Presidente anuncia proibição «imediata» a três órgãos de comunicação social, mas horas depois os jornalistas continuavam a trabalhar nos terrenos da Casa Branca, sem sinais de execução da medida.
Trump proíbe CNN, MS NOW e Politico de acederem à Casa Branca, com efeito «imediato» e sem citar uma notícia concreta como motivo. O anúncio foi feito na sexta-feira através da Truth Social, mas horas depois os jornalistas das três organizações continuavam a trabalhar nos terrenos, sem sinais de que a proibição estivesse a ser aplicada.
Uma proibição sem mecanismo visível
Questionado sobre a execução da medida, Trump respondeu apenas que «não os quer» no seu gabinete. Não esclareceu se as credenciais seriam revogadas, se os jornalistas seriam impedidos de entrar nos terrenos da Casa Branca ou se a exclusão abrangeria apenas determinados espaços e acontecimentos.

Na publicação, Trump apresentou acusações diferentes contra cada órgão. Sobre a MS NOW, escreveu que o canal «mudou recentemente de nome, vindo da MSNBC, por falta de audiência e credibilidade». Referia-se à separação dos canais por cabo da NBCUniversal, concluída em 2025, que deu origem à nova marca.
À Politico, atribuiu o recebimento de uma subscrição federal «ilegal e ridícula», no valor de oito milhões de dólares, durante a Administração Biden. A publicação rejeitou a acusação, que classificou como falsa e já «amplamente desmentida».
Trump não identificou qualquer notícia da CNN, da MS NOW ou da Politico como fundamento direto da proibição. Disse que a decisão resultava das «histórias cumulativas dos últimos dois anos».
O precedente da Associated Press
A Associated Press processou a Casa Branca depois de, em janeiro de 2025, ter sido impedida de aceder ao Salão Oval e ao Air Force One. O processo continua em tribunal e já obrigou a Administração a manter acesso parcial aos fotógrafos da agência. As decisões tomadas até agora mostram a dificuldade de sustentar judicialmente exclusões motivadas pelo conteúdo editorial, embora estas possam produzir um efeito dissuasor enquanto os processos decorrem.
A CNN contratou Ted Boutrous, advogado especializado na Primeira Emenda, para responder à proibição. A estação afirmou ter «o direito, ao abrigo da Constituição dos Estados Unidos», de prosseguir a cobertura «sem impedimento ou interferência do Governo». A Politico declarou que continuará a informar com isenção sobre a atual administração e as seguintes.

Jameel Jaffer, do Knight First Amendment Institute, classificou a medida como «inconstitucional». Bruce D. Brown, do Reporters Committee for Freedom of the Press, considerou-a um caso de «discriminação de conteúdo direta do manual». Seth Stern, da Freedom of the Press Foundation, afirmou ser «difícil imaginar uma violação mais flagrante da Primeira Emenda». Para o National Press Club, a decisão procura «controlar que vozes têm permissão para testemunhar e relatar o exercício do poder presidencial».
Parte de um padrão mais amplo
Uma análise publicada dias antes pelo New York Times descreveu o alargamento, nos últimos vinte meses, dos instrumentos usados pela Administração Trump contra órgãos de comunicação social. O FBI enviou agentes a casas de jornalistas para entregar intimações e, num dos casos, apreender equipamento. O Pentágono afastou o diretor e o editor do Stars and Stripes, jornal tradicionalmente independente da cadeia de comando militar. O financiamento da rádio e da televisão públicas foi cortado.
A Casa Branca assumiu ainda o controlo do grupo de jornalistas que acompanha o presidente, passando a decidir que órgãos podem integrar a press pool. No índice dos Repórteres Sem Fronteiras, os Estados Unidos ocupam agora o 64.º lugar em liberdade de imprensa, a posição mais baixa do país desde a criação do índice, em 2002. Surgem entre o Panamá e o Botsuana.

Uma ameaça ainda por executar
Sem indicações claras sobre a aplicação da proibição, a CNN, a MS NOW e a Politico mantêm, por enquanto, equipas nos terrenos da Casa Branca e preparam uma eventual resposta jurídica. Trump avisou que «outros» órgãos poderão ser excluídos e já mencionara o New York Times e o Washington Post como possíveis alvos.
A possibilidade de uma derrota judicial não elimina o efeito imediato do anúncio. As redações ficam obrigadas a preparar-se para perder o acesso, mesmo que a medida venha posteriormente a ser considerada inconstitucional.
Ao contrário de conflitos anteriores, a proibição que Trump impôs à CNN, à MS NOW e à Politico não visa um jornalista específico, mas três organizações inteiras. Falta saber se a Casa Branca revogará credenciais ou impedirá fisicamente os seus profissionais de entrar. Até isso acontecer, a medida permanece uma ameaça presidencial sem mecanismo público de execução.
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