Starlink: a Europa quer poder decidir sobre a ligação

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O IRIS² prevê 348 satélites e primeiros lançamentos em 2029. Entretanto, a Europa reúne capacidades existentes e reforça redes comerciais. A autonomia exige também garantir quem pode usar o serviço e em que condições.

Economia

Luís Avelar
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Luís Avelar é autor no Arcana News. A História e as dinâmicas do poder estão entre os seus principais interesses, a par das mudanças sociais e da política internacional. Escreve sobre os acontecimentos e as relações que ajudam a compreender como chegámos ao presente.
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Em 16 de outubro, Kaja Kallas reconheceu que a Europa não conseguia substituir, a curto prazo, a capacidade de comunicações por satélite de que a Ucrânia depende.

A União Europeia tem uma resposta em construção. Os primeiros lançamentos do IRIS² estão previstos para 2029. Até lá, precisa de assegurar comunicações com os sistemas disponíveis.

Há, portanto, duas tarefas com calendários diferentes: reduzir a vulnerabilidade atual e construir uma infraestrutura europeia duradoura.

Como pode a Europa garantir o acesso às comunicações de que precisa enquanto constrói uma constelação própria?

Ter acesso não é controlar o serviço

Starlink e Starshield fazem parte da oferta da SpaceX, mas têm finalidades distintas. A empresa apresenta o Starshield como um sistema destinado a entidades governamentais e à segurança nacional, desenvolvido a partir da tecnologia Starlink.

O problema europeu ultrapassa a escolha de uma empresa. Uma ligação pode depender de decisões que o cliente não controla inteiramente.

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A Agência da União Europeia para o Programa Espacial, EUSPA, identifica essa exigência nos requisitos do GOVSATCOM, o programa europeu de comunicações governamentais por satélite. Entre eles estão a garantia de que os recursos não serão retirados em benefício de utilizadores não governamentais ou de terceiros, a resistência a interferências e a proteção contra interceção e intrusão.

É uma definição concreta de autonomia: dispor de capacidade cujo acesso, prioridades e segurança correspondam às necessidades da missão.

Comunicações por satélite: a capacidade europeia que já existe

O GOVSATCOM iniciou operações em janeiro de 2026. Reúne capacidades de comunicações por satélite existentes, designadamente de sistemas governamentais e militares de Estados europeus, para as disponibilizar a utilizadores públicos autorizados.

Um país sem meios próprios pode, assim, aceder a recursos partilhados. A infraestrutura terrestre de coordenação, conhecida como GOVSATCOM Hub, organiza esse acesso.

A Comissão prevê também reforçar o conjunto disponível através da contratação de capacidade comercial que cumpra requisitos de segurança.

Em março, a EUSPA anunciou que Chipre tinha concluído a primeira aquisição e utilização operacional de serviços através do Hub.

Partilhar recursos permite aproveitar melhor o que está disponível. Não cria automaticamente a capacidade adicional de uma nova constelação.

A Europa dispõe ainda de operadores comerciais, incluindo a Eutelsat, que opera a rede OneWeb de satélites em órbita baixa. Estas empresas podem fornecer capacidade complementar enquanto a infraestrutura comum é desenvolvida.

Esquema do GOVSATCOM Hub que liga fornecedores de comunicações por satélite aos utilizadores governamentais
O GOVSATCOM Hub organiza a partilha de capacidade entre fornecedores e utilizadores governamentais autorizados. Esquema: © EUSPA 2026, fonte, reutilizado segundo o aviso de direitos de autor da agência.

O IRIS² foi reforçado para defesa e segurança

Em agosto de 2026, a Comissão Europeia e o consórcio SpaceRISE concluíram uma nova etapa de negociação sobre o IRIS². A arquitetura anunciada passou a prever 348 satélites: 330 em órbita baixa e 18 em órbita média.

