Em agosto de 2026, Washington tem bases danificadas no Bahrein e nos Emirados para reconstruir. A resposta habitual seria reparar as instalações, rearmar os aliados e recuperar a capacidade militar anterior à guerra.
Mas as bases atingidas não eram apenas instalações. Eram a parte física de uma garantia americana que, durante 35 anos, sustentou a ordem do Golfo. A guerra mostrou que essa garantia pode coexistir com ataques diretos aos próprios Estados que dela dependem.
Washington pode reparar as bases americanas no Golfo: reconstruir as pistas, substituir os radares, instalar novas baterias antimíssil e repor os equipamentos destruídos. Desde a Guerra do Golfo de 1990-91, as instalações americanas na região transmitiam uma promessa: um ataque contra os aliados dos Estados Unidos encontraria uma capacidade militar suficiente para o impedir ou punir.
Em 2026, as bases foram atingidas. Os países que as acolhiam foram arrastados para uma guerra que não decidiram e o adversário que os ataques pretendiam neutralizar permaneceu no poder.
O que garantiam as bases americanas no Golfo
A ordem criada em 1990-91 assentava numa troca relativamente simples. Os Estados Unidos colocavam forças, bases e sistemas de defesa aérea na região, protegendo os governos aliados contra ameaças externas e contribuindo para a sua sobrevivência política. Em contrapartida, os Estados do Golfo aceitavam uma ordem regional na qual Israel ocupava uma posição central e o Irão permanecia do lado de fora.
Os aliados não tinham de seguir Washington em todas as decisões. Bastava que nenhum deles encontrasse uma alternativa mais segura à proteção americana.
Israel manteve a presença militar em Gaza, na Cisjordânia, no sul do Líbano e na Síria. Os aliados árabes dos Estados Unidos intervieram no Iémen, na Síria e no Sudão. Em 2017, a Arábia Saudita e os Emirados bloquearam o Qatar, dividindo a frente que Washington pretendia manter unida contra Teerão.
Nada disso pôs fim à arquitetura. Os Estados Unidos toleravam a autonomia dos aliados, que continuavam dentro do seu sistema de segurança. A presença militar reduzia o risco de as consequências dessas decisões ultrapassarem determinados limites.
Os ataques que abalaram a garantia americana
Em 2019, as refinarias sauditas foram atacadas sem uma resposta americana que restabelecesse a perceção de invulnerabilidade. O ataque atingiu o centro da produção petrolífera saudita. Riade esperava uma resposta militar que não chegou nos termos previstos.
Em 2022, os Houthis atingiram Abu Dhabi com drones. A aliança voltou a sobreviver. Acolher bases americanas, contudo, já não bastava para afastar a ameaça.

A Arábia Saudita começou a preparar-se para um sistema menos previsível. Ao longo de 2025, aprofundou a coordenação de defesa com o Paquistão e a Turquia e reforçou os laços com o Egito e o Qatar. Vários analistas leram esse movimento como um contrapeso ao eixo entre os Emirados e Israel, apoiado por Washington.
Em 2023, a Arábia Saudita reaproximou-se do Irão, com mediação chinesa. Riade não abandonou a relação com os Estados Unidos nem passou para o campo iraniano. Começou a negociar diretamente com o país de que Washington prometia protegê-la.
Quando os ataques começaram, no final de fevereiro de 2026, Omã mediava um entendimento entre Washington e Teerão. Os governos do Golfo opunham-se à guerra, mas souberam que o conflito começaria depois de a decisão americana ter sido tomada.
O Irão respondeu atingindo vários países da região. Entre os alvos estavam Omã e o Qatar, que, até então, desempenhavam funções de mediação. O Bahrein e os Emirados, signatários dos Acordos de Abraão de 2020, receberam a maior parte dos mísseis. As bases que materializavam a proteção americana ficaram danificadas ou perderam parte da sua utilidade.
Os dois países sofreram a retaliação iraniana por uma decisão tomada pelo Estado que garantia a sua segurança, sem terem participado nessa decisão.
As bases americanas no Golfo alojavam os meios usados nas operações e identificavam os países que faziam parte do dispositivo de Washington. Ofereciam ao Irão alvos através dos quais podia responder sem atacar diretamente o território dos Estados Unidos. A importância de cada instalação para a estratégia americana aumentava o risco suportado pelo país que a acolhia.
A campanha não produziu o resultado que permitiria regressar simplesmente ao dispositivo anterior. O regime iraniano sobreviveu. Continuou a dispor de uma rede de aliados não estatais que se expandiu nos vazios de autoridade deixados por décadas de guerra na região. Mísseis e drones relativamente baratos conseguiram impor custos a sistemas defensivos muito mais caros.
