A Palantir vale cerca de 280 mil milhões de dólares em bolsa. O número não diz apenas que os investidores acreditam na empresa. Diz que uma certa relação entre tecnologia privada e poder federal deixou de precisar de disfarce. Durante anos, a Palantir foi apresentada como uma fornecedora controversa de software para agências de informações, polícias e forças armadas. Hoje é tratada como uma das empresas que melhor encarnam a reaproximação entre Silicon Valley e Washington.
Essa aproximação ganhou uma linguagem própria em The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West, livro assinado por Alexander Karp, presidente executivo da Palantir, com Nicholas Zamiska. O argumento é direto: os Estados Unidos desperdiçaram demasiado talento tecnológico em produtos de consumo e perderam o sentido de missão nacional que, no século XX, ligou ciência, indústria e poder militar. Para Karp, a disputa com China, Rússia e Irão exige que o Estado volte a orientar parte da inovação tecnológica para a defesa.
A tese não é apenas empresarial. É política. E responde a uma pergunta que Washington tem evitado desde o fim da Guerra Fria: para que serve a superioridade tecnológica americana, se as suas melhores empresas recusam trabalhar nas zonas mais duras do poder?
2003, depois da bolha e do 11 de Setembro
A Palantir nasceu em 2003, quando duas crises ainda estavam abertas. O rebentamento da bolha das empresas ponto-com tinha abalado a promessa civil e libertária da internet. Os atentados de 11 de setembro tinham criado outra urgência: ligar dados dispersos, reconhecer padrões, antecipar ameaças.
Peter Thiel fundou a empresa e chamou Alexander Karp, seu antigo colega da Faculdade de Direito de Stanford, para a dirigir. O nome veio das pedras videntes de O Senhor dos Anéis. A tecnologia não vinha da fantasia. A Palantir construiu plataformas de integração e análise de dados destinadas a tornar legível aquilo que, para um analista humano, podia continuar fragmentado.
Nos primeiros anos, essa promessa não seduziu grande parte do capital privado. Vigilância, defesa e informações eram setores difíceis de vender à cultura dominante de Silicon Valley. A Palantir sobreviveu com poucos contratos e com o apoio da In-Q-Tel, o braço de investimento da CIA. Essa origem nunca deixou de pesar sobre a sua reputação. Para organizações de defesa das liberdades civis, a empresa representava o risco de uma vigilância estatal cada vez mais opaca. Para alguns críticos técnicos, vendia mais poder analítico do que aquele que conseguia entregar.
A viragem foi gradual. Em 2016, a Palantir processou o Departamento de Defesa dos EUA, alegando que as regras de contratação pública estavam a excluir software comercial já existente. Ganhou o processo. Dois anos depois, recebeu um contrato de grande dimensão com o Exército norte-americano. Quase ao mesmo tempo, a Google enfrentava protestos internos contra a sua participação no Project Maven, iniciativa do Pentágono para usar inteligência artificial na análise de imagens de reconhecimento aéreo. A Google saiu. A Palantir entrou.
Não foi só uma troca de fornecedor. Foi o sinal de que uma parte da indústria tecnológica aceitava ocupar o lugar que outra parte considerava tóxico.

O livro quer devolver engenheiros à defesa
Em The Technological Republic, Karp e Zamiska transformam essa escolha numa doutrina. O problema, dizem, não é só a lentidão do Estado. É a perda de uma cultura comum capaz de convencer engenheiros, investidores e executivos de que trabalhar para a defesa nacional pode ser uma tarefa legítima.
O livro critica uma indústria que concentrou demasiada energia em publicidade, entretenimento, aplicações de conveniência e produtos desenhados para captar atenção. Na leitura de Karp, o talento técnico americano desviou-se dos projetos difíceis. Os funcionários temem a marca moral dos contratos militares. Os investidores receiam o custo reputacional. Os executivos habituaram-se a gerir produtos, não missões.
O Project Maven aparece como exemplo dessa fratura. Para Karp, a recusa da Google não foi apenas um episódio de consciência interna contra o uso militar da inteligência artificial. Foi sinal de uma incapacidade maior: certas empresas tecnológicas já não reconhecem o Estado democrático como destinatário legítimo do seu trabalho mais avançado.

A referência histórica do livro é o Programa Manhattan. Karp e Zamiska apresentam-no como modelo de mobilização científica e industrial em torno de uma necessidade estratégica. A comparação é pesada e, por isso, reveladora. Não diz que a inteligência artificial seja a bomba atómica. Diz que a tecnologia de dupla utilização, civil e militar, deve voltar a ser pensada a partir de uma urgência nacional.