O acordo fixa os primeiros lançamentos para 2029. O reforço inclui 66 satélites adicionais destinados a melhorar as capacidades para defesa, segurança e emergência. Segundo a Comissão, as alterações deverão aumentar a capacidade governamental segura em 60% dentro da União e em 54% a nível mundial, face ao desenho anterior.

São aumentos previstos. A sua concretização depende da construção, do lançamento e da entrada em serviço.

O consórcio SpaceRISE reúne SES, Eutelsat e Hispasat. A Agência Espacial Europeia acompanha o desenvolvimento técnico. O trabalho inclui também infraestrutura terrestre segura e contratação de lançamentos. A ESA indica que o reforço do programa exige investimento adicional, a financiar por uma combinação de recursos do orçamento europeu de 2028–2034 e de contribuições dos Estados-membros e de outros países.

O objetivo abrange comunicações cifradas para instituições, ministérios e embaixadas, apoio a operações de defesa e coordenação de emergências quando as redes terrestres estiverem limitadas.

O IRIS² procura assegurar serviços críticos sob enquadramento europeu. Compará-lo com a Starlink apenas pelo número de satélites deixa de fora as prioridades de utilização e as condições de segurança.

Uma rede europeia ainda pode precisar da SpaceX

A renovação da OneWeb mostra como as dependências se distribuem por várias etapas.

Em 2 de outubro, a Eutelsat anunciou que a Airbus tinha concluído os primeiros 32 novos satélites OneWeb em Toulouse. Os aparelhos estavam a ser preparados para um lançamento com a SpaceX.

A mesma operadora contratou dois lançamentos com a Arianespace, previstos para 2027 e 2028, utilizando o Ariane 64 a partir da Guiana Francesa.

Uma empresa pode fabricar satélites na Europa e recorrer a um lançador norte-americano. Pode também diversificar os lançamentos. Cada decisão responde a uma parte da cadeia industrial.

Imagem de divulgação do lançador europeu Ariane 64, escolhido para duas missões OneWeb
Imagem de divulgação do Ariane 64 disponibilizada com o anúncio de 10 de setembro de 2026. Os dois lançamentos OneWeb contratados estão previstos para 2027 e 2028. Imagem: Arianespace / Eutelsat. Reutilização editorial gratuita, licença Media Use.

Portugal já participa nesta procura de alternativas

Em setembro de 2026, a MEO e a Eutelsat anunciaram um acordo para integrar serviços OneWeb nas soluções de conectividade em Portugal. A proposta combina satélite, fibra e 5G, com o objetivo de fornecer ligações de reserva a empresas e administrações públicas.

Segundo o anúncio, a parceria aproveita uma relação anterior em que a MEO já acolhia infraestrutura terrestre da Eutelsat. Trata-se de uma oferta comercial de continuidade de comunicações, distinta do acesso governamental organizado pelo GOVSATCOM.

Para os utilizadores portugueses, o interesse imediato está nessa continuidade. Para as autoridades responsáveis por missões sensíveis, acrescem requisitos sobre segurança, prioridade e garantia de acesso.

A Europa está a desenvolver respostas nos três níveis: contratação comercial, partilha governamental e construção de uma constelação própria. Ainda não dispõe de uma substituição imediata para todas as capacidades de que a Ucrânia necessita.

Até à entrada do IRIS² em serviço, a autonomia nas comunicações por satélite terá de ser construída através de capacidade já contratada e de regras de acesso claras.

Fontes

Reuters, declarações de Kaja Kallas, 16 de outubro de 2026; SpaceX, apresentação do Starshield; EUSPA, requisitos do GOVSATCOM e primeira utilização por Chipre, 10 de março de 2026; Comissão Europeia, reforço do IRIS², 7 de agosto de 2026; ESA, execução técnica e financiamento; Eutelsat, novos satélites OneWeb, 2 de outubro de 2026; Arianespace, acordo de lançamentos; Eutelsat e MEO, parceria em Portugal, 23 de setembro de 2026.

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