ANÁLISE | Doutrina Militar 2026 — Resposta Europeia
Berlim Corta Pensões, Roma Muda os Números, Madrid Diz Que Não
A NATO tem uma só meta de 5% do PIB para toda a Aliança. Mas os três maiores exemplos de como a cumprir mostram três respostas incompatíveis entre si — e nenhuma delas é o esforço partilhado que o número sugere.
A pergunta sobre se os aliados europeus, a quem Washington pede agora para assumirem sozinhos a dissuasão da Rússia, estão de facto a preencher esse lugar tem uma resposta parcial na meta de 5% da NATO: 5% do produto interno bruto em defesa até 2035, decidida na cimeira de Haia, em junho de 2025, repartida entre 3,5% de despesa militar central e até 1,5% em investimento de segurança mais alargado. É uma meta única para 32 países.

A Alemanha escolheu o caminho mais transparente e também o mais caro politicamente. Berlim isentou a despesa de defesa acima de 1% do PIB do travão constitucional à dívida, mantendo esse travão intacto em tudo o resto — o que forçou cortes sociais concretos: as comparticipações do seguro de saúde sobem 50%, a cobertura de dependentes é retirada a centenas de milhares de pessoas e as pensões passam a uma “cobertura básica” que o próprio chanceler Friedrich Merz reconhece não manter o nível de vida atual. A poupança projetada é de 19,3 mil milhões de euros em 2026, a caminho de 38 mil milhões até 2030. Nas sondagens, a AfD subiu a 29%, contra 20% da coligação governativa CDU/CSU — uma vantagem de nove pontos, a maior alguma vez registada por qualquer dos dois partidos.
Roma reclassificou como infraestrutura militar a ponte sobre o Estreito de Messina, orçada em 13,6 mil milhões de euros, com o argumento de que poderia, em teoria, suportar a passagem de tanques. Equacionou também contar as patrulhas da guarda costeira e da guarda de finanças para o total da despesa de defesa. Giorgia Meloni pôde assim prometer que Roma não desviaria “um único euro” de outras prioridades. O número sobe sem corresponder a nova despesa real na mesma medida.
Madrid mantém a despesa de defesa perto de 2,1% do PIB, protege explicitamente a saúde e a educação e recusa formalmente o compromisso de 5%. A posição fica sem consequência visível dentro da Aliança e oferece a outros governos relutantes um argumento pronto para adiarem também os seus próprios compromissos.
A Polónia já está em 4,68% de despesa militar central só para 2026, e os países bálticos ultrapassam os 5% no mesmo indicador, isoladamente — sem cortes sociais equivalentes aos alemães nem reclassificações contabilísticas equivalentes às italianas, mas também sem o mesmo PIB nem a mesma almofada orçamental para absorver o custo.
Em 2025, os aliados europeus e o Canadá aumentaram a despesa de defesa em mais de 90 mil milhões de dólares, quase 20% acima do ano anterior, elevando o total conjunto a mais de 571 mil milhões de dólares — o equivalente a cerca de 2,3% do PIB combinado, ainda muito longe não só dos 5% totais, mas também dos 3,5% que a própria NATO define como despesa militar central mínima.

O apoio público ao aumento da despesa está a cair, não a subir: de 74% em abril de 2024 para 67% em setembro de 2025. A Itália é particularmente resistente, com 48%, face à Polónia, com 86%. A proximidade geográfica à Rússia, mais do que qualquer fórmula comum da Aliança, continua a separar quem trata a meta como necessidade imediata de quem pode adiá-la.
A meta de 5% da NATO foi desenhada precisamente para que Washington não tivesse de negociar o esforço aliado país a país. Mas um compromisso que a Alemanha paga em pensões, que a Itália paga em definições contabilísticas e que a Espanha simplesmente recusa pagar não é um esforço partilhado — é o mesmo número a fazer três trabalhos diferentes, nenhum deles equivalente aos outros dois. É exatamente o mesmo desfasamento entre o vocabulário da doutrina e o que os números mostram que já se via do lado americano: também aqui, uma meta escrita em conjunto está a ser cumprida sozinha, cada capital à sua maneira.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.



Comentar como Convidado