Os robôs dançam na China. A Europa discute o perigo

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A China leva a robótica das fábricas às escolas. A Europa regula uma tecnologia que produz menos, enquanto Portugal depende de clubes e professores.

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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Da gala do Ano Novo às salas de aula, a China apresenta a inteligência artificial como uma promessa coletiva. Portugal já tem jovens a programar e a construir robôs, mas ainda não transformou essa experiência numa ideia nacional de futuro

Na noite em que centenas de milhões de chineses se sentaram diante da televisão para acompanhar a Gala do Festival da Primavera, os robôs não apareceram como uma experiência de laboratório ou uma promessa distante. Estavam no centro do palco. Os humanoides G1, da empresa chinesa Unitree, executaram movimentos de kung fu, parkour e dança, manejaram bastões e nunchakus e regressaram, pelo segundo ano consecutivo, ao programa televisivo mais visto do país.
As imagens atravessaram rapidamente as redes sociais ocidentais. Muitos dos comentários diziam, em tom de brincadeira ou inquietação, que a corrida estava perdida. Na principal celebração familiar do país, a China mostrava aos seus cidadãos uma determinada imagem do futuro.
A escritora chinesa Afra Wang viu nessa gala um retrato momentaneamente nítido da relação do país com a tecnologia. Num ensaio publicado na newsletter Concurrent, aproximou os robôs da Unitree de outro acontecimento daquele Ano Novo: Jia Zhangke, um dos realizadores chineses mais reconhecidos internacionalmente, elogiou o gerador de vídeo Seedance, da ByteDance, e apresentou uma curta-metragem realizada com a ferramenta.
Jia construiu grande parte da sua obra sobre aquilo que a modernização chinesa destruiu ou deixou para trás. Filmou cidades transformadas e comunidades deslocadas, acompanhando vidas comuns apanhadas por decisões tomadas muito longe delas. Nesta curta-metragem, usou a ferramenta para pôr duas versões de si próprio a conversar diante do rio Amarelo gelado.
Na China, observa Afra Wang, a inteligência artificial ainda pode ser apresentada como continuação do progresso. Nos Estados Unidos e em grande parte da Europa, chega acompanhada pela memória da desindustrialização, pelo receio de perder o emprego, pela apropriação do trabalho criativo e pela concentração de poder em empresas que não pediram autorização às sociedades que pretendem transformar.
No AI Monitor 2026, da Ipsos, 64% dos inquiridos na região Ásia-Pacífico declararam sentir entusiasmo perante produtos e serviços baseados em inteligência artificial. Na Europa, foram 39%. Metade dos europeus afirmou sentir nervosismo.

A escala industrial

Segundo a Federação Internacional de Robótica, a China instalou 295 mil robôs industriais em 2024. Foi responsável, sozinha, por 54% de todas as novas instalações mundiais. O país ultrapassou os dois milhões de robôs industriais em funcionamento e, pela primeira vez, os fabricantes chineses venderam internamente mais unidades do que os fornecedores estrangeiros. Dez anos antes, a quota das empresas nacionais rondava 28%. Em 2024 chegou a 57%.
A Ásia recebeu 74% dos novos robôs industriais instalados nesse ano. A Europa ficou com 16% e as Américas com 9%. A União Europeia instalou 67 800 unidades, menos de um quarto do total chinês.
A Alemanha continua a ser o quinto maior mercado mundial, e empresas europeias ocupam posições importantes na automação industrial. Enquanto o debate europeu se concentra frequentemente na forma de limitar os danos futuros, a China procura transformar a IA e a robótica em capacidade produtiva presente.
Atrás do robô televisivo encontram-se fabricantes, cadeias de fornecimento, engenheiros, concorrência feroz, investimento público e um mercado interno com uma dimensão que permite testar, corrigir e produzir em massa.
Nas redes sociais chinesas, os utilizadores perguntam à Unitree quando poderão montar um cão-robô para ir às compras ou quando chegará um robô capaz de cuidar dos idosos. O tom alterna entre a brincadeira e a preocupação com o envelhecimento da população.

