O segredo que mantém o regime talibã de pé

As exceções silenciosas e as contradições que sustentam Cabul estão prestes a esgotar-se

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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Cinco anos depois de tomar Cabul, o Talibã continua a governar um país onde certas regras são aplicadas com rigor e outras parecem sobreviver através daquilo que não chega a ser perguntado.

Uma médica qualificada pode trabalhar numa unidade privada de saúde materna. Numa clínica em algum ponto do Afeganistão, isso não impede o recrutamento. Ninguém pergunta onde estudou. A situação existe apesar de Haibatullah Akhundzada ter proibido as raparigas de frequentarem a escola para além do sexto ano e de considerar a influência ocidental uma fonte de corrupção moral.

As médicas continuam a trabalhar.

Mulheres afegãs vestindo burca ao ar livre no Afeganistão
Mulheres afegãs no espaço público, no Afeganistão. Foto: Faruk Tokluoğlu / Pexels (uso livre)

Fora do país, encontra-se uma versão diferente da mesma dificuldade. A Rússia é o único Estado que reconhece formalmente o governo talibã. A China, o Paquistão, Emirados Árabes Unidos e Usbequistão aceitaram credenciais de embaixadores talibãs e mantêm relações práticas com Cabul, mas não deram esse passo.

Os Estados Unidos seguiram outro caminho. Concederam isenções de sanções que estiveram entre as mais amplas emitidas até então, permitindo alguma circulação da economia afegã. Não houve, porém, uma aproximação política. Washington mantém também uma cooperação de contraterrorismo com Cabul, descrita por funcionários americanos como moderada, embora os grupos abrangidos não tenham sido identificados publicamente.

O governo talibã pode, portanto, manter contactos, comércio e alguma cooperação sem obter reconhecimento formal. Os países que lidam com ele conseguem fazer o mesmo sem assumir politicamente o regime. A doutrina interna permanece praticamente intocada.

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Quando a divergência deixa de poder ser mantida nesse espaço intermédio, a situação muda.

Em Zabul, facções talibãs combateram directamente entre si e centenas de pessoas morreram. É o único caso documentado de fractura armada aberta dentro do movimento desde 2021. A diferença interna, nesse caso, deixou de poder permanecer numa zona de tolerância informal.

A sucessão de 2016 oferece outro exemplo. Depois de os Estados Unidos matarem Mullah Mansour, então líder talibã e descrito por várias fontes como mais transaccional, o movimento escolheu como sucessor o candidato que reunia maior consenso interno. A escolha não conduziu a uma abertura maior. Num movimento estruturalmente conservador, preservou a linha mais rígida.

Essa preferência torna-se importante quando as circunstâncias já não permitem adiar decisões.

O espaço disponível para isso está a diminuir. A fronteira com o Paquistão encontra-se praticamente encerrada ao comércio na sequência do conflito entre os dois países. A guerra e as sanções contra o Irão afectaram igualmente essa rota. Ao mesmo tempo, entre 500 e 600 mil novos activos entram todos os anos no mercado de trabalho afegão.

Vista aérea do terreno montanhoso e acidentado do Afeganistão
O terreno acidentado do Afeganistão isola regiões inteiras das rotas comerciais. Foto: Nadir Yosufi / Pexels (uso livre)

A economia também mudou de escala. Entre 20 e 30 por cento desapareceu com a queda do financiamento externo ao Estado. As estimativas de fome voltam a subir.

Neste contexto, há decisões que não podem ser indefinidamente adiadas. O comércio precisa de passar por alguma fronteira. Os alimentos têm de ser distribuídos. Uma população crescente procura trabalho. À medida que as margens económicas se estreitam, a capacidade de deixar problemas por resolver torna-se menor.

A estabilidade do Talibã tem coexistido até agora com essas contradições: uma médica pode continuar a exercer, embora a formação das raparigas esteja proibida depois do sexto ano; governos estrangeiros podem negociar com Cabul sem reconhecer o seu poder; divergências internas podem permanecer contidas enquanto não exigem uma ruptura.

O que acontece quando essa margem desaparece ainda não está decidido. Mas é nesse ponto que o sistema será obrigado a mostrar se consegue governar para além da capacidade de adiar escolhas.

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