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O Bloco de Dependência dos Chips de IA no Golfo, explicado em três camadas
- A Arábia Saudita e os Emirados comprometeram dezenas de milhares de milhões de dólares em IA, diversificando os fornecedores de chips para reduzir a dependência de um único vendedor.
- Essa diversificação não resolve três camadas de dependência: o fabrico (TSMC e memória especializada), o licenciamento político dos EUA (que cobre também a AMD e a Qualcomm) e o software (a CUDA da Nvidia).
- A Humain (Arábia Saudita) e a G42 (Emirados) assinaram acordos com a AMD, a Qualcomm e a Groq ; mas continuam a depender da Nvidia para o treino dos modelos mais exigentes.
- Nem dinheiro ilimitado compra uma independência tecnológica plena; nem sequer a Europa a tem hoje ao seu alcance, segundo analistas citados.
- Maio de 2025 — Acordo de cooperação em IA entre os EUA e os Emirados Árabes Unidos.
- Agosto de 2025 — A Humain fecha acordos com a AMD, a Groq e a Qualcomm.
- Trimestre encerrado em outubro de 2025 — A Nvidia regista 51,2 mil milhões de dólares em receita de centros de dados.
- Novembro de 2025 — O Departamento do Comércio dos EUA autoriza a exportação de chips Blackwell para a Humain e a G42.
- Janeiro de 2026 — O diretor executivo da G42, Peng Xiao, reconhece que o Stargate continuará maioritariamente equipado com chips Nvidia.
O Bloco de Dependência dos Chips de IA no Golfo
Nos últimos doze meses, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos comprometeram dezenas de milhares de milhões de dólares para se tornarem as potências de inteligência artificial antes de a riqueza do petróleo começar a esgotar-se. Fizeram-no tentando espalhar as compras de chips por vários fornecedores, de forma a que nenhum controlasse sozinho o preço e o ritmo a que podem construir. O resultado, até agora, não é uma redução de dependência: é uma diversificação de fornecedores dentro do mesmo bloco de dependência. Nem todos os obstáculos que travam essa diversificação estão ao mesmo nível: uns são visíveis e contornáveis com dinheiro; outros são estruturais e não desaparecem trocando de marca de chip.
A camada que nenhum fornecedor evita: o fabrico
Antes de qualquer decisão comercial entre Riade, Abu Dhabi e os fabricantes de chips, existe um estrangulamento de fabrico que nenhum deles controla: uma memória de alta velocidade especializada, escassa em todo o setor, e a capacidade de produção da TSMC, a fabricante taiwanesa que constrói chips tanto para a Nvidia como para os seus concorrentes. Comprar a um rival da Nvidia não contorna este estrangulamento — apenas o desloca, porque quem fabrica os chips alternativos depende exatamente da mesma cadeia de fornecimento a montante. Mesmo os desenhos de circuitos integrados de aplicação específica, mais baratos e cada vez mais usados para tarefas de inferência em vez de treino de modelos, continuam a precisar da capacidade de fabrico da TSMC. Não aparece em nenhum comunicado de imprensa sobre um novo acordo — mas é o que determina quanto qualquer fornecedor, Nvidia incluída, consegue efetivamente entregar.
A camada que nenhum dólar remove: o licenciamento político
Os chips da AMD e da Qualcomm — apresentados como alternativas à Nvidia — continuam a ser produtos norte-americanos, e a sua venda ao Golfo continua a exigir aprovação de Washington. Diversificar entre estas empresas dilui a dependência de um único vendedor comercial, mas não a dependência política dos Estados Unidos como bloco regulador — segundo Sam Winter-Levy, investigador da Carnegie Endowment for International Peace especializado na geopolítica dos chips. A única mudança real de bloco viria da China, mas os seus melhores chips continuam pelo menos uma geração atrás dos da Nvidia, e a maior parte da produção chinesa é absorvida pelas próprias empresas do país. Washington, por seu lado, condiciona o acesso do Golfo à tecnologia de ponta norte-americana à exclusão de equipamento chinês — o que fecha, por decisão política e não por escassez de mercado, a única via que mudaria esse cálculo.
A camada visível: software e os números do Golfo
A Humain, criada no ano passado pelo fundo soberano saudita, fechou um acordo de 10 mil milhões de dólares com a AMD para 500 megawatts de capacidade computacional, um acordo de 2 mil milhões com a Groq para correr o seu chatbot, e uma parceria com a Qualcomm para 200 megawatts de chips num centro de dados saudita. Mas estes acordos servem sobretudo tarefas mais estreitas — os chips da Qualcomm e da Groq são desenhados para correr modelos já treinados, de forma barata, em tarefas do dia a dia, enquanto o treino de modelos mais potentes continua a exigir chips Nvidia, segundo Kamil Dimmich, sócio da North of South Capital, uma gestora especializada em mercados emergentes. A própria Humain, apesar de todos estes acordos paralelos, encomendou como primeira compra à Nvidia 18 mil unidades do seu mais recente chip Blackwell — o hardware que faz o trabalho pesado que nenhum rival iguala ainda, segundo Dimmich.
A G42, a empresa de IA apoiada pelo Estado emiradense, está a construir o centro de dados Stargate em Abu Dhabi, cuja primeira fase assenta em 400 mil chips Nvidia; apesar de meses a tentar espalhar encomendas por vários fornecedores, o próprio diretor executivo da G42, Peng Xiao, reconheceu em janeiro que as máquinas dentro do Stargate seriam, na prática, maioritariamente Nvidia.
No trimestre encerrado em outubro, o negócio de centros de dados da Nvidia gerou 51,2 mil milhões de dólares, mais 66% do que no ano anterior, com a mais recente linha de arquitetura Blackwell esgotada. Parte deste domínio vem do próprio chip; parte vem da CUDA, a plataforma proprietária de computação paralela da Nvidia, construída ao longo de quase duas décadas e hoje usada por mais de quatro milhões de programadores — mudar para um concorrente implica reconstruir, do zero, anos de trabalho de engenharia.
O que o dinheiro não resolve
Mesmo a riqueza do Golfo compra menos vantagem do que seria de esperar: as gigantes tecnológicas norte-americanas com quem os fundos sauditas e emiradenses competem pelos mesmos chips conseguem levantar capital em condições igualmente favoráveis nos mercados financeiros — o dinheiro, para já, não é o que decide quem fica à frente na fila de produção, segundo Dimmich, ainda que possa vir a tornar-se um constrangimento no futuro. Mohammed Soliman, do Middle East Institute, em Washington, situa o problema num plano ainda mais estrutural: construir uma indústria de inteligência artificial plenamente independente tornou-se tão dispendioso que nem as economias mais ricas do mundo o conseguem fazer sozinhas — nem sequer a Europa, apesar da sua capacidade industrial e dos seus mercados de capitais, tem hoje uma perspetiva realista de montar uma cadeia de IA totalmente própria num horizonte temporal significativo.
Os movimentos do Golfo não devem ler-se como uma procura falhada de independência, mas como uma escolha consciente de outro tipo: aprofundar a integração com fornecedores e parceiros norte-americanos, em vez de esperar por alternativas que talvez nunca cheguem a igualar o que já existe. As camadas de fabrico e de licenciamento político garantem que essa escolha, mais do que uma preferência, é também um limite.
Imagem: Anoop VS / Pexels
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