A queda das forças apoiadas por Riade perante os houthis fecha, esta semana, o capítulo militar mais humilhante da guerra do Iémen. O benefício económico do colapso, porém, não está a ser cobrado por quem combateu, mas por quem nunca disparou um tiro: chega através do preço do petróleo.
Como o avanço dos Houthis está a disparar o preço do petróleo
Hassan enterrou a sua AK-47 no deserto e fingiu ser um civil deslocado para conseguir chegar ao território controlado pelo governo, mais a sul. O combatente iemenita, que pediu ao Financial Times para ser identificado apenas pelo primeiro nome, percebeu que os seus comandantes tinham fugido e que ninguém viria apoiar os homens deixados na linha da frente. Seguiu para Aden.

Outro combatente, identificado como Rami, sentiu-se traído. Quando descobriu que os comandantes haviam desertado, alguns homens já vendiam as armas e outros rendiam-se. Rami pagou a contrabandistas para o guiarem pelas montanhas até Taiz.
Nas últimas semanas, as forças alinhadas com o governo internacionalmente reconhecido do Iémen, armadas e treinadas pela Arábia Saudita, desmoronaram-se perante uma ofensiva houthi. Riade tinha, segundo analistas citados pelo Financial Times, até 400 mil combatentes iemenitas na folha de pagamento antes da ofensiva. Não chegou.
O colapso resultou de relações frágeis entre facções, subestimação do adversário, falhas de informações, má coordenação e um sistema de comunicações incapaz de sustentar a defesa. A rutura anterior entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos agravara o problema. A retirada das tropas emiratenses contribuiu para a dissolução de uma das forças de combate mais eficazes do sul do país. Farea al-Muslimi, do Chatham House, resumiu a distância acumulada: o governo iemenita tem hoje em armas e capacidade aquilo que os houthis já possuíam há sete ou nove anos.
A derrota tem um precedente. Na década de 1960, as tribos zaiditas do norte do Iémen, no meio social e religioso do qual os houthis viriam mais tarde a emergir, contribuíram para impor ao exército egípcio apoiado por Nasser uma guerra muito mais longa e dispendiosa do que o Cairo previra. Neste século, os houthis conseguiram resistir a uma coligação apoiada pela Arábia Saudita, que já antes fora obrigada a recuar no Iémen.
Mudou sobretudo a tecnologia disponível. A expansão dos drones deu a potências médias como o Irão, e a atores não estatais como os houthis, meios relativamente baratos para deter exércitos regulares e atingir infraestruturas críticas. Do outro lado da Península Arábica, a mesma transformação da guerra interrompeu o tráfego pelo Estreito de Ormuz e estrangulou parte da produção do Golfo.

Enquanto as forças apoiadas por Riade recuavam no Iémen, a China ocupava no mercado petrolífero o espaço temporariamente deixado pela OPEP. Antes do conflito, atravessavam Ormuz cerca de 15 milhões de barris de petróleo por dia, além de cinco milhões de barris de produtos refinados. A paralisação de parte dessa produção deu à maior importadora mundial de petróleo uma influência excecional sobre os preços.
Pequim reduziu as importações de 11 para 5,5 milhões de barris diários sem sacrificar o crescimento da economia. Recorreu às reservas estratégicas acumuladas durante anos de preços baixos, estimadas em 1400 milhões de barris, cerca de quatro vezes o volume detido pelos Estados Unidos, e restringiu as exportações de produtos refinados.
Durante meses, essa intervenção ajudou a reduzir o preço do petróleo em cerca de 30 dólares por barril e foi descrita como benigna. No início de setembro, quando os houthis apertaram o cerco ao Mar Vermelho e ao Bab al-Mandeb, as ordens de compra chinesas voltaram a aumentar. A inversão é agora um dos fatores que alimentam a nova subida do preço do petróleo.
Não existe coordenação conhecida entre os houthis e a China. Os houthis agem sobretudo em benefício próprio. Querem que a Arábia Saudita permita a livre circulação nos portos e aeroportos sob o seu controlo, exigem que Riade pague salários nos territórios que dominam e reclamam acesso às receitas petrolíferas do Iémen. Procuram cobrar uma renda política e económica pela passagem numa rota que conseguem ameaçar.
A China não precisou de negociar qualquer posição com os houthis para beneficiar da escassez que eles ajudam a produzir. Comprou e vendeu no momento mais favorável, aplicando ao petróleo a paciência estratégica que há décadas utiliza nos mercados de terras raras, cobalto congolês e níquel indonésio.

Por isso, o que acontece no Golfo não corresponde a uma simples sucessão de potências. Um ator armado extrai uma renda local e um ator económico obtém uma vantagem global. Fazem-no separadamente, sem responderem perante Washington ou Riade. Não há um novo poder a assumir todas as funções do anterior. Há capacidades diferentes a ocupar partes do espaço que a Arábia Saudita e os Estados Unidos deixaram de controlar.
O custo já não fica contido na região. A destruição de refinarias no Golfo e os ataques ucranianos contra algumas das maiores refinarias russas empurraram o preço do gasóleo para máximos históricos nos Estados Unidos. A margem de refinação do gasóleo ultrapassou os 100 dólares, um valor sem precedentes. Portugal gastou mais 1300 milhões de euros em combustíveis apenas nos primeiros seis meses de 2026.
Para quem está longe do Iémen, o colapso das forças apoiadas por Riade não chega através das imagens dos combatentes que enterram as armas no deserto. Chega no preço do combustível.
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