Nos últimos dias, o governo de Benjamin Netanyahu lançou um concurso público para mais de 1200 casas de colonos, alargando os colonatos na Cisjordânia numa localização escolhida para separar entre si as áreas remanescentes sob a administração palestiniana.
Colonatos na Cisjordânia: dez anos depois
A União Europeia e mais de vinte governos, entre os quais o Reino Unido, a França e a Alemanha, consideraram o gesto suficientemente grave para pedir formalmente a Israel que retirasse o concurso, alertando que a construção abriria uma cunha através do território. Os Estados Unidos não subscreveram essa declaração conjunta, mas a administração Trump reiterou, por outra via, a sua oposição a uma anexação formal da Cisjordânia, argumentando que uma Cisjordânia estável contribui para a segurança de Israel.
Os dados compilados nos últimos anos por organizações internacionais e analistas independentes permitem medir a alteração ocorrida no terreno. A questão passa por saber quanto da Cisjordânia permanece territorialmente disponível para uma administração palestiniana com continuidade.

O marco de 2016
Em dezembro de 2016, nas últimas semanas da administração Obama, os Estados Unidos abstiveram-se de vetar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenava os colonatos israelitas, permitindo a sua aprovação. Dias depois, o secretário de Estado John Kerry defendeu essa decisão num discurso em que avisou que a expansão dos colonatos estava a consolidar uma realidade irreversível de um único Estado entre o rio Jordão e o Mediterrâneo, com uma população judaica e palestiniana em números aproximadamente equivalentes. Kerry colocava a questão em termos existenciais para o próprio projeto de Israel como Estado simultaneamente judeu e democrático: sem uma separação territorial funcional, sustentava, Israel teria de escolher entre governar uma população não judaica de dimensão comparável à sua ou abdicar do carácter judaico do Estado.
Foi Frank Lowenstein, então enviado especial dos Estados Unidos para as negociações israelo-palestinianas, quem levou a Obama os primeiros mapas detalhados que tornaram esse risco visível. Uma década depois, Lowenstein, atualmente policy fellow na organização J Street, continua a atualizar esse trabalho de mapeamento com o seu associado Liam Hamama, cruzando dados do próprio governo israelita, da organização Peace Now, da autoridade administrativa palestiniana na Cisjordânia e de agências da ONU. Foi nesse trabalho que se baseou uma reportagem recente da revista norte-americana The New Yorker, assinada pelo jornalista David D. Kirkpatrick.
A aceleração desde 2023
Mais de 500 mil colonos judeus residem atualmente na Cisjordânia, entre mais de três milhões de palestinianos, num território que a resolução da ONU de 1947 já destinava a um futuro Estado palestiniano. Ao longo dos oito anos da administração Obama, Israel aprovou três novos colonatos. Desde o início de 2023, quando o atual governo tomou posse, aprovou 104. No mesmo período, autorizou a construção de mais de 58 mil unidades habitacionais, e o número total de colonatos e de postos avançados (assentamentos ainda não oficialmente autorizados) mais do que duplicou, passando de cerca de 300 para cerca de 640.

Violência e deslocação
A expansão física dos colonatos tem sido acompanhada por um aumento dos ataques contra a população palestiniana, muitas vezes sob a proteção ou aprovação aparente das forças de segurança israelitas. A ONU registou 107 ataques de colonos contra pessoas ou bens palestinianos em 2016. Desde 2023, esse número subiu para mais de 5300, uma média superior a quatro ataques por dia. Só nos primeiros sete meses de 2026 foram documentados pelo menos 1380 ataques, mais de seis por dia, com 76 palestinianos mortos nesse intervalo. No total, desde 2023, mais de 1100 palestinianos na Cisjordânia foram mortos por colonos ou por forças de segurança israelitas. No mesmo período de três anos, segundo a ONU, demolições e ações de intimidação deslocaram, total ou parcialmente, 117 comunidades palestinianas, desenraizando mais de 5900 pessoas.

Gaza no mesmo mapa
As operações militares israelitas ocuparam, desde então, mais de 65% do território de Gaza e danificaram ou destruíram mais de 90% das habitações existentes. Quase todos os dois milhões de residentes de Gaza vivem hoje concentrados em campos de tendas nos restantes 35% do território, depois de uma ofensiva que já matou mais de 70 mil palestinianos.
Formalmente, Gaza e a Cisjordânia são dossiês distintos. Nos mapas de Lowenstein, os dois territórios aparecem ligados pela questão da continuidade territorial de uma futura administração palestiniana.
Uma linguagem política diferente
Lowenstein recorda que, quando exercia funções como enviado especial, Netanyahu e outros dirigentes israelitas ainda professavam apoio, pelo menos formal, a um Estado palestiniano futuro, mesmo que distante e hipotético. Essa formulação já não descreve a posição política dominante em Israel. Em 2025, o Knesset aprovou uma resolução não vinculativa que afirma que Israel tem um direito natural, histórico e legal à Cisjordânia e a Gaza. Netanyahu faz agora campanha para a reeleição sobre a promessa de nunca permitir a criação de um Estado palestiniano, e figuras de extrema-direita do seu governo sugeriram publicamente a possibilidade de expulsar os palestinianos que vivem em Gaza. Lowenstein descreve esta transição como uma mudança de paradigma: de um quadro em que Israel discutia, ainda que sem compromisso firme, um horizonte de autodeterminação palestiniana, para um quadro em que reivindica o direito pleno sobre a totalidade do território.
A aritmética do território
Em 1947, a resolução de partilha da ONU atribuía aos palestinianos cerca de 43% do território entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. Nas guerras que se seguiram à criação do Estado de Israel, essa proporção inverteu-se: Israel passou a controlar cerca de 78% do território, deixando 22% aos palestinianos. Os Acordos de Oslo, assinados há mais de trinta anos, converteram parte dessa fração remanescente em áreas de administração palestiniana limitada, concebidas como um primeiro passo para um controlo mais alargado da Cisjordânia e de Gaza. Segundo o mapeamento mais recente de Lowenstein e Hamama, os colonatos, os postos avançados e as operações militares em Gaza confinam hoje o controlo palestiniano efetivo a cerca de 8% do território total entre o rio e o mar. Israel controla, direta ou indiretamente, os restantes 92%.

O território que resta
Nenhum destes números determina, por si só, qual deverá ser a solução política para o conflito. Segundo o mapeamento de Lowenstein e Hamama, os colonatos, os postos avançados e as operações militares em Gaza deixam hoje o controlo palestiniano efetivo em cerca de 8% do território total entre o rio e o mar.
A distância entre esse mapa e a linguagem diplomática da solução de dois Estados é uma questão territorial. A continuidade necessária para esse projeto é cada vez mais difícil de encontrar no terreno.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.



Comentar como Convidado