Robôs industriais numa instalação moderna de soldadura automóvel
Uma instalação de soldadura automóvel com robôs industriais no Museu Industrial de Chemnitz. A escala fabril ajuda a explicar a diferença entre a adoção chinesa e a europeia. Fotografia: Norbert Kaiser/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O ensino começa cedo

Em 2025, Pequim determinou que as escolas do ensino obrigatório oferecessem pelo menos oito horas anuais de educação em inteligência artificial. O programa inclui compreensão dos sistemas, aplicações práticas, inovação, ética e responsabilidade social.
Em abril de 2026, o Governo chinês anunciou a intenção de desenvolver um sistema nacional de literacia em IA. Para as escolas primárias e secundárias, o plano prevê a integração da matéria nos currículos locais, em atividades interdisciplinares, nos programas depois das aulas e em visitas de estudo. Inclui ainda uma preocupação explícita com escolas rurais e remotas, às quais deverão chegar cursos através de plataformas nacionais.
Oito horas por ano não fazem de uma criança um engenheiro. Um anúncio governamental também não garante que uma escola rural disponha de professores, equipamentos ou liberdade para concretizar o programa. A China é demasiado desigual para que uma orientação de Pequim produza a mesma experiência em todo o território.
Nos clubes de robótica, o pedido escrito num ecrã dá lugar a motores, sensores, estruturas, erros de montagem e código que tem de produzir um movimento no mundo. Quem constrói o robô trabalha sobre uma tecnologia feita por outras pessoas e pode modificá-la.

Os clubes portugueses

No ano letivo de 2023/2024, a Direção-Geral da Educação identificou 393 clubes de programação e robótica em escolas portuguesas. A rede abrangia todos os distritos, as regiões autónomas e diferentes níveis de ensino. A lista do ano seguinte mostra clubes em grandes cidades e em localidades afastadas dos centros habituais: Lisboa, Porto, Gaia, Braga e Coimbra, mas também Vidigueira, Silves, Tavira ou Nordeste, nos Açores.
Nesses clubes, os alunos programam, montam máquinas, participam em competições e resolvem problemas de engenharia. Em 2025, 74% dos portugueses entre os 16 e os 29 anos tinham usado ferramentas de IA generativa nos três meses anteriores, a terceira proporção mais alta da União Europeia. Entre os jovens que escreveram código, Portugal também apareceu nos primeiros lugares europeus.
O país dispõe ainda de formação superior dedicada à inteligência artificial e à ciência de dados na Covilhã, Coimbra, Évora e Porto, além de cursos com designações próximas noutras instituições. Em julho de 2026, apresentou Amália, o primeiro modelo de linguagem aberto desenvolvido especificamente para o português europeu por um consórcio de universidades e centros de investigação.
Em Portugal, a programação e a robótica dependem muitas vezes da existência de um clube, da iniciativa de um professor e das condições de uma escola. A presença em todos os distritos não significa acesso universal. Um ponto num mapa não revela quantos alunos participam, quantas horas têm, que equipamentos encontram ou se o projeto sobreviverá à saída do docente que o criou.

Projeto de robótica infantil apresentado por jovens numa atividade educativa
Um projeto de robótica infantil apresentado em Vladivostok. Em Portugal, experiências semelhantes dependem frequentemente de clubes e professores. Fotografia: Julian9977/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

Regulação e dependência

A União Europeia respondeu à inteligência artificial com o Regulamento da IA, que procura proibir utilizações inaceitáveis, controlar sistemas de risco elevado e estabelecer obrigações de transparência. Direitos fundamentais, discriminação algorítmica, vigilância, autoria e segurança fazem parte do seu âmbito.
A regulação não altera, por si, a origem dos modelos, processadores, plataformas e robôs usados no continente. A Europa pode impor cautela à utilização da tecnologia e continuar dependente daquilo que é concebido noutros lugares.
Parte do receio europeu decorre dessa dependência quando decisões sobre esse futuro são tomadas fora do continente.
Afra Wang lembra que a narrativa chinesa deixa muito de fora. O país conheceu despedimentos industriais em massa no Nordeste durante a década de 1990. Os jovens chineses convivem com desemprego, competição extrema e dúvidas sobre a mobilidade social. Num espaço público fortemente moderado, a contestação é difícil de medir.
Ao pôr robôs a dançar diante do país, o Estado escolheu a forma como queria apresentá-los aos cidadãos. Os robôs estão nas fábricas; os fabricantes chineses ganham quota no mercado interno e as escolas receberam instruções para ensinar a tecnologia.
Quando a IA chega à escola apenas como uma ferramenta para gerar textos, respostas e imagens, os alunos operam um produto acabado. A robótica obriga-os a escrever código, montar componentes e corrigir falhas.
Em Portugal, essa capacidade continua concentrada em clubes cujo futuro depende frequentemente do professor que os mantém.

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Fontes principais

  • Afra Wang, “An AI-Maxi New Year”, Concurrent, 18 de fevereiro de 2026.
  • International Federation of Robotics, World Robotics 2025.
  • Governo da China, plano nacional de literacia em inteligência artificial, abril de 2026.
  • Direção-Geral da Educação, Rede de Clubes de Programação e Robótica.
  • Eurostat, “Young people — digital world”, dados de 2025.
  • Ipsos, AI Monitor 2026.

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