Washington pode instalar mais baterias, radares e intercetores. O Irão precisa de conservar a capacidade de lançar projéteis em número suficiente para saturar as defesas ou obrigar os Estados Unidos a gastar muito mais na interceção do que Teerão gasta nos ataques.
A partilha de informações, a defesa do espaço aéreo e a proteção da navegação continuam a ser necessárias. Os países do Golfo não deixaram de precisar das capacidades americanas. Depois de 2026, porém, terão de avaliar cada instalação pelo que ela efetivamente protege e pelo risco que acrescenta quando Washington decide utilizá-la.
Os entendimentos diretos com Teerão não substituem a defesa americana nem eliminam a disputa regional. Dão aos Estados do Golfo uma proteção suplementar quando a presença militar dos Estados Unidos não basta para conter o risco.
Um novo acordo nuclear também não resolveria as rivalidades entre o Irão, Israel e os Estados árabes. Poderia abrir espaço para Washington negociar com um Estado que já demonstrou capacidade para atingir a arquitetura de segurança regional. Sem esse entendimento, os Estados Unidos continuarão a construir o dispositivo à volta do Irão, na expectativa de que a acumulação de força torne permanente a sua exclusão.
Israel e os custos regionais da proteção americana
Israel coloca outro problema. Afirma que não sairá do sul do Líbano, mantém posições na Síria e prossegue a expansão territorial na Cisjordânia. Segundo uma sondagem da Universidade de Quinnipiac, divulgada em junho de 2026, cerca de dois terços dos democratas consideram que os Estados Unidos apoiam Israel em excesso.
As decisões israelitas produzem consequências nos países árabes que Washington procura manter seguros. Se o apoio americano permanecer desligado dessas consequências, os Estados Unidos continuarão a proteger os seus aliados dos efeitos de uma política israelita sobre a qual não exercem pressão suficiente.
Com a breve exceção de 2010-2011, os regimes autoritários da região sobreviveram e, em vários casos, reforçaram o controlo interno. O Egito e a Tunísia prenderam opositores. Outros governos participaram em guerras por procuração ou apoiaram diferentes atores armados.
No Iraque e no Líbano, a pressão para eliminar milícias não foi acompanhada pela construção de uma alternativa estatal com capacidade equivalente. Na Síria e no Iémen, o apoio a projetos secessionistas e a forças concorrentes fragmentou ainda mais a autoridade. No Sudão, o envolvimento de atores regionais alimentou outro foco de guerra.
A proteção americana conteve ameaças contra os regimes sem obrigar esses governos a construir Estados capazes de absorver os conflitos que os rodeavam. Milícias, redes armadas e potências regionais ocuparam os espaços deixados em aberto. Foi também nesses espaços que o Irão desenvolveu parte da capacidade que lhe permitiu resistir em 2026.
A guerra interrompeu o tráfego marítimo e reduziu as receitas egípcias do Canal do Suez. Ao mesmo tempo, os cortes na ajuda americana e a diminuição do investimento do Golfo comprimiram outras fontes de receita externa. A subida dos preços dos combustíveis e dos alimentos agravou a pressão sobre uma economia já vulnerável.
Gaza acrescenta descontentamento popular a esse quadro. O Governo egípcio dispõe de instrumentos repressivos para conter protestos, como fez noutras ocasiões da última década e meia. Dispõe de menos recursos para eliminar as causas económicas e políticas que os podem provocar.
O apoio a governos que não precisam de responder plenamente às suas populações pode preservar a estabilidade durante algum tempo. Quando uma guerra começa, esses governos têm pouca margem para justificar internamente decisões tomadas no exterior. A dependência americana torna-se então mais difícil de sustentar.
Reconstruir as bases sem repetir a estratégia
Os ataques de 2019 e 2022 mostraram que a arquitetura de segurança no Golfo podia ser atravessada. Em 2026, os ataques chegaram às instalações que constituíam a sua parte mais visível.
Ao reconstruir as bases do Bahrein e dos Emirados, Washington terá de decidir que missão lhes atribui. Recuperar a mesma capacidade para procurar restabelecer a primazia anterior manterá os países aliados expostos a decisões que não controlam e a respostas iranianas que as bases já não conseguem impedir.
Uma missão concentrada na defesa efetiva do território, na proteção da navegação e na partilha de informações exigiria uma presença militar menos confundida com o domínio político da região.
As bases americanas no Golfo continuarão provavelmente a funcionar. A reconstrução não devolverá aos governos que as acolhem a convicção de que a sua existência os impede de serem arrastados para uma guerra decidida em Washington e que os Estados Unidos não conseguem controlar.
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