A fabricante chinesa colocou milhares de humanoides no mercado e reduziu fortemente os preços. A DeepSeek entra agora no capital numa altura em que a maior parte dessas máquinas continua destinada a investigação e a utilização industrial permanece limitada.
Unitree chega à bolsa. Mas 74% dos robôs ainda não trabalham
A Unitree chega à bolsa avaliada em 9 mil milhões enquanto três quartos dos seus humanoides ainda vão para investigação
A Unitree Robotics fixou a 6 de agosto em 150,8 yuan por ação o preço da sua entrada na bolsa de Xangai. A operação avalia a fabricante chinesa de robôs em cerca de 61 mil milhões de yuan, aproximadamente 9 mil milhões de dólares, e prevê a emissão de 40,45 milhões de novas ações no STAR Market, com uma captação próxima de 6,1 mil milhões de yuan.
Entre os investidores estratégicos está a DeepSeek. A empresa de inteligência artificial aplicou 140,8 milhões de yuan, cerca de 20,8 milhões de dólares, e acordou colaborar com a Unitree no desenvolvimento de modelos destinados a máquinas humanoides. A cooperação inclui inteligência artificial, engenharia mecânica, controlo de movimento e aquilo a que o setor chama inteligência incorporada.
Segundo os dados citados pela TIME, apenas 9% dos humanoides vendidos pela Ugnitree eram destinados diretamente a aplicações industriais. Outros 17% seguiam para espaços comerciais, exposições, atrações e retalho. Universidades, instituições de investigação e programadores absorviam os restantes 74%.
Universidades e laboratórios compram estes equipamentos para desenvolver software, melhorar sistemas de controlo, recolher dados e testar novos modelos. Uma parte considerável dos humanoides que chegam çao mercado é utilizada no próprio processo de desenvolvimento da tecnologia.
Nas fábricas, os testes são mais limitados. Um robô pode receber uma tarefa específica e repeti-la num ambiente preparado para isso. A dificuldade aumenta quando um objeto aparece noutro lugar, muda a iluminação, surge um obstáculo ou é necessário executar uma ordem que não corresponde exatamente ao que foi treinado.
Wang Xingxing, fundador da Unitree, identifica esta capacidade de adaptação como um dos maiores problemas ainda por resolver. Um humanoide pode executar movimentos complexos e continuar a falhar quando pequenas alterações no ambiente exigem decisões que não estavam previstas no treino.
A oferta atribui, ainda assim, à Unitree uma avaliação próxima de 9 mil milhões de dólares.
A Unitree fabrica sistemas de movimento e componentes, coloca equipamentos junto de clientes e recolhe informação sobre a utilização das máquinas. A DeepSeek entra na colaboração a partir do desenvolvimento de modelos de inteligência artificial. O acordo permite testar esses modelos em sistemas físicos e dá à Unitree acesso a uma empresa especializada precisamente numa área em que os humanoides ainda apresentam limitações importantes.
Os grandes modelos de linguagem puderam ser treinados com enormes quantidades de texto, código, fotografias e outros materiais que já estavam disponíveis em formato digital. A aprendizagem de uma máquina que precisa de agarrar um objeto exige dados diferentes.
Um robô tem de lidar com o peso do objeto, a posição em que este se encontra, o contacto entre superfícies e as alterações que ocorrem enquanto executa a tarefa. Parte dessa informação tem de ser recolhida especificamente para treino robótico.
A TIME descreve a escassez destes dados físicos e tridimensionais como um dos principais obstáculos técnicos da indústria. Há empresas que recorrem a seres humanos equipados com câmaras enquanto executam tarefas quotidianas, precisamente para criar dados capazes de ensinar posteriormente uma máquina a realizar movimentos semelhantes.
Uma estratégia que funcione numa mesa pode perder eficácia quando muda a posição de um objeto ou a superfície sobre a qual ele está colocado. Para que um humanoide possa trabalhar fora de ambientes cuidadosamente preparados, terá de responder a diferenças que não foram antecipadas durante o desenvolvimento.
Os chamados modelos vision-language-action, ou VLA, procuram combinar informação visual, linguagem e controlo de movimentos. Em vez de receber instruções sobre cada gesto, a máquina deverá interpretar uma ordem e organizar as ações necessárias para a executar.
Uma ordem simples para trazer determinada caixa implica reconhecer qual é o objeto pretendido, localizá-lo, calcular um percurso e ajustar os movimentos durante a operação. Pessoas fazem estas correções quase continuamente sem terem consciência de cada uma delas. Para um sistema robótico, cada alteração pode introduzir um problema novo.
Segundo a TIME, o preço antes de impostos do G1 passou de cerca de 16 mil dólares para 13.500 dólares em 18 meses. O R1 é vendido por menos de 5 mil dólares. Nos quadrúpedes da empresa, modelos que chegaram a custar aproximadamente 45 mil dólares podem hoje ser adquiridos por menos de 2 mil.
A produção interna de componentes contribui para essa diferença. A Unitree fabrica, entre outras peças, atuadores responsáveis pelos movimentos das máquinas, componentes que representam uma parte importante do custo de um humanoide.
Os resultados financeiros acompanharam o aumento da produção. A empresa declarou 1,699 mil milhões de yuan de receitas em 2025, mais de quatro vezes o valor obtido no ano anterior. Os humanoides geraram 867,8 milhões de yuan e ultrapassaram os quadrúpedes como principal área de negócio.