O livro defende ainda que o governo federal deve formular necessidades claras às empresas, em vez de as prender em processos de contratação pública longos e excessivamente detalhados. A inovação, nesta visão, não nasce apenas do mercado. Nasce também de um Estado que sabe pedir, comprar e usar.
Frankfurt, Stanford e a nação
Karp não cabe facilmente na caricatura do executivo de defesa. Apoia-se publicamente numa identidade liberal, apoiou Joe Biden e Kamala Harris, e estudou Filosofia na Universidade Goethe de Frankfurt, onde foi influenciado por Jürgen Habermas. Antes disso, formou-se em Direito em Stanford, onde conheceu Thiel.
A sua tese de doutoramento passou por uma polémica alemã: o discurso de Martin Walser em 1998, no qual o escritor sugeriu que a memória permanente de Auschwitz estava a ser usada para impor à sociedade alemã uma culpa sem fim. Esse debate regressa, de outro modo, em The Technological Republic. Karp e Zamiska discutem a Alemanha do pós-guerra como exemplo de um país que, na sua leitura, perdeu capacidade de afirmação estratégica por hesitar perante qualquer forma de identidade nacional.
É nesse ponto que o liberalismo declarado de Karp se cruza com um repertório conservador. O livro cita Roger Scruton, Roger Kimball, Irving Kristol, Leo Strauss, Niall Ferguson e Peggy Noonan. A combinação não é acidental. Karp procura uma esquerda compatível com poder nacional, tecnologia militar e defesa do Ocidente. Mas os autores que lhe dão linguagem vêm, em grande parte, de outra tradição.
Yarvin não quer o mesmo Estado
A aproximação entre Palantir e Washington não é a única política tecnológica a emergir deste período. Há outra, também saída de Silicon Valley, que olha para o Estado não como instrumento a reforçar, mas como máquina a reduzir.
Curtis Yarvin, programador conhecido pelo pseudónimo Mencius Moldbug, é uma das referências dessa corrente. A sua crítica parte da ideia de que os Estados Unidos sofrem de falta de autoridade executiva clara. Para Yarvin, as melhores empresas tecnológicas funcionam porque obedecem a uma cadeia de comando concentrada. A administração pública, nessa leitura, deveria aproximar-se desse modelo.
Em 2014, uma petição enviada à Casa Branca por um engenheiro da Google propôs transferir a autoridade administrativa federal para a indústria tecnológica e sugeriu Eric Schmidt, então presidente da Google, como figura capaz de chefiar essa nova administração. A inspiração vinha diretamente de Yarvin. Mais tarde, J. D. Vance identificou-o como influência.
Elon Musk tornou essa corrente mais visível por outros meios. Quando assumiu o controlo do Twitter, enviou aos funcionários um e-mail intitulado “Fork in the Road”, colocando-os perante a escolha entre aceitar novas condições de trabalho ou sair. Já no Departamento de Eficiência Governamental, criado pela administração Trump, repetiu o título num e-mail dirigido a funcionários federais, oferecendo indemnizações em troca da demissão voluntária.
A diferença é decisiva. Karp quer que a tecnologia volte a servir um Estado capaz de agir. A corrente associada a Yarvin e Musk quer tornar o Estado mais parecido com uma empresa comandada de cima, ou simplesmente mais pequeno. Ambas desconfiam da administração pública tal como existe. Mas uma quer mobilizá-la; a outra quer cortá-la.
O choque que o livro deixa fora
A derrota de Kamala Harris frente a Donald Trump alterou o contexto político em que o livro de Karp chegou ao público. Não travou a Palantir. Pelo contrário: a ação da empresa valorizou perto de 600% em relação à média do preço registado durante o mandato de Biden. A tese de Karp, uma indústria tecnológica orientada para projetos de defesa e ligada a um Estado mais exigente, tornou-se financeiramente mais forte no mesmo momento em que outra parte do ecossistema prometia cortar a máquina federal.
É esse o ponto que o livro não resolve. A nova direita tecnológica não fala a uma só voz. Há nela uma linha que quer reconstruir o Estado americano como comprador, coordenador e utilizador de tecnologia estratégica. Há outra que vê no próprio Estado o problema a eliminar. A Palantir pertence claramente à primeira. Musk e Yarvin ajudam a dar forma à segunda.
Washington pode tentar usar as duas ao mesmo tempo: comprar tecnologia de guerra a empresas como a Palantir e, noutro braço do governo, reduzir a administração que deve definir, supervisionar e controlar esses contratos. Mas essa combinação tem uma tensão própria. Um Estado demasiado fraco pode comprar poder tecnológico sem conseguir governá-lo. Um Estado demasiado dependente das suas empresas pode acabar a confundir capacidade nacional com balanço privado.
A valorização da Palantir mostra que o mercado já escolheu uma parte da história. A política ainda não resolveu a outra.
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