre países aliados, o acompanhamento continuado de embarcações e a capacidade de divulgar informação documentada sobre atividades consideradas suspeitas. Defende o reforço dos meios de reparação, uma medida que não depende de se provar previamente a autoria de um incidente.

O relatório da USCC apresenta propostas de monitorização acústica, cooperação marítima regional e financiamento de navios adicionais destinados à manutenção de cabos. Estas recomendações traduzem as posições dos autores.

Investigação apoiada pela General Atomics, através da plataforma Optix: a proximidade é verificável dentro dos limites dos registos, mas a intenção permanece uma inferência

A documentação examinada permite estabelecer que determinadas embarcações de investigação chinesas passaram períodos relativamente elevados nas proximidades de infraestruturas submarinas. Permite identificar trajetos repetidos em corredores estratégicos e a utilização de equipamentos capazes de recolher informação oceanográfica com aplicações civis e militares.

Os estudos não demonstram que os navios chineses Xiang Yang Hong 06 ou o Ke Xue tenham cortado cabos, preparado uma operação concreta de sabotagem ou recebido ordens para esse fim.

A investigação do CSIS foi apoiada pela General Atomics, cuja plataforma Optix forneceu os dados utilizados na análise.

Subscrever a Newsletter

Funcionalidade Google

Fontes preferidas disponíveis em Portugal.

A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.

Fonte preferida
- Advertisement -spot_img

Mais artigos

Comentar como Convidado

Arcana Newsspot_img

Leitura Essencial