O banco iraniano que Bessent mandou fechar continua aberto

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Washington ameaça bancos e empresas ligados ao Irão, mas ainda não explicou como atingirá a China, principal compradora do petróleo iraniano.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Numa rua comercial de Hong Kong, entre uma sucursal bancária e outra, há um letreiro que continua aceso: Bank Melli Iran. O mesmo letreiro existe em Londres, em Paris, em Moscovo. Para que uma dessas sucursais feche, é preciso que o regulador local intervenha ou que um banco correspondente deixe de aceitar o risco. Foi contra o Bank Melli, o maior banco do Irão, estatal e presente numa dúzia de países, que Scott Bessent apontou esta segunda-feira, ao anunciar aquilo que a sua própria equipa tinha andado a promover como “D-Day económico”.

O banco iraniano que Bessent mandou fechar continua aberto

Bessent, secretário do Tesouro norte-americano, descreveu o pacote como o assalto mais abrangente alguma vez montado contra a economia iraniana: sanções a “toda a fonte ou facilitador” de receita do regime, a promessa de “apertar o nó” a Teerão, a exigência de que cada sucursal do Bank Melli seja “encerrada e apagada” sob pena de ser expulsa do sistema do dólar. Mas o próprio secretário, minutos depois de invocar o desembarque na Normandia como referência, recuou para uma imagem bem mais modesta. Aquilo, disse aos jornalistas, era mais um tiro de aviso do que uma invasão. “Estamos a dar a todos a oportunidade de corrigir o mau comportamento”, afirmou. E, quando lhe perguntaram porque não ia mais longe: “Porque é que eu haveria de querer explodir o sistema financeiro global?”

Bessent disse também que a iniciativa passaria por coordenação entre aliados. Até agora, as sanções decretadas em Washington têm levado bancos e empresas a escolher entre os mercados americano e iraniano; para a maioria, essa escolha está resolvida há muito. A adesão de Londres, Bruxelas, Tóquio ou dos Estados do Golfo poderia fechar vias alternativas usadas por instituições europeias e asiáticas para manter ligações residuais a Teerão sem violarem diretamente a lei americana. O anúncio de segunda-feira, porém, não identificou parceiros nem explicou quando ou como essa coordenação seria feita.

Edifício do Bank Melli na Avenida Ferdowsi em Teerão
Edifício do Bank Melli na Avenida Ferdowsi, em Teerão. A Operation Economic Outcast procura cortar as ligações internacionais do maior banco estatal iraniano. Foto: Xiquinho Silva, CC BY 2.0.

Há quase cinco décadas que o Irão vive sob sanções norte-americanas e internacionais. Durante esse período, o Estado continuou a funcionar e aprofundou os laços com a Rússia e com a China. Pequim tornou-se o comprador que os Estados Unidos não conseguem afastar através de sanções.

Teerão recebe uma nova ronda de sanções como a continuação de um processo que já aprendeu a gerir. Para movimentar receitas, as redes financeiras iranianas recorrem ao mercado paralelo de câmbio e ao contrabando terrestre. Alguns navios desligam os transponders para ocultar a origem da carga. Empresas de fachada registadas noutros países tratam do resto.

A China compra a maior parte do petróleo que o Irão ainda consegue vender, normalmente com desconto, e fá-lo em boa medida através de pequenas refinarias independentes, conhecidas informalmente como “bules de chá”, que estão fora do alcance direto das sanções norte-americanas ou que absorvem o risco de as violar porque o negócio compensa. Pequim ignora as sanções contra a compra de crude iraniano há anos, sem consequências que tenham alterado esse cálculo. Questionado sobre uma eventual ação direta contra entidades chinesas, Bessent respondeu apenas que ninguém ficaria isento da campanha de pressão. Não identificou entidades nem explicou que medidas tenciona aplicar.

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Sancionar efetivamente bancos e refinarias chinesas teria efeitos na relação comercial e financeira que a administração Trump procura gerir com cuidado. Nenhuma administração americana decidiu até agora suportar esse custo por completo. Bessent também não indicou que o fará.

Vista aérea da ilha de Kharg e do terminal petrolífero iraniano
A ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo do Irão, vista da Estação Espacial Internacional. As vendas de crude, sobretudo para a China, continuam a financiar Teerão apesar das sanções. Foto: NASA/Johnson Space Center, domínio público.

Bessent referiu-se a resultados “já visíveis”, sem dizer quais. Na semana passada, os Emirados Árabes Unidos anunciaram a suspensão de todas as transações comerciais e financeiras com o Irão, depois de acusar Teerão de ter disparado mísseis na direção do seu território.

Os Emirados ficam a cerca de 80 quilómetros do Irão, do outro lado do Golfo Pérsico, uma distância que se percorre de barco em poucas horas. A proximidade sustentou décadas de comércio. Em 2024, as trocas entre os dois países valeram cerca de 28 mil milhões de dólares, com os Emirados a funcionar como a maior origem das importações iranianas, segundo dados da Organização Mundial do Comércio.

Abu Dhabi acusara o Irão de disparar mísseis na direção do seu território. O anúncio dos Emirados chegou horas depois de uma chamada telefónica de Donald Trump ao líder emiratense, o xeque Mohammed bin Zayed. Não há elementos públicos que estabeleçam o peso dessa chamada na decisão.


A resposta oficial iraniana veio da Guarda Revolucionária Islâmica, num comunicado publicado pela imprensa estatal poucas horas depois do anúncio de Bessent. “Ao travar uma guerra económica e impor sanções em múltiplas camadas, o inimigo procura semear desespero, pressionar as condições de vida das pessoas e minar a confiança social”, afirmou a Guarda.

A Guarda reconheceu que as sanções atingem as condições de vida e a confiança no Estado. Fê-lo num texto de mobilização que responsabiliza o inimigo externo pela inflação e pela falta de bens.


Na mesma semana, o Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos cancelou um exercício militar conjunto com a Coreia do Sul (o Ssangyong, ou “Twin Dragons”, um desembarque anfíbio bienal de alto perfil), invocando as exigências operacionais da guerra no Irão. A decisão tinha sido comunicada aos sul-coreanos em junho; o cancelamento só se tornou público esta segunda-feira.

Nenhum comunicado relacionou o cancelamento com o pacote de sanções. Os recursos deslocados para a guerra deixam menos margem para exercícios com aliados no Pacífico.


As negociações para terminar o conflito militar entre os Estados Unidos e o Irão continuam sem resultado. Os preços da energia subiram, e essa subida já afeta a popularidade do presidente Trump.

Bessent apresentou, com nome de código e conferência de imprensa, uma operação que descreveu como preparação para negociações discretas. Chamou-lhe “Economic Outcast”. Sancionar o Bank Melli outra vez não é uma novidade: o Tesouro americano já o persegue há anos, por alegadamente prestar serviços bancários a entidades ligadas aos programas nuclear e de mísseis balísticos do Irão. Desta vez, Bessent prometeu coordenação entre aliados e exigiu publicamente que bancos em Londres ou Hong Kong fizessem uma escolha.


Bessent falou ainda em “diplomacia silenciosa” e apresentou a pressão como preparação para futuras negociações, sem as assumir publicamente. Sobre a China, não anunciou qualquer medida concreta nem esclareceu se essa ausência era temporária. Na noite do anúncio, a sucursal do Bank Melli em Hong Kong continuava aberta.

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