Contexto · Geopolítica e Poder · Chile / China / EUA · Infraestrutura submarina e tensão digital
Chile, China e o cabo que os EUA bloquearam.
O essencial deste artigo
- Toda a costa ocidental da América do Sul comunica com a Ásia através de cabos controlados por empresas americanas.
- Em janeiro de 2026, o Chile aprovou um cabo submarino da China Mobile entre Valparaíso e Hong Kong. A aprovação foi retirada dois dias depois, após convocação à embaixada americana em Santiago.
- Os EUA revogaram os vistos diplomáticos de três funcionários chilenos por terem avaliado a proposta — um precedente contestado por especialistas em direito internacional.
- O cabo Humboldt, do Google, ligará o Chile à Austrália em 2027, mas passará por jurisdições alinhadas com Washington.
- O cabo Chile-China Express não está formalmente cancelado nem aprovado.
Cronologia
- 2019 — Huawei propõe cabo entre o Chile e Xangai. Projeto abandonado após pressão americana.
- 2024 — Google anuncia acordo para o cabo Humboldt, ligando o Chile à Austrália (operacional em 2027).
- Janeiro de 2026 — Chile aprova proposta da China Mobile para o cabo Chile-China Express.
- Janeiro de 2026 — Funcionários do ministério são convocados à embaixada americana em Santiago. Aprovação retirada com justificação de “erro técnico”.
- 20 de fevereiro de 2026 — EUA revogam vistos diplomáticos de três funcionários chilenos.
- 11 de março de 2026 — José António Kast toma posse. Embaixador americano declara o projeto “encerrado”.
- Situação atual — Administração Kast afirma que o projeto “continua a ser avaliado”.
No fundo do Pacífico, entre Valparaíso e Sydney, não existe nenhum cabo de telecomunicações. A distância é de cerca de 11.000 quilómetros. Toda a costa ocidental da América do Sul está ligada ao resto do mundo através de cabos que passam pelos Estados Unidos ou que dependem de empresas americanas para funcionar. Para chegar à Ásia — o principal parceiro comercial de praticamente todos os países da região —, os dados latino-americanos fazem um desvio obrigatório pelo hemisfério norte.
É o resultado de décadas de decisões sobre quem financia, constrói e controla a infraestrutura submarina global.
Como se chegou aqui
Durante a maior parte do século XX, os cabos submarinos foram construídos por consórcios de operadoras de telecomunicações estatais e privadas, com participação de vários países. O modelo pressupunha partilha de custos e de acesso. A partir dos anos 2010, esse equilíbrio deslocou-se: empresas como a Google, a Meta e a Amazon começaram a investir em cabos próprios, concebidos principalmente para transportar o seu próprio tráfego de dados entre centros de processamento. Hoje, uma parte crescente da capacidade submarina mundial pertence a um número reduzido de empresas privadas americanas.
Para o Chile, esta concentração tem uma consequência prática: o país depende de infraestrutura que não controla para manter as suas comunicações internacionais. A ligação ao mercado asiático — destino de grande parte das exportações chilenas, sobretudo cobre e lítio — faz-se através de rotas que não passam diretamente pelo Pacífico Sul.
Em 2019, a Huawei apresentou uma proposta para um cabo entre o Chile e Xangai. A proposta foi abandonada após a pressão americana, num momento em que os Estados Unidos iniciavam uma campanha sistemática para excluir empresas chinesas de projetos de telecomunicações globais.
Os atores e os seus interesses
O caso do cabo Chile-China Express, que chegou à fase de aprovação ministerial em janeiro de 2026, envolve pelo menos quatro atores com interesses distintos.
O Chile quer reduzir a dependência de um único conjunto de parceiros para as suas comunicações internacionais. O argumento técnico é redundância: se um cabo falha — por avaria, sismo ou sabotagem — é necessário ter uma rota alternativa. O argumento económico é igualmente direto: a China é o principal destino das exportações chilenas, e uma ligação direta reduziria a latência e os custos de transmissão de dados.
A China Mobile, empresa estatal de telecomunicações, propôs um cabo de 20.000 quilómetros entre Valparaíso e Hong Kong, com um custo estimado de 500 milhões de dólares. A expansão da presença chinesa em infraestrutura submarina na América do Sul faz parte de um padrão mais amplo: a China Telecom, a Huawei, a ZTE e a Alibaba Cloud já operam em redes 5G e centros de dados em vários países latino-americanos.
Os Estados Unidos consideram que a presença de infraestrutura de telecomunicações chinesa nas Américas representa um risco para a segurança regional. A administração Trump formalizou esta posição através da Doutrina Donroe, declarando que não permitirá que adversários estrangeiros utilizem o comércio e o investimento para obter controlo sobre infraestrutura crítica na região. A resposta concreta à aprovação chilena foi a revogação dos vistos diplomáticos de três funcionários do governo — incluindo o então ministro das telecomunicações — que participaram na avaliação da proposta da China Mobile.
O Google anunciou em 2024 um acordo para construir o cabo Humboldt, com 14.800 quilómetros, ligando o Chile à Austrália, com operação prevista para 2027. A nova administração chilena invocou-o, num primeiro momento, como argumento para tornar desnecessário o cabo chinês. A Austrália e os Estados Unidos mantêm acordos de partilha de informações de longa data, o que significa que o tráfego de dados que circular pelo cabo Humboldt passará por jurisdições alinhadas com Washington.
O impasse atual
O Chile aprovou a proposta da China Mobile em janeiro de 2026. Dois dias depois de funcionários do ministério serem convocados à embaixada americana em Santiago, a aprovação foi retirada, com a justificação oficial de “erro técnico.” O então presidente Gabriel Boric confirmou publicamente que a retirada resultou de pressão americana e de ameaças de consequências de longo prazo.
O presidente José António Kast, empossado em março de 2026, quer manter boas relações com a China — que continua a ser o principal parceiro comercial do país — sem confrontar a administração Trump. A posição oficial oscilou entre declarar o projeto encerrado e afirmar que “continua a ser avaliado.”
Funcionários governamentais foram sancionados por realizarem procedimentos administrativos previstos na legislação nacional — a avaliação de uma proposta comercial apresentada por uma empresa estrangeira. Não houve aprovação final de um contrato, nem transferência de tecnologia, nem acordo de qualquer natureza.
Noutros pontos da região, o mesmo debate decorre em condições diferentes. O Brasil avança com um projeto de cabo próprio ligando o país à China, à Índia, à Rússia e à África do Sul. Após as revelações de Edward Snowden sobre os programas de vigilância americana, o Brasil e a União Europeia aceleraram a construção do EllaLink — precisamente para contornar o território e a jurisdição americanos.
O que está por decidir
O cabo Chile-China Express não está formalmente cancelado nem aprovado. Qualquer decisão sobre infraestrutura digital tem agora consequências diplomáticas explícitas, independentemente do mérito da proposta em análise.
A questão de fundo — como os países da América do Sul acedem à Ásia sem depender exclusivamente de infraestrutura controlada por empresas americanas — permanece sem resposta. O cabo Humboldt, quando ficar operacional, aumentará a capacidade disponível. Não resolverá o problema da diversificação de rotas nem da jurisdição sob a qual o tráfego de dados circula.
Toda a costa ocidental da América do Sul comunica com a Ásia através de cabos que passam pelos Estados Unidos. O cabo Chile-China Express, que ligaria Valparaíso a Hong Kong, foi aprovado e retirado em janeiro de 2026.
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