No primeiro trimestre de 2026, as receitas aumentaram 68,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro ajustado caiu 52,6%, num período em que a empresa aumentou as despesas de investigação e comercialização.
Em 2025, a Unitree expediu mais de 5.500 humanoides, segundo os números apresentados pela TIME, correspondendo a mais de um quarto de um mercado mundial que ainda permanece pequeno.
Dados divulgados pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação indicam que a China desenvolveu mais de 400 produtos completos de robótica humanoide, mais de metade do total mundial. No primeiro semestre de 2026, os fabricantes chineses de quadrúpedes terão representado perto de 70% das vendas globais desse segmento.
Uma estimativa oficial apresentada em julho apontava também para uma produção chinesa superior a 100 mil humanoides em 2026.
Centenas de fabricantes e uma rede de fornecedores permitem produzir séries maiores e repartir desenvolvimento e componentes por um ecossistema industrial mais amplo. Essa escala facilita reduções de custos que seriam mais difíceis em produções pequenas.
Nada nesses números garante que os 100 mil humanoides previstos para este ano possam executar tarefas gerais de forma autónoma. A estatística das vendas da Unitree continua a colocar a maior parte das máquinas em investigação e desenvolvimento.
Wang Xingxing calcula que poderão faltar entre dois e dez anos para aquilo que descreve como um “momento ChatGPT” da robótica humanoide. Na sua formulação, esse ponto seria atingido quando uma máquina conseguisse executar grande parte das ordens recebidas mesmo em ambientes suficientemente diferentes daqueles em que foi treinada.
Um intervalo entre dois e dez anos não permite, nesta fase, fixar sequer uma proximidade razoável para esse salto tecnológico.
Nenhum resultado divulgado demonstra até agora que os modelos da DeepSeek tenham resolvido a generalização robótica ou que a colaboração entre as duas companhias permita fazê-lo.
O acordo cria, contudo, uma ligação direta entre uma fabricante de hardware e uma empresa dedicada ao desenvolvimento de modelos. A Unitree pode fornecer máquinas e dados de utilização; a DeepSeek pode testar formas de converter perceção e linguagem em ações.
Os 20,8 milhões de dólares investidos pela DeepSeek representam uma participação pequena perante a dimensão da IPO. As áreas anunciadas para a colaboração — modelos de inteligência artificial, controlo de movimento e inteligência incorporada — explicam o interesse industrial do acordo.
Os Estados Unidos representaram 13,3% das receitas da Unitree em 2025. No prospeto da oferta, a empresa identifica tarifas, controlos comerciais, restrições às compras públicas e eventual perda de autorizações como fatores capazes de afetar as vendas e algumas cadeias de fornecimento.
Washington começou também a tratar determinadas categorias de robôs produzidos no estrangeiro como equipamentos relevantes para a segurança nacional.
Esses equipamentos combinam câmaras, sensores, comunicações e capacidade de movimento. Uma intrusão pode atingir tanto os dados recolhidos como os sistemas que comandam deslocações ou outras ações físicas.
A própria Unitree já enfrentou uma vulnerabilidade deste género. Investigadores descobriram anteriormente uma falha associada aos quadrúpedes Go1 que permitia a terceiros consultar a localização dos equipamentos, aceder às câmaras e assumir controlo remoto através de um serviço na nuvem. A empresa encerrou posteriormente esse serviço.
Wang afirma que os produtos podem operar desligados da rede e que não guardam informação ambiental quando o cliente não autoriza essa recolha. O episódio não demonstra qualquer finalidade de espionagem por parte da Unitree; documenta uma vulnerabilidade que obrigou a empresa a eliminar o serviço através do qual o acesso era possível.
A passagem destes equipamentos dos laboratórios para fábricas e outros espaços ocupados por pessoas aumenta as consequências potenciais de uma falha desse tipo.
As restrições norte-americanas criam ao mesmo tempo um problema comercial para fabricantes chineses que procuram crescer fora do mercado doméstico. A Unitree terá de financiar investigação suficiente para tornar os seus equipamentos mais autónomos enquanto um mercado que já representa uma parcela relevante da sua receita aumenta as barreiras à entrada de determinados equipamentos estrangeiros.
A produção em escala dá hoje à Unitree uma posição favorável. O valor económico de uma indústria de humanoides muito maior poderá distribuir-se de outra forma entre fabrico, software, modelos de inteligência artificial e sistemas de controlo.
Em outros setores tecnológicos, a fabricação em grande escala não impediu que componentes ou plataformas produzidos noutros países captassem grande parte das receitas. Também houve casos em que a redução de custos proporcionada pela indústria chinesa alterou o mercado mundial e deslocou concorrentes.
Na robótica humanoide, o mercado ainda é pequeno e a utilização industrial demasiado limitada para permitir saber qual desses padrões se aproximará mais do que venha a acontecer.
A Unitree chega à bolsa depois de ter reduzido preços, aumentado receitas e expedido mais de 5.500 humanoides num ano. A IPO dá-lhe novos recursos para investigação e a participação da DeepSeek cria uma ligação direta a uma empresa especializada em modelos de inteligência artificial.
A distribuição atual das vendas continua muito concentrada fora das fábricas. Segundo os dados citados pela TIME, 74% dos humanoides da Unitree destinavam-se a universidades, instituições de investigação e programadores; apenas 9% seguiam diretamente para aplicações industriais.
É com essa distribuição de clientes que a Unitree chega agora ao mercado de capitais